Os donos da dor alheia

Imagem: Expresso

Os donos da dor alheia elogiaram a mensagem de Natal do primeiro-ministro porque finalmente (para eles) António Costa mostrou que tem coração e sensibilidade ao ter dedicado grande parte da mensagem aos incêndios de Pedrógão e de Outubro. Os donos da dor alheia pensam que são também donos dos sentimentos do primeiro-ministro e que lhes cabe definir o que é a manifestação correcta da dor e do sentimento de compaixão pelas vítimas. Desta vez acharam que o primeiro-ministro se redimiu do passado recente em que não disse as palavras politicamente correctas inscritas no guião que eles traçaram para discursos em tempo de tragédias.

Os donos da dor alheia assumiram neste caso o rosto e o nome do Presidente Marcelo, do inenarrável líder parlamentar do PSD, Hugo Soares e do petulante porta-voz do CDS, João Almeida que se acham credenciados para dizerem quando é que o primeiro-ministro sente ou não a dor alheia.

Dir-se-ia que os afectos e a capacidade de os exprimir publicamente se tornaram o essencial da acção política e que a governação se tornou um espectáculo permanente para exibição nos palcos televisiovos. Também jornalistas e comentadores,  em crónicas ou reportagens tecem louvaminhas a Belém e ao “pastor” Marcelo.

Porém, em momentos cada vez mais raros, surgem vozes dissonantes, como é o caso do  coordenador da resposta na área da saúde mental das vítimas dos incêndios, António Leuschner, que em entrevista ao Público contraria algumas ideias que o Presidente Marcelo tornou quase lei. Disse o coordenador:

“(…) Temos a tendência a achar que aquilo que nos acontece é o pior que aconteceu… Na verdade, há tragédias que não se comparam em outros países, nem em número de mortos nem em consequências patrimoniais. Acho bem que as pessoas não se distanciem com frieza, devem dar sinais de que estão solidárias. Mas o pior que pode haver para um decisor é deixar-se afectar demasiado pela emoção, porque corre o risco de errar. Nem oito nem oitenta. Nem excessos de emoção nem gelo. (…)”.

Tem razão o coordenador: “o pior que pode haver para um decisor é deixar-se afectar demasiado pela emoção, porque corre o risco de errar.” António Costa soube encontrar o ponto de equilíbrio. Seria, isso sim, perigoso para a saúde mental dos portugueses que  vivessem em  estado de depressão permanente por algo que aconteceu e não se pode recuperar. Como também disse o coordenador da saúde mental:

“(…) Não há nenhum cidadão adulto que não tenha tido já uma perda — de familiares, de amigos, por causa do desemprego ou de relações afectivas. Normalmente as pessoas respondem bem. Só quando se cai em situações de luto complicado, em que não há uma recuperação quase espontânea, em que não se consegue dar a volta, é que é necessário acompanhamento mais especializado.(…)”.

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