Aqueles que tanto reclamaram pelo capítulo VI do relatório sobre Pedrógão já o leram? Se leram , não deram sinal. Eu li e deixo aqui nota disso. 

Li o capítulo VI do relatório Xavier Viegas publicado na edição digital do Expresso expurgado dos nomes e de outros dados  de identificação das vítimas, aliás, não necessários para a compreensão da tragédia. Devo dizer que ao contrário do que se diz, lendo os relatos de testemunhas e as opiniões e suposições dos autores do relatório contidos nesse capítulo, percebe-se que teria sido muito difícil senão impossível salvar as pessoas que morreram na estrada dentro ou fora dos automóveis em que fugiram do fogo, uma vez que, segundo os relatos,  ninguém ou muito poucos conseguiram sair daquela estrada  e os meios aéreos  não podiam actuar porque  o fumo e a escuridão da noite não o permitiam.

Sim, é útil ler aqueles testemunhos para que no futuro em situações semelhantes saibamos o que não deve ser feito em termos de decisões pessoais, por exemplo, fugir para onde ou não fugir e ficar em casa.

Segundo o relatório, 86,2 % das vítimas está relacionada com  “a utilização de carros durante os incêndios” em movimentações a que os autores chamam “fuga fatal”. Há muitos pormenores descritivos alguns dos quais subjectivos, facto assinalado no parecer da Comissão de Protecção de Dados, com frases como:

 “(…) segundo podemos admitir”; “(…) deverão ter decidido voltar para trás”; “(…) não cremos que tenha havido um embate, se tivesse havido não cremos que tivesse sido violento pois é natural que tivesse viajado a pouca velocidade por causa do fumo”;”(…) B e C terão permanecido no carro ou saído pouco depois de pararem”, “terá sido visto por um residente (…)”.

Há também referências e fotografias de casas e propriedades de algumas das vítimas ou referências do fórum mais privado como “o tio tinha sido operado ao coração dias antes que não obstante poderem ter interesse estatístico  não acrescentam informação sobre as causas dos incêndios nem contribuem para esclarecer a responsabilização do Estado como era objectivo do estudo. Não direi pois que o parecer da Protecção de Dados é excessivo nas limitações impostas à divulgação do capítulo VI do relatório mas é óbvio que as acusações de “censura” se revelam ridículas agora que foi lido e é público. Mas será que os que tanto reclamaram pelo capítulo VI já o leram? Se leram , não deram sinal. Eu li e deixo aqui nota disso.

A leitura do capítulo VI (capítulo de natureza essencialmente qualitativa)  suscita algumas questões que, naturalmente, escapam ao debate político e jornalístico. São questões de natureza metodológica, nas quais o relatório é escasso, sobretudo se comparado com o relatório da Comissão Independente nomeada pela Assembleia da República. Desde logo, o facto de ser omisso sobre a metodologia usada na realização e no tratamento das entrevistas e dos depoimentos que preenchem todo o capítulo  e sobre os critérios  usados para obtenção da informação através das redes sociais que segundo o relatório contribuíu com “relatos, opiniões, fotos ou vídeos” e teve uma adesão de “largas dezenas de respostas”.

Por outro lado, seria adequado aos objectivos traçados para o capítulo VI que a equipa que realizou as entrevistas com as testemunhas, (familiares, amigos, vizinhos ou simples conhecidos das vítimas) integrasse algum especialista nas áreas da antropologia, sociologia ou psicologia, mais vocacionadas para estudo e observação de comportamentos, propósito enunciado como um dos objectivos do citado capítulo.

Trata-se de elementos importantes e imprescindíveis num estudo científico como é o caso deste. Aliás, os autores referem que guardaram um registo em vídeo ou áudio da atividade realizada e das reuniões que mantêm para aprofundamento futuro. Dado tratar-se de um estudo financiado pelo erário público seria importante que todo o material obtido nesse âmbito fosse anexado ao relatório, tal como aconteceu com o relatório da Comissão Técnica Independente.

Diria, em suma, que sem prejuízo do seu interesse para o público em geral, o Capítulo VI do relatório coordenado pelo professor Xavier Viegas é um relato de situações e vivências que se insere mais no tipo de relato jornalístico do que de estudo científico.

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