O Presidente dos afectos ou o político frio e calculista?

Compreende-se que o governo e os dirigentes do PS não queiram empolar nem explorar as palavras e as atitudes do Presidente nos últimos dias. O primeiro-ministro é suficientemente experiente para perceber e ultrapassar a desfeita que elas representam. Mas o facto de jornalistas e comentadores incensarem o Presidente revelando uma gritante incapacidade de distanciamento não impede que outros olhem para os factos com cabeça fria e análise desapaixonada.

O Presidente não é alguém que tenha surgido de fora da política para salvar o país através de afectos. É um político que durante décadas a fio dispôs, como nenhum dos seus antecessores, de uma tribuna que lhe permitiu  influenciar a opinião pública e fez dele o mais eficaz spin-doctor da política portuguesa, prática que mantém através de constantes aparições e declarações públicas. Marcelo não é apenas um homem de afectos que gosta de abraçar os que sofrem. É também um político que persegue objectivos próprios e que manifestamente gosta do poder e o usa nas margens das suas competências.

No discurso de 16 de Junho, perante o País atordoado pela tragédia, o Presidente pôs em causa a continuidade do governo, coisa que não podia fazer, ao chamar o Parlamento a decidir se queria ou não que o governo continuasse. Foi um passo que nenhum Presidente ousara dar antes e que não cabe nas funções do Presidente. Que tenhamos visto, os incêndios não obstante a enorme tragédia que deles resultou, não atentaram contra o “regular funcionamento das instituições”, condição que legitimaria uma intervenção do Presidente. Não tendo os partidos que apoiam o governo levantado qualquer questão quanto à manutenção desse apoio, o discurso do Presidente só pode ser lido como uma tentativa de fazer  crer aos portugueses que a “culpa” do governo nos incêndios era tão grande que a sua continuação necessitava de relegitimação.

A nova atitude do Presidente para com o Governo surge após uma vitória estrondosa do PS nas eleições autárquicas e num momento em que as sondagens davam o PS perto de poder alcançar uma maioria absoluta.  A economia vai bem e a aprovação do orçamento para 2018 parece assegurada. Por outro lado, o PSD aguarda a eleição de um novo líder que necessitará de algum tempo para se afirmar no País. Inteligente e arguto, Marcelo sentiu o perigo que representaria para o papel que reserva para si próprio como Presidente, se o PS viesse a conseguir uma maioria absoluta nas próximas legislativas. Com um governo de maioria absoluta o Presidente perderia poder e influência.

As tragédias de Junho e Outubro foram, pois, a oportunidade para o Presidente fragilizar o governo. Ao ter feito saber repetidamente que tinha pressa que fossem apuradas responsabilidades (como se o governo estivesse a empatar o apuramento dos factos) induziu as pessoas a pensarem que o governo era inoperante e incompetente e que sem a sua presença e as suas palavras nada seria resolvido.

Só assim se justifica que o Presidente tenha quebrado a lealdade institucional com o governo e tenha feito tábua rasa da informação que o primeiro-ministro lhe tinha fornecido, fingindo que não sabia que a ministra Constança Urbano de Sousa ia ser demitida e que iam ser anunciadas importantes decisões quanto às populações e zonas afectadas.

O Presidente dos afectos pode ser também muito frio e calculista.

 

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16 respostas a O Presidente dos afectos ou o político frio e calculista?

  1. Luis Albuquerque Novais diz:

    Calculista é o ministro da defesa . Afinal o assalto a Tancos, se é que houve assalto mas que agora se sabe com segurança que houve porque o assalto deu lucro. Centeno já ordenou ao ministro da defesa para mandar efectuar novo assalto mas agora “em grande”. On este conseguiram uma caixa de munições de ganho. Com astúcia própria do ministro da defesa vamos ter um assalto as segundas, quartas e sextas e devoluções com reforço as terças quintas e sábado. O domingo é para o ministro ir à televisão contar como foi ou talvez não . Até pode em tese nem haver ministro . Ou será que não há mesmo .
    As coisas que A Costa arranja para que o PC e o BE não se apercebam do que está no OE2018!

  2. Enterremos os mortos e cuidemos, já, dos vivos! Deixemos o palavreado rasca para as carpideiras e os intriguistas!
    Esclareçam-me,por favor: em que entidade bancária.em que conta,e qual o montante depositado a favor das vítimas (?) dos incêndios,que logo à partida já ultrapassava os 12 milhões de Euros?
    A indústria da caridade não poderá seguir impune,como era costume. A menos que o paradeiro desses dinheiro seja Segredo de Estado… mas se é segredo das Associações das Misericórdias estaremos bem tramados.
    O que é que as Misericórdias tem a ver com esta tragédia?

  3. jmflousada diz:

    Concordo e subscrevo. Portas, que o conhece bem, diz; ele está com Deus e com o Diabo. Na inteligência e na maldade.

  4. Um Presidente desalinhado confunde as mentes dos que só pensam alinhados com a doutrina partidária… Este Presidente pensa pela própria cabeça e não deve ser condenado por isso!! Viva Marcelo!!

  5. Pedro Soares Lourenço diz:

    Para mim tem uma coisa muito importante em comum com o ex-presidente Cavaco Silva, tanto um como o outro nunca me enganaram, nunca votei neles.

  6. José Noronha diz:

    “jornalistas e comentadores incensarem o Presidente revelando uma gritante incapacidade”: jornalistas e comentadores, na sua quase total maioria, porque só querem sangue e lágrimas, também quiseram ver sangue a jorrar entre o Presidente e o Governo: enceguecidos pelos bambúrrios da Cristas perderam a noção da realidade.
    – o Presidente “gosta do poder e o usa nas margens das suas competências.”- Há quem ainda não o saiba.
    -a “16 de Junho, perante o País atordoado pela tragédia, o Presidente pôs em causa a continuidade do governo, COISA QUE NÃO PODIA FAZER, ao chamar o Parlamento a decidir se queria ou não que o governo continuasse. Foi um passo que nenhum Presidente ousara dar antes e que NÃO CABE NAS FUNÇÕES do Presidente.”
    -“ Inteligente e arguto, Marcelo sentiu o perigo que representaria para o papel que reserva para si próprio como Presidente, se o PS viesse a conseguir uma maioria absoluta nas próximas legislativas.” Uma maioria absoluta irá amolentar os afectos deste Presidente: sabemos que Marcelo não nem ingénuo nem inocente.
    – O Presidente quebrou a lealdade institucional com o governo e fez tábua rasa da informação que o primeiro-ministro lhe tinha fornecido: Marcelo não nem ingénuo nem inocente.

  7. Manuel Carvalho diz:

    Está a vir à tona a sua veia política original. O Sr. Presidente que me estava a surpreender pela suas atitudes, apesar do excesso de protagonismo e “populismo”, veio recentemente e muito prontamente manifestar que os bons resultados obtidos pelo atual governo também se deviam ao trabalho do anterior, mas agora perante as mortes originadas pelos fogos de natureza absolutamente excecional, já não teve a mesma atitude e não imputou ao anterior governo o “mérito” do corrido.
    Deixa-me muito dececionado, mas o azeite vem sempre ao cimo.

  8. Carlos Duarte diz:

    Grande Presidente da República que temos! De longe o mais inteligente, activo e popular do pós 25 de Abril. Com ele sinto-me mais português e descansado em relação à defesa dos valores de uma sociedade democrática.

  9. António Teixeira diz:

    Desengane-se quem pensa que Marcelo agiu e age de livre iniciativa, ele segue religiosamente e tacticamente indicações de responsaveis europeus e mundiais numa tentativa de desacreditar a boa governação de um governo de esquerda, que contraria em tudo o que era a linha indicada pelos senhores para uma recuperação da economia nacional. Ficamos a aguardar mais mimos do PR em consonãncia com o sucesso de governação e da sua tentativa de tudo fazer para puxar o PSD para a area da governação, que eu espero muito francamente que tal não aconteça dada a mediocridade dos artistas que o representam

  10. maria elisa ribeiro diz:

    Possivelmente agiu de cabeça quente ,o que não tem desculpa,perante semelhante tragédia o Presidente,viu-se apertado ,também não tem desculpa ,,talvez uma conversa com as pessoas certas fosse o mais certo,o Sr. Ministro já esqueceu ou tenta esquecer este conflito ,O importante é que se entendam como o faziam antes dos incêndios e consigam resolver os problemas com dignidade e melhor possível,porque é o que os portugueses esperam

  11. José Neves diz:

    Concordando no essencial com o que escreve, pergunto:
    1) Quem condescendeu com Marcelo quando este, frequentemente, agiu na margem (e para além) dos seus poderes, durante o tempo que leva como PR?
    2) Quem lhe deu palco em muitos actos para se associar ao bom desempenho da economia?
    3) António Costa e o PS não conhecem Marcelo?
    Na política, o excesso de tacitismo paga-se caro (veja-se Guterres) ainda mais quando a isso acresce ingenuidade.

  12. Isabel Santos diz:

    Nao acredito, nunca acreditei nele ! Ninguem muda de um dia para o outro … acho que esta a preparar o terreno de boas vindas para o proximo lider do seu partido ! Não se esqueçam que é o PSD… Duas caras !

  13. Alves Reis diz:

    Quando da campanha para as presidenciais, não faltou quem tivesse avisado que com Marcelo iríamos ter oito anos de “comentários dominicais” e produção diária de factos politicos em horário nobre. Está visto que foi prognóstico acertado. Mas, como bem se vê pelos indices de popularidade da criatura, o bom povo adora um ” Perón”. Tivesse ele uma Evita e não haveria mais quem o segurasse.

  14. Antonio diz:

    Destituir o governo seria o caus. Todos ,mas todos os políticos são os verdadeiros responsáveis…havendo mais responsáveis que os há…procurem as entidades para que se resolvam. Muita gente faz vista grossa mas está sempre pronta a condenar..
    Todos terão que fazer o seu melhor para que possamos ser o melhor país para se viver. O presidente dos Portugueses terá que ser activo e exercer os seus poderes e ver com isenção.

  15. Manuel Ferraria diz:

    Se é certo que considero este governo legitimo, pois emana da Assembleia da Republica, tambem considero que a partir do momento que o Presidente da Republica Jorge Sampaio demitiu o governo de Santana Lopes tambem suportado por uma maioria na Assembleia, resulta daqui e como dizem em Direito de Justiça, que passou a fazer JURISPRUDENCIA, o Presidente dizer ou fazer o que lhe der na “real gana”. Convido-a a escrever sobre isso!

  16. Lamentável, e ao mesmo tempo revelador de “intenções duvidosas de isenção partidária ” o facto de na sua comunicação do dia 16 (de Outubro e não de Junho) não ter tido uma única referência aos presumíveis incendiários, nem revelando qualquer estranheza com o número de ignições “nocturnas”…

    De alguma forma foi para mim uma enorme decepção, uma vez que o PR tinha tido até aqui um comportamento sem qualquer mácula… e por tão surpreendente decepção, me leva a dizer pragmaticamente, que em Janeiro de 2021 não terá o meu voto.

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