Em memória de minha Mãe e de todas as Mães que partiram

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in ‘Diário IV’

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Rui Moreira tem medo de quê?

Não sou do Porto mas gosto muito do Porto. Não sou, portanto, eleitora de Rui Moreira ou de qualquer outra candidatura à câmara municipal do Porto (CMP). No entanto, acompanhei com interesse a vitória de Moreira e vi o entusiasmo de muitos colegas e amigos que o apoiaram e festejaram depois a sua vitória.

Entre os seus fiéis companheiros encontra-se o socialista Manuel Pizarro, (que não conheço pessoalmente), mas cuja postura e  intervenções públicas revelam ser uma pessoa de princípios, bem formada e fiel aos seus compromissos e ideias. Foi um colaborador leal e empenhado de Rui Moreira que muito contribuíu para o sucesso da autarquia nos últimos quatro anos.

Rui Moreira  candidata-se à CMP como independente, tal como da primeira vez  e aceitou o apoio do PS e do CDS. Manuel Pizarro bateu-se pelo apoio do PS a Moreira e este parecia desejar continuar a ter a colaboração de Pizarro  num próximo mandato.

Eis porém que uma entrevista da dirigente do PS, Ana Catarina Mendes, afirmando que uma vitória de Moreira seria também uma vitória o PS pôs em polvorosa Rui Moreira e o seu “núcleo duro” que decidiram repudiar o apoio que antes aceitaram, em nome de uma “independência” que Ana Catarina Mendes nem ninguém do PS questionou. 

Dir-se-ia que o tal “núcleo duro” de Rui Moreira tem pouca fé na independência do seu candidato, já que a consideram ameaçada por uma declaração natural e coerente que não pode ter a leitura enviezada que dela foi feita.

Pois não é verdade que se um partido ou outra  instituição apoia alguém numa candidatura a uma eleição e esse alguém vence a vitória é também daqueles que o apoiaram? E em que é que a partilha de uma vitória retira independência e mérito ao vencedor? Os partidos têm lepra?

O que é que Rui Moreira tem contra os partidos para recusar assim tão abruptamente o apoio de um partido? Será que os portuenses têm consciência de que o actual presidente da autarquia é um homem anti-partidos? Será que os “jobs” (se é que os há) são só para os seus  “boys”?

Tudo leva a crer que esta é uma história mal contada.

 

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Rosa ou roxo: quem é aqui o daltónico?

Teve grande mediatização a aula do Presidente Marcelo no colégio Moderno, onde o Presidente quis evidenciar algumas discordâncias com o primeiro-ministro fazendo  uma metáfora com as cores rosa e roxo:

“Eu às vezes digo: não, o senhor primeiro-ministro irrita-me um bocadinho, porque é evidente que há problema e está a tentar explicar-me que não há esse problema, e não me entra na cabeça. (…) não me venha dizer que roxo não é roxo, é um violeta sei lá o quê”.

“Como é que se chama a cor do PS? Rosa. É um violeta-rosa, é mais rosa do que roxo”, prosseguiu, simulando um diálogo com o primeiro-ministro: “Não, é roxo. Não, é rosa”

A metáfora do Presidente é interessante e talvez não seja ingénua. O rosa e o roxo são cores próximas e facilmente  uma evolui para a outra. Mesmo quem não é daltónico pode confundi-las….

Ouvindo o próprio Presidente a elogiar as  “vitórias” nas finanças e economia, dir-se-ia que o Presidente está mais rosa do que roxo mas preferiu fingir que é daltónico talvez para não espantar os laranjas….

 

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A minha lavandaria lava melhor que a tua…

Dois comentadores do tipo “todo o terreno”, já que ambos se estendem por tudo quanto é media: rádios, televisões, jornais, redes sociais, “pegaram-se” à briga nas suas colunas de opinião.  É  justo dizer que não são comparáveis nos estilos. Um é caceteiro e provocador, outro cordato e moderado.A essência da polémica que transportaram para os jornais onde escrevem resume-se a cada um acusar o outro de não criticar os órgãos de comunicação social onde escreve, isto é,  de não ser independente do grupo que lhe paga. O tema que motivou a discussão é o arquivamento do inquérito judicial a Dias Loureiro.

Os comentadores em questão são João Miguel Tavares (JMT) e Pedro Marques Lopes (PML) e os palcos da discussão são o Público e o Diário de Notícias. A polémica já envolveu o director do DN, Paulo Baldaia  que com razão e probidade reagiu às provocações de JMT. Outros membros do comentarismo nacional entraram  também na discussão mas onde a briga mais se  radicalizou foi entre JMT e PML.

Aliás, as brigas entre oficiais do mesmo ofício ou de ofícios similares tornou-se frequente em Portugal, transformando-se num tema mediático de grande audiência. Temos brigas entre jornalistas, clubes de futebol, respectivas claques e comentadores televisivos da modalidade. Brigas entre agentes da Justiça, já não falando nas sessões do Parlamento servidas como “lutas de galos” entre partidos pelas televisões.

Uma maneira de elevar a qualidade do comentarismo nacional seria transformá-lo num exercício cultural em vez de numa indústria inserida no mercado concorrencial, na qual, “tal como para as “vedetas” da televisão, os comentadores valem tanto mais quanto mais forem citados e comentados por terceiros, pelo que, conhecendo-se as lógicas conflituais que orientam os media, não seja de estranhar que quanto mais brigões forem melhor garantem o contrato.

Com o devido respeito por muitos dos que comentam nos media, a verdade é que grande parte do comentarismo nacional está transformado numa espécie de lavandaria …

 

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O discurso anti-redes sociais

Anda por aí um discurso anti-redes sociais que tem como autores nada mais nada menos do que comentadores e jornalistas, isto é, os “donos” do espaço público tradicional. Muitos desses críticos  linkam precisamente nas redes sociais  os artigos que escrevem na imprensa, isto é,  para eles o que os outros escrevem nas redes é “lixo” mas o que eles linkam é bom.

Na crítica que fazem às redes sociais arrastam os políticos por eles também as frequentarem à procura de “likes”, como se as redes sociais estivessem reservadas apenas aos mesmos que escrevem nos jornais e falam nas rádios e nas televisões.  Aliás, os políticos não fazem mais do que os próprios jornalistas que usam as redes sociais para ganharem audiência para os seus artigos e opiniões.

Cada vez mais as redes sociais são extensões e ferramentas do jornalismo, como é o caso dos programas de televisão e dos comentários dos jornais onde é solicitada a opinião dos cidadãos.

Uma das críticas feitas às redes sociais é a de que “destilam ódio”, “nada é verificado”. Tudo é partilhado sem critério. Comenta-se tudo. Tem-se opinião sobre tudo. Só não se tem o cuidado de saber do que se está a falar.”

Ora, sendo certo que existe “lixo” nas redes sociais, não é menos certo que existe também e com maior grau de gravidade nos media tradicionais em certas colunas de opinião especializadas em achincalhar pessoas  e em espaços televisivos ditos “desportivos” onde” vale tudo menos tirar olhos,  apesar de nesses meios os jornalistas e os colaboradores estarem sujeitos quer a regras éticas e deontológicas  quer à supervisão de um director.

O criticismo das redes sociais vindo de jornalistas e de comentadores parece esconder o receio de perderem o privilégio e o poder de decidirem quem tem voz no espaço público e quem não a tem. É que nas redes sociais escreve e fala quem quer e não quem eles querem que fale e escreva.

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Por falar em “palhaços” e “palhaçadas”

Mourinho Félix EurogrupoUm assessor do PSD chama “palhaço e medroso” a um membro do governo, o secretário de Estado das Finanças, Mourinho Félix.  O jornal  electrónico Observador cita esse assessor, certamente por considerar que a sua opinião vincula o partido que ele assessora. O mesmo jornal  diz também que o vice-presidente da bancada do PSD, Abreu Amorim, segue  a ” mesma linha” do assessor e fala em “palhaçada”, referindo-se, tal como o assessor, à interpelação directa que o secretário de Estado fez ao presidente do Eurogrupo a propósito da  declaração deste de que os povos do Sul da Europa gastam o dinheiro em “copos e gajas”.

É digno de nota verificar que no PSD as coisas funcionam ao contrário: em vez de serem os assessores a citar os dirigentes, são os dirigentes a citarem os assessores. Igualmente se estranha que um partido como o PSD que governou o País durante 4 anos sem nunca levantar cabelo perante o Eurogrupo aceitando todas as imposições e humilhações impostas ao País em nome de um pretenso “ajustamento”, venha agora chamar “palhaço” a Mourinho Félix e  “palhaçada” à firmeza com que ele  criticou as palavras de Dijsselbloem.

Pelos vistos, o PSD e alguma imprensa queriam que o secretário de Estado fizesse uma chicana no Eurogrupo como se as palavras do primeiro-ministro repetidas em fóruns internacionais e as posições unânimes dos órgãos de soberania portugueses não fossem suficientes e claríssimas de condenação absoluta do presidente do Eurogrupo e da necessidade da sua demissão do cargo que ocupa.

Causa também perplexidade ouvir o jornalista  Bernardo Ferrão dizer na SIC Notícias que a notícia do Expresso, de que a sondagem a Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo, “é uma história mal contada”. Será  que Bernardo Ferrão está a dizer que o Expresso mentiu ou foi enganado? E não há um esclarecimento do grupo Impresa a que  a SIC e o Expresso pertencem?

Sobre “palhaços” e “palhaçadas” estamos conversados…

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Dias Loureiro, Armando Vara e as teias da Lei

Provocou grande indignação na opinião publicada e nas redes sociais, o teor do despacho do Ministério Público de arquivamento do processo contra Dias Loureiro por burla qualificada, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, não pelo arquivamento em si mas pelo facto de a procuradora que assina o despacho, Cláudia Oliveira Porto, manter as suspeitas que não conseguiu provar.

O caso coincidiu com a decisão do Tribunal da Relação do Porto que manteve cinco anos de prisão para Armando Vara no processo Face Oculta por “tráfico de influências”.

Destaco o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso deste sábado (disponível para assinantes) que traça, a propósito destes dois casos e de outros de grande mediatismo, um quadro impiedoso e preocupante da justiça portuguesa.

Os dois casos permitem uma análise comparativa apesar de Dias Loureiro não ter chegado a ser acusado pelo Ministério Público, enquanto Armando Vara viu confirmadas as acusações do Ministério Público com pena de cinco anos de prisão. A disparidade de critérios usados pela procuradora do Ministério Público que arquivou o processo Dias Loureiro e os critérios e argumentos dos juízes do Tribunal de Aveiro que  condenaram Vara ( e outros arguidos do Face Oculta) é incompreensível para o cidadão comum que espera encontrar nas decisões judiciais argumentos lógicos, coerentes e acessíveis.

A procuradora Cláudia Porto cometeu o erro ou a imprudência ou (dirão outros) a franqueza de incluir no despacho de arquivamento a convicção de que Dias Loureiro é culpado dos crimes de que era suspeito. Diz a procuradora Cláudia Porto  que

a investigação não permitiu atingir um plano de certeza que nos permita a imputação desses factos, face à coerência de depoimentos entre os intervenientes no negócio”.

Isto é, a procuradora não quis levar o suspeito a tribunal porque não tinha provas suficientes. As provas indirectas, as responsabilidades políticas do arguido e as suas convicções sobre a culpabilidade de Dias Loureiro não foram suficientes para uma acusação. Nessas condições, o  Ministério Público fez bem em arquivar o processo.

Ao contrário, no caso de Armando Vara o Ministério Público não hesitou em levar Vara a tribunal por indícios e convicções baseados em escutas, “cunhas” e prendas de Natal, considerados  tráfico de influências. No despacho de condenação de Vara e dos restantes réus do Face Oculta lê-se que não são necessárias “provas directas”, sendo “igualmente importantes as provas indirectas, indiciárias e por presunções, readquirindo estas especial relevo nas sociedades actuais”. Leiam-se estes excertos:

(…) no campo da criminalidade de “colarinho branco”, na qual a corrupção e o tráfico de influências pontificam, não é possível, a maior parte das vezes, a prova directa, mormente por testemunhas (…). Por isso, são igualmente importantes as provas indirectas, indiciárias e por presunções, readquirindo estas especial relevo nas sociedades actuais, sob pena de se agravar insuportavelmente o sentimento comunitário de impunidade e de descrença na administração da justiça(…)” (nota 113, pág.588)

O tribunal decidiu ainda salientar quanto a Armando Vara:

As responsabilidades perante a sociedade de alguém que exerceu e exerce tão relevantes cargos como Armando Vara são inegavelmente superiores ao comum dos cidadãos. (…) Assim, perante o acima e agora exposto, decide-se fixar a pena única em 5 (cinco) anos de prisão.” (pág. 2647-2648 do acórdão)

Trata-se de dois casos cuja disparidade de critérios e de argumentos se revelam opacos para o cidadão comum em nome de quem a justiça se exerce, dado que os argumentos que no caso de Dias Loureiro serviram para arquivar, no caso de Armando Vara serviram para culpar e prender. Merecem, pois, ser analisados, comparados  e discutidos.

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