Sócrates era, afinal, o dono disto tudo

Paulo Novais/LUSA

O prolongamento do inquérito da Operação Marquês  provocou, como era de esperar, uma enorme discussão nos meios de comunicação social e nas redes sociais. Uma das mais interessantes ocorreu na SIC-Notícias, sexta-feira à noite, no programa Expresso da Meia Noite. Digo interessante porque um dos participantes, o advogado João Nabais, criticou as  revelações da jornalista da SIC, Sara Antunes de Oliveira, que também participava no debate, por conhecer o interrogatório do arguido Helder Bataglia, que segundo a jornalista justifica as últimas diligências do Ministério Público e as novas acusações a Sócrates. Sara mostrou-se bem informada sobre o processo, a ponto de explicar que no caso da OPA da Sonae à PT o importante são “os bastidores das decisões” (que pelos vistos ela conhece) e não a “aritmética das votações na assembleia geral da PT”.

Outro dos participantes no debate, Micael Pereira, jornalista do Expresso, mostrou-se mais discreto na exibição dos seus conhecimentos sobre o processo, mas, ainda assim, não escondeu que conhece bem a estratégia e os pontos de vista do Ministério Público.

João Nabais bem se esforçou na defesa do que ele chamou princípios de um Estado de direito, respeito pelos prazos do inquérito e direitos dos arguidos e na crítica à condução do processo pelo Ministério Público.  Mas o seu papel era difícil porque os seus interlocutores, incluindo a ex-jornalista, agora advogada, Inês Serra Lopes, dispõem de informação privilegiada e mostraram-se seguros e convictos das razões do Ministério Público, cujos pontos de vista adoptaram. Sócrates e os seus advogados bem podem clamar pelos seus direitos que essa é matéria que só interessa aos líricos ou aos “socráticos”.

Perante as certezas sobre a culpabilidade de Sócrates e a imensidão de crimes de que é já praticamente acusado, admira que não estejam já a ser investigados todos os membros dos seus dois governos, bem como os seus amigos e todos aqueles que alguma vez foram apanhados a falar com ele, pessoalmente e ao telefone. É que é impossível que sejam só  pouco mais de vinte as pessoas, algumas das quais completamente desconhecidas e fora das esferas do poder, que ajudaram Sócrates a obter os milhões que o Ministério Público contabilizou como sendo dele.

Como é que um primeiro-minstro conseguiu fazer tantas falcatruas sem que ninguém no governo desse por isso? Se até o Presidente Cavaco vem dizer que “nunca detectou nenhum comportamento de Sócrates que violasse as normas”… Andavam todos a dormir ou foram todos coniventes?

Há nisto tudo alguma coisa que não bate certo. Sócrates, sozinho, a manobrar  no governo para beneficiar o Salgado e o BES , o Zeinal e o Granadeiro, e a receber dinheiro de todos os lados? E não há um recibo, um papelinho, uma caderneta, um despacho, qualquer coisa que o faça calar  a dizer que não há provas? E se há porque é que ainda não saíu ao menos uma  nos jornais amigos dos procuradores?

Uma coisa parece certa: pelo que vamos lendo e ouvindo, Sócrates era afinal o dono disto tudo. Não Ricardo Salgado, como tem sido dito. O Ministério Público tem razão, a procissão ainda vai no adro e o processo ainda agora começou. Há, pois, que continuar as  buscas porque as provas hão-de aparecer!

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O tiro no pé da procuradora-geral da República

O comunicado da Procuradoria-Geral da República prolongando o prazo do inquérito do caso “Operação Marquês” é um texto ambíguo e auto-justificativo, apesar do cuidado com que foi redigido para que não se perceba o embaraço da procuradora-geral por, depois de ter marcado um prazo para encerramento do inquérito, vir agora não apenas aceitar o pedido dos procuradores, de mais dois meses para a investigação, mas sugerir-lhes ainda a possibilidade de poderem prolongar novamente esse prazo.

O comunicado é ambíguo na formulação da possibilidade de o inquérito se prolongar quase indefinidamente, ao indicar o final de Abril não para o fim do inquérito mas para que os procuradores digam se precisam novamente de mais tempo.  E a responsabilização dos inspectores da Autoridade Tributária pelo atraso do inquérito denota  alguma irritação ao acusá-los, eufemisticamente, de “insuficiência dos relatórios de análise de prova, apresentados pelo órgão de polícia criminal”, leia-se, de incompetência.

Com este comunicado a procuradora-geral dá também uma enorme machadada na credibilidade da investigação a José Sócrates que está a ser realizada (e mediatizada) há cerca de 4 anos. A procuradora-geral tem consciência disso como  mostra o nervosismo com que tem respondido (ou não respondido) aos jornalistas que a interpelam à saída ou à entrada dos eventos em que participa.

Também a sua comparação do caso Sócrates com o caso Madoff mostra que a procuradora-geral não percebeu a diferença entre um caso que é investigado durante 8 anos sem que se conheça qualquer fuga de informação e que é despachado em poucos meses quando chega ao ministério público (Madoff)  e a “Operação Marquês” em que o José Sócrates é diariamente objecto de fugas de informação e quebras do segredo de justiça que violam o seu direito à presunção de inocência. A procuradora-geral comparou o que é incomparável sem assumir que o Ministério Público por si dirigido não tem sido capaz de proteger os inquéritos de que é titular. Como  bem sublinhou o Presidente da República nem sequer é expectável que os crimes de violação do segredo de justiça venham a ser punidos, embora de vez em quando se anunciem uns inquéritos a essas violações que nunca encontram culpados.

A decisão de prolongar indefinidamente o inquérito é um tiro no pé da procuradora-geral  que vira contra o Ministério Público até aqueles que à partida não tinham nenhuma dúvida sobre a solidez das provas contra Sócrates. Os seis crimes imputados a Sócrates publicados hoje no Diário de Notícias, depois de tantas fugas de informação e de tantas contradições e tergiversações do processo, já não têm o efeito que teriam se o Ministério Público tivesse conduzido a investigação com lisura, lealdade e respeito pelos direitos de José Sócrates. Como não o fez, só resta aos cidadãos que ainda acreditam na justiça esperar pelas provas que liguem Sócrates aos crimes de que, segundo os jornais, é culpado.

É uma ironia ouvir jornalistas e comentadores que antes andavam com o Ministério Público e o juiz Carlos Alexandre “ao colo” dizerem agora que “a detenção de Sócrates foi um erro” e a sua prisão preventiva uma decisão excessiva. Como é igualmente irónico verificar que aqueles que mais têm noticiado elementos do processo por serem assistentes ou porque gozam da confiança de procuradores e investigadores admitam como mais provável que Sócrates venha a ser acusado e condenado através de indícios, deduções e, quem sabe, invocação de provérbios como os do acórdãos da Relação sobre cabras e cabritos.

Chegámos a isto em grande parte devido à incompetência, laxismo e falta de liderança do Ministério Público, incapaz de cumprir  prazos e de proteger os inquéritos e os direitos dos arguidos.

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Políticos em trajes menores

Era inevitável que Santana Lopes reagiria às referências que lhe faz Jorge Sampaio no livro do jornalista José Pedro Castanheira (JPC) . Confesso que se não conhecesse a seriedade pessoal e profissional do José Pedro duvidaria da fidedignidade das palavras atribuídas a Sampaio ainda que estas surjam entre aspas. É que a ideia que tenho de Jorge Sampaio quer como político, jurista, e principalmente como Presidente da República é a de alguém a quem nem em conversa informal com um jornalista diria de um primeiro-ministro com quem trabalhou institucionalmente que estava “farto” dele. E, no entanto, é assim que Sampaio-Presidente se refere a Santana Lopes-primeiro-ministro no livro  “Jorge Sampaio – Uma biografia” , que JPC acaba de publicar e o Expresso reproduz:

“Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva – mas não foi uma decisão ad hominem. (…) Hoje faria o mesmo. De vez em quando é preciso dar voz ao povo – e percebi qual era o sentimento do povo.”

Mais chocante ainda (para mim que trabalhei 10 anos com o Presidente Mário Soares) são as citações (outra vez com aspas, sinal da sua fidelidade às palavras ditas pelos autores) dos “conselhos” que os assessores de Jorge Sampaio lhe deram sobre a hipótese de demissão do então primeiro-ministro Santana Lopes. Cita o Expresso a partir do livro de JPC:

“Carlos Gaspar: “[Santana] é muito irresponsável e instável”. Salgado de Matos: “Ou ensandeceu ou quer eleições antecipadas”. João Bonifácio Serra: “O principal problema é a sua personalidade e desequilíbrio”. General Faria Leal: “É propenso a acidentes” e o Governo “está sempre metido em complicações”. Marques da Costa: “É preciso que se mostre que não há espaço para mais episódios burlescos”. Nuno Brederode Santos: “Gostaria que fosse este episódio da demissão a razão para a dissolução”, Santana “é errático, irresponsável e imoral com zero sentido de Estado”. José Manuel dos Santos: “O Governo desmoronou-se”. Magalhães e Silva: “O ministro não presta e não pode estar vitimizado”, “é preciso cortar com a degradação”.

Das duas, uma: ou o Presidente Sampaio valorizava a tal ponto, e valoriza ainda hoje, as opiniões dos seus assessores que sentiu necessidade de os citar (certamente a partir de apontamentos que guardou) a propósito de uma das mais importantes decisões dos seus mandatos – a demissão do primeiro-ministro; ou fá-lo para justificar uma decisão que só a ele competia independentemente dos conselhos e opiniões que recebesse.

E será que o Presidente Sampaio consultou os assessores antes de divulgar ao jornalista o que lhe foi dito por eles nessa precisa ocasião? Como não conheço o livro de JPC não sei se  Sampaio cita conselhos que recebeu dos assessores a propósito de outras decisões que tomou enquanto presidente. Ora, a função dos assessores é precisamente aconselharem o presidente com base em análises e estudos que o ajudem a tomar decisões. É um trabalho de rectaguarda, permanente e discreto. O protagonista é o Presidente, não os assessores, e digam eles o que disserem ao Presidente só o Presidente decide e a sua opinião é a única que conta para a História.

Como investigadora na área da comunicação política reconheço a importância das auto-biografias e de relatos biográficos de personalidades que exerceram funções políticas e altos cargos no Estado. É evidente que um historiador e um analista usam metodologias de investigação que lhes permitem confrontar relatos, enquadrá-los no contexto em que foram produzidos e separar o trigo do joio.

Mas o que estamos a verificar é que os escritos biográficos e memoriais que vamos conhecendo, de Cavaco e agora de Sampaio (posso estar a ser injusta dado que não conheço o livro mas apenas os excertos citados nos jornais), não parecem contribuir para um melhor conhecimento dos seus “tempos” presidenciais. Parecem antes escritos para despertarem o interesse do público, isto é, dos media,  e não o interesse público, isto é, o conhecimento do pensamento e das motivações e princípios que ditaram as suas acções/decisões enquanto altos magistrados da nação.

Seria um sinal muito negativo que os Presidentes e outros ex-detentores de cargos políticos enveredassem agora por um strip-tease ou uma espécie de exposição em “trajes menores”.

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As revelações de Assunção Cristas

 A entrevista em duas partes de Assunção Cristas ao jornal Público desfaz a imagem que muitos tinham de uma líder sólida e bem preparada. De facto, Cristas faz revelações que mostram da sua parte alguma inconsistência e imaturidade política. Algumas dessas revelações, sendo úteis para um melhor conhecimento do funcionamento do  governo Passos/Portas de que ela foi ministra, mostram que Cristas não percebeu na altura nem percebe agora as implicações do que afirma ter acontecido.

Desde logo, a afirmação de que “o Conselho de Ministros desse governo nunca foi envolvido nas questões da banca” e  que “Passos só uma vez falou sobre o BES dentro do anterior Governo, bastante antes da queda do banco” e que “a banca era um assunto do Banco de Portugal”. Diz, textualmente, Cristas:

“Lembro-me vagamente de [Passos Coelho] ter referido que o BES poderia ser um problema. Acho que foi por aqui. Não posso garantir tudo porque, de vez em quando, havia um ou outro Conselho de Ministros em que eu não estava, por razões de representação do ministério. Mas discussão em profundidade do problema do BES, das soluções, das alternativas, das hipóteses, isso nunca aconteceu(…)”.

Esta revelação é feita com aparente distanciamento, como se o seu partido não tivesse sido parte integrante do governo, sem a reflexão que se impunha. Cristas limita-se a justificar e a interpretar o pensamento e a decisão do então primeiro-ministro Passos Coelho como se a omissão da informação e a ausência de debate sobre a banca fossem indiferentes para si (enquanto ministra e dirigente do CDS)  e para os seus então colegas de governo.

As suas palavras mostram também que ou Passos não se apercebeu da situação calamitosa em que se encontrava a banca; ou apercebeu-se e deixou andar para garantir a chamada  “saída limpa”; ou não confiava nos seus ministros; ou estes não lhe mereciam crédito e não lhe interessava ouvi-los sobre o problema.

Mas Cristas também não percebeu que tão inacreditável como a omissão e o desprezo revelados por Passos face ao seus ministros é o facto de, pelos vistos, ela própria e os outros ministros não perguntarem nada nem terem a iniciativa de suscitar a discussão da banca, nem que fosse a título de mera informação. O conselho de ministros era, pelos vistos, para Passos um verbo de encher e Assunção Cristas acha isso normal.

Cristas explica também, ao Público e ontem aos microfones da TSF, as razões dos impropérios que lança ao primeiro-ministro nos debates parlamentares. Diz a líder do CDS que recebe muitos sms do seu partido a felicitá-la quando é mais agressiva, apesar de às vezes ficar incomodada consigo própria. Cristas mostra assim, na sua pureza, que precisa de agradar à sua gente, pelo que aguardamos pelas novas formas de expressão que utilizará nos debates parlamentares para obter ainda mais sms de felicitações…

Cristas veio também defender Paulo Núncio com argumentos de estarrecer. Questionada sobre as notícias que referem que Núncio está ligado ao registo de cerca de 120 novas sociedades na Zona Franca da Madeira e que também foi advogado da empresa petrolífera venezuelana PDVSA, responsável pela saída da “maior fatia” da saída de dinheiro para ‘offshore’, Cristas revelou que para ela professores e académicos não têm “vida profissional” (o que serão então, parasitas?…). Leia-se o que disse Cristas:

No limite se nós acharmos que ninguém pode ter uma vida profissional antes de cargos governativos, então vamos ter um problema muito grande porque só podem ser governantes professores, académicos, professores de liceu e gente que não tem uma vida privada. Vale a pena perguntar se é o sistema que nós queremos e se é essa democracia que queremos construir”.

Podia ainda continuar com as citações de Cristas sobre o que Passos Coelho lhe disse e o que ele pensa (ou o que ela acha que ele pensa) sobre as autárquicas. Presumo que o tenha consultado apesar de estar na moda para o CDS e para o PSD a divulgação de conversas e pensamentos privados (o livro de Cavaco e o caso dos sms de António Domingues e Mário Centeno são  exemplos). Se o Público tivesse insistido, certamente Assunção Cristas teria mostrado os sms de felicitações que recebeu do seu partido quando chamou “mentiroso” a António Costa.

Assunção Cristas não mostra nesta entrevista um pensamento político estruturado revelando algum deslumbramento com a chefia do partido para que foi “nomeada” pelo seu criador, Paulo Portas. Cristas tem porém ainda um longo caminho a percorrer. Por agora, parece agir em função da necessidade de afirmação interna e da obtenção de efeitos mediáticos. Assim não vai longe.

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“Assalto ao Castelo”: o jornalista e a sua “fonte-mistério”

A reportagem em três episódios, da SIC,  “Assalto ao Castelo“, da autoria do jornalista Pedro Coelho, é um trabalho inovador e de grande seriedade que merece ser estudado e analisado nas escolas de jornalismo e nas redacções. Não apenas a construção das peças, a narrativa que percorre os três episódios, a encenação dos diálogos do jornalista com a “fonte-mistério”, os cenários interiores e exteriores, as paisagens reais ou criadas, os excertos escolhidos das intervenções públicas dos protagonistas, os depoimentos de lesados, a conversa do jornalista com o treinador Carlos Queirós, em suma, toda a concepção dos episódios revela domínio de uma estética própria da televisão, inspirada no melhor que podemos ver em séries internacionais.

Independentemente da importância das revelações substantivas proporcionadas neste trabalho de Pedro Coelho, que outros mais conhecedores já analisaram, assinalo outras vertentes que contribuem para tornar este conjunto de reportagens um marco na história da televisão portuguesa.

O fio condutor das reportagens são documentos internos do Banco de Portugal que uma “fonte-mistério” deu ao jornalista. Os dois primeiros episódios começam com um diálogo entre o jornalista e essa “fonte-mistério”, representada por uma voz e uma figura feminina, ambos filmados de costas caminhando ou captados de frente a grande distância de modo a não ser possível identificar o rosto da figura que representa a “fonte-mistério”.

A “fonte-mistério” acompanha o jornalista nos três episódios e constitui juntamente com o próprio jornalista quer como narrador quer em off ou em intervenções directas e em curtas entrevistas a alguns participantes, uma das grandes inovações desta reportagem.

Desde o início do primeiro episódio o jornalista faz questão de salientar o papel da “fonte-mistério” que lhe “fez chegar às mãos” os documentos que constituem a substância da reportagem. Ao contrário do que é frequente, o jornalista não esconde a fonte nem usou a velha frase “A SIC sabe…” ou  “A SIC teve acesso…”.  Pelo contrário, na terceira reportagem revela que a “fonte-mistério” tem “mais de três décadas no Banco de Portugal”.

Pedro Coelho participou ao longo da semana em que os episódios fioram exibidos em debates sobre o seu trabalho. Mas foi no programa Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias, que o jornalista  foi mais longe no desejo de tornar transparente o seu trabalho. Questionado por Nicolau Santos sobre ter sido ele, Pedro Coelho, um jornalista que não é da área de economia, a receber tão importante e vasta documentação de uma instituição tão fechada como o BdP,  Pedro Coelho afirmou sem qualquer hesitação que não conhece o BdP e que foi “por interposta pessoa”, alguém que quis dar aqueles documentos a uma televisão, que  esta história lhe “caíu no colo” sendo ele o escolhido devido, presume,  a trabalhos anteriores que fez sobre, o BPN e o BANIF .

O trabalho de Pedro Coelho e o debate subsequente que suscitou mostram também que a sua “fonte-mistério” percebeu que teria de ser um jornalista sem relações próximas e confidenciais nem cumplicidades com a administração do Banco a receber e a tratar tão importante e explosiva documentação. Percebeu também que a televisão seria o meio mais capaz de levar ao grande público, de maneira atraente, concisa e persuasora, matérias que num jornal se perderiam em páginas e páginas que só os iniciados leriam na íntegra. A escolha do jornalista Pedro Coelho foi também para a “fonte-mistério” uma escolha sem riscos, dadas as garantias de seriedade e profissionalismo do citado jornalista.

A reacção do governador do BdP ao pedir para ir ao Parlamento esclarecer todos os pontos da reportagem revela o incómodo causado pelo trabalho do SIC e pelas revelações da “fonte-mistério”.

Imagino que o BdP não resistirá a uma caça às bruxas para encontrar a “fonte-mistério”.

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A propósito do anonimato nas redes sociais

Ilustração Tiago Pereira Santos com Freepik, Expresso

Ilustração Tiago Pereira Santos com Freepik, Expresso

O Expresso publicou este sábado um trabalho da autoria do jornalista Adriano Nobre, sobre a página do Facebook Os truques da Imprensa Portuguesa, página anónima, que “visa denunciar os truques da imprensa portuguesa”.

No citado trabalho, o Expresso cita acusações feitas aos autores da página de serem alimentados por uma máquina de propaganda  do governo e de possuírem uma agenda política, baseados no facto de haver mais posts a desmontar notícias contra o governo do que contra a oposição e equipara esta página a blogs como Câmara Corporativa e Albergue Espanhol que no passado recente estiveram ligados, o primeiro  ao governo de José Sócrates e o segundo a Passos Coelho e ao PSD.

Os autores da página “Os Truques da Imprensa Portuguesa”, numa extensa declaração de interesses, recusam as acusações e afirmam terem todos “profissões liberais, em áreas de saber distintas, nenhuma das quais relacionada com comunicação social” e afirmam que nenhum faz parte de juventudes políticas ou partidos políticos.

O artigo do Expresso centra a discussão no anonimato da página. Porém, mais importante do que saber os nomes dos seus autores será, a meu ver, analisar o conteúdo e a pertinência  dos posts publicados e perceber se de facto eles representam uma análise séria das notícias e de denúncia de erros eventualmente cometidos ou se se trata de mera propaganda política. Em qualquer dos casos, os autores, sejam ou não anónimos, têm o direito de se expressar com ou sem agenda (política ou outra). Se forem violados princípios consagrados na Constituição e na lei cabe aos tribunais actuarem em conformidade.

Há porém uma reflexão que o artigo do Expresso suscita: em primeiro lugar, os jornalistas recorrem frequentemente a fontes anónimas para os mais variados fins, desde citação de opiniões a comunicação de factos. Ora, quando alguém questiona o conteúdo de notícias oriundas desse tipo de fontes (por exemplo, na área jurícial) os jornalistas argumentam que o importante é a conteúdo e não a fonte. Do mesmo modo, se poderá afirmar no caso da página “Os Truques…”: o que ali se escreve merece atenção? Os métodos usados são legítimos?

Sobre os autores da citada página terem ou não agenda política, deve notar-se que quando um cidadão, seja político ou de qualquer outra área, escreve num blog , no Face ou noutra rede social, não está sujeito a regras jornalísticas de independência, contraditório, identificação de fontes, etc.. Ora, se os jornalistas citam frequentemente opiniões de fontes sem as identificar (são portanto anónimas para o leitor) e se contratam como comentadores e colunistas políticos e ex-políticos com agenda própria, porque não poderiam  cidadãos, sejam ou não políticos, usar as redes sociais para fins políticos?

É evidente que um cidadão comum tem o direito de escrever sob anonimato ou sob pseudónimo, sendo também legítimo que outros se interroguem e tentem conhecer a sua identidade. Porém, um cidadão que exerça funções públicas está sujeito a um maior escrutínio, o que todavia não o impede de recorrer ao anonimato assumindo os custos daí decorrentes.

No actual mercado dos media o valor de uma opinião ou de uma informação é tanto maior quanto mais mediático for o seu autor. O que é dito de viva voz pelo Presidente da República ou por um membro do governo ou da oposição tem maior “valor-notícia” do que o que é segredado (sob sigilo/anonimato) a um jornalista pelos mesmos protagonistas. Mas não é verdade que muitos do que lemos e ouvimos resulta de fontes que não conhecemos?

Porquê então tanto sobressalto por os autores de “Os Truques da Imprensa Portuguesa” não dizerem quem são? Chamem-se José, João, Manuel, … o que escrevem vale a pena ser lido?

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Assunção Cristas: líder jovem com vícios velhos

cristasdirector do Público, David Dinis, reagiu hoje às acusações de Assunção Cristas dirigidas ao governo, de “plantar notícias” nos jornais, referindo-se à  notícia daquele jornal sobre  as transferências para paraísos fiscais sem análise da Autoridade Tributária, no tempo em que  o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais no Governo PSD/CDS-PP foi o seu colega de partido Paulo Núncio.

Cristas não acusou directamente o Público mas obviamente que na sua acusação ao governo está implícita a ideia de que este jornal  foi instrumentalizado para publicar a notícia e assim desviar as atenções da Caixa Geral de Depósitos. Naturalmente, o director do jornal não podia deixar passar a acusação sem reacção e fez bem.

Cristas, uma líder jovem, usou  e usa frequentemente os truques da “velha”  política: abusa dos adjectivos (“mentiroso” é insulto frequente nas suas intervenções parlamentares) e  ainda pensa que os jornalistas são facilmente manipuláveis e estão ao serviço de alguém. É verdade que algum jornalismo mantém velhos vícios, porém, o escrutínio público cada vez mais intenso tornou mais difícil que as velhas práticas de políticos e jornalistas passem despercebidas e sem forte penalização dos prevaricadores. A reacção do director do Público mostra que ele sentiu necessidade de desagravar o jornal.

Repare-se que Assunção Cristas não acusa o jornal Público nem questiona a veracidade da notícia. Também aqui não há nada de novo porque Cristas sabe que não interessa ao seu partido criar conflitos e más relações com um jornal influente. Cristas acusa, sim, o governo, sem contudo perceber que mesmo que fosse este a “plantar” a notícia, o que, diga-se, todos os políticos fazem ou tentam fazer, a responsabilidade pela publicação é sempre do jornal que tem o dever ético e deontológico de cumprir as boas práticas do jornalismo, isto é, apurar a credibilidade da fonte, procurar o contaditório e aprofundar a informação obtida. A crer na nota do director do Público foi isso que o jornal fez.

“Plantar notícias” é uma acusação com dois sentidos que se volta mais contra os jornalistas do que contra os políticos. De facto, os políticos precisam dos jornalistas e estes necessitam dos políticos porque eles lhes fornecem matéria para notícias. O jornalismo político vive muito das relações com as fontes, existindo muitas vezes  excessiva proximidade que os torna vulneráveis. Pressionados pela concorrência, os jornalistas  são, muitas vezes, usados pelos políticos como instrumento de estratégias político-partidárias e pessoais. Por seu turno, os políticos tendem a olhar para notícias que lhes são hostis como resultantes de instrumentalização de um jornalista por parte de um adversário. Cabe aos jornalistas afirmarem a sua autonomia perante toas e quais quer fontes, nomeadamente políticas.

O Público percebeu a gravidade do ataque de Assunção Cristas à sua credibilidade e publica um Guia para perceber o caso dos offshores. É uma boa prática que, para além do mais, desmobiliza eventuais tentativas de instrumentalização.

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