Um exemplo de “pós-verdade” à portuguesa

carta-de-domingues-a-centenoO jornal electrónico ECO publica hoje, sob o título “CGD: Carta secreta de Domingues compromete Centeno”, excertos de uma carta do ex-administrador da Caixa, António Domingues, ao ministro das Finançss onde afirma: “António Domingues tinha um acordo com o ministro das Finanças para não entregar a declaração de rendimentos no [Tribunal] Constitucional”. Nos excertos publicados pelo jornal, não existe qualquer frase ou declaração de António Domingues que permita afirmar que o ministro lhe prometeu que não teria de apresentar a declaração de património ao Tribunal Constitucional. De facto, nessa carta  o gestor afirma e conclui que:

“A não sujeição a este estatuto [de gestor público) tem, para além do mais, como consequência a não submissão ao dever de entregar no Tribunal Constitucional a declaração de património e consistia, desde o início, uma premissa essencial para o projeto de recapitalização da CGD na ótica do investidor privado, na medida em que permitia — como permitiu — atrair para o projeto uma equipa internacional de profissionais, suscetível de dar as garantias necessárias ao êxito do empreendimento.”.

Isto é, António Domingues toma como seguro que o facto de os gestores da Caixa deixarem de ter o estatuto de gestor público, (foi esse sim o compromisso do governo) implicaria a não apresentação da declaração de património ao Tribunal Constitucional.  Repare-se que Domingues não diz que Centeno prometeu o que quer que fosse, sendo o próprio Domingues a concluir que a  não apresentação da declaração era consequência da alteração do estatuto dos gestores da Caixa.

Não há pois na”carta” de António Domingues ao ministro Mário Centeno publicada pelo jornal  ECO qualquer sustentação para o lead da notícia que afirma que “António Domingues tinha um acordo com o ministro das Finanças para não entregar a declaração de rendimentos no Constitucional”. Apesar da falsidade da afirmação ela foi publicada por todos os jornais e televisões sem qualquer análise dos termos da citada carta.

No debate parlamentar desta tarde o PSD e o CDS não se coibiram de afirmar que o ministro Mário Centeno “mentiu” sem se preocuparem minimamente em analisar o que de facto está escrito na carta de António Domingues. Imprensa, rádio e televisão repetiram a acusação e cavalgaram a onda.

Em nome do rigor, compete-lhes agora revelar as palavras exactas com que o ministro Mário Centeno se terá comprometido a que o Tribunal Constitucional não viria exigir aos gestores da Caixa a apresentação da declaração de património. Como se fosse possível a um  governante ou mesmo ao Presidente da República comprometer-se com uma decisão que só ao Tribunal Constitucional diz respeito.

E temos assim um exemplo de “pós-verdade” à portuguesa em que a interpretação dos factos se substitui aos próprios factos.

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Contra a “pós-verdade” e os “factos alternativos”… talvez um jornalismo alternativo.

porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer

porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer

O jornalismo tal como é entendido nas sociedades democráticas enfrenta uma das suas maiores crises. Não falo da crise económica das empresas jornalísticas mas sim de uma crise mais grave que é a perda de credibilidade,  porque esta atinge os fundamentos e a  razão de ser do jornalismo cuja legitimidade advém do contrato de confiança entre o jornalista e os seus públicos.

A eleição de Donald Trump agravou e veio dar substância às teorias da “pós-verdade” e dos “factos alternativos” que embora não tenham nascido com ele, encontraram na nova administração americana terreno fértil e seguidores capazes de as elevarem a doutrina oficial. De facto, as teorias sobre a “verdade” e a “mentira” não são de hoje e os teóricos da comunicação política  há muito que se debruçam sobre as “nuances” de cada um destes conceitos.

Paradoxalmente, esta é também uma oportunidade para o jornalismo repensar muitas das suas práticas e regressar a alguns dos princípios básicos de que anda arredado, tais como:

  • organizar uma agenda que identifique temas-chave que favoreçam o bem-estar dos cidadãos, em vez de andar atrás dos detentores dos poderes reproduzindo soundbites e declarações  de circunstância;
  • favorecer e respeitar o diálogo entre diversos pontos de vista e entre representantes do poder e os públicos;
  • procurar a verdade, considerarndo todos os factos, perspectivas e alternativas;
  • ter consciência da falibilidade e limitação do seu próprio conhecimento, o que pressupões humildade e auto-crítica;
  • analisar criticamente os paradigmas dominantes;
  • gerar novas ideias e abrir-se à discussão, em vez de se limitar a uma elite de comentadores que reproduz a agenda política e mediática;
  • vigiar os mecanismos de responsabilização dos altos funcionários do Estado sobre a forma como exercem o poder, em vez de ficar dependente de fugas de informação de agentes da justiça, colocando estes também sob escrutínio;
  • dar voz aos cidadãos para que se envolvam no debate público;
  • resisir a forças externas aos media, que possam subverter a sua independência, integridade e capacidade para servir o público.

Estas são apenas algumas achegas para o que poderia ser um jornalismo alternativo contra  a “pós-verdade” e os “factos alternativos”…

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O Presidente e o fotógrafo

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Esta fotografia, publicada hoje no Público, assinala a iniciativa do Presidente Marcelo no primeiro aniversário da sua eleição de juntar em Belém os candidatos que com ele concorreram a essa eleição.

A imagam é uma metáfora poderosa: enquanto os seus convidados e ex-concorrentes desfrutam o momento em que o Presidente os juntou na varanda do palácio e conversam entre si, o Presidente avança isolado para a objectiva do fotógrafo olhando para nós como se estivesse num estúdio de televisão falando para os telespectadores. Como Presidente ou como comentador, a televisão é o seu habitat natural.

O fotógrafo  captou Marcelo na varanda, mas ele já não estava ali porque Marcelo nunca está onde está. Fugidio e imprevisível o Presidente está sempre no momento seguinte ao momento presente.

Esta é uma daquelas fotografias que justificam o aforismo: “Uma imagem vale mais que mil palavras”.

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A entrevista de Marcelo e o guarda-chuva de Costa


marcelo-e-costa-a-chuva-paris-10-de-junho-2016A entrevista do Presidente à SIC a pretexto do primeiro aniversário da sua eleição, apesar de não conter novidades de maior causou perturbação nos jornalistas e comentadores da área política. Desde logo, nos dois entrevistadores que se mostraram algo tensos, por vezes quase agressivos, interrompendo o Presidente a meio de uma explicação, outras vezes parecendo não saberem bem o que perguntar-lhe.

O Presidente, esse, parecia divertido, como sempre. A começar pelo cenário que escolheu (ou lhe escolheram) – uma pequena sala situada na parte residencial do palácio onde Soares tomava café depois de um almoço de trabalho com assessores. Marcelo apresentou-se como sempre descontraído e sorridente encarando as perguntas como pretexto para uma amena e informal cavaqueira que contrastava com o ar sisudo dos entrevistadores.

Marcelo aproveitou a entrevista para explicar o que pensa da acção governativa e mostrar que em quase tudo está de acordo com o governo. Revelou um conhecimento aprofundado dos dossiês e  não escondeu que foi um dinamizador do acordo de concertação social e da baixa da TSU que tanta agitação tem provocado. Não se lhe encontra uma dissonância que seja, em relação à governação, quer se trate do sistema bancário, da política externa ou das prioridades para a economia.

Uma consonância assim entre um Presidente oriundo da direita e um governo oriundo e apoiado pela esquerda não surge por acaso nem é fácil de conseguir. Diria que só pode ser obra de um génio da política e esse ou é Marcelo ou é António Costa ou são ambos. A resposta talvez possa ser encontrada em saber a quem interessa mais esta consonância quase absoluta, se ao Presidente se ao primeiro-ministro. Ou  será que interessa a ambos?

Ora, o conhecimento detalhado que Marcelo revela sobre os dossiês da governação e a naturalidade com que opina sobre áreas da competência do executivo só pode acontecer porque António Costa criou com o Presidente um clima de confiança, abertura  e confidencialidade que vai muito além da relação nornal entre os dois órgãos de soberania e que permite ao Presidente invadir a esfera do governo sem com isso causar neste dramas ou melindres.

Costa percebeu a inelutável apetência de Marcelo pelo protagonismo mediático e a sua necessidade de persuadir e influenciar pela palavra. Por seu turno, Marcelo percebeu que lhe seria impossível “dar a mão” a Passos Coelho porque a sua incoerência política e o seu radicalismo ressabiado não são regeneráveis e acabariam por contaminar a sua presidência.

Entre Marcelo e Costa as coisas articulam-se: Costa dá a Marcelo o enredo da peça que Marcelo leva ao palco. Marcelo retribui o gesto valorizando o enredo e mostrando como se representa em palco. Marcelo é muito melhor actor do que Costa. Costa é melhor na concepção da peça. São duas inteligências que se juntaram num momento inédito  e talvez breve mas que valeu a pena….

A entrevista de Marcelo funcionou para António Costa como o guarda-chuva com que este o protegeu no comício à chuva em Paris.

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Um exemplo de “jornalismo cínico”

ALBERTO FRIAS E LUIS COELHO

ALBERTO FRIAS E LUIS COELHO

A expressão “jornalismo cínico” é usada nos estudos americanos para classificar o cinismo com que os jornalistas tratam os actores políticos tratando-os como culpados até provarem ser inocentes. Uma notícia de  hoje exemplifica bem  o conceito:

“Lembra-se de Lacerda Machado? António Costa, o amigo e afilhado, nunca o esquece. E, segundo o Público, acaba de prolongar por mais seis meses o contrato de consultadoria com o Governo, para que o advogado continue a fazer o que quer [que] seja que faz.” (Expresso curto)

Vejamos: a renovação do contrato de Lacerda Machado foi publicada em primeira mão pelo Público, que identifica Lacerda como “amigo confesso do primeiro-ministro António Costa” , o que é repetido por todos os jornais que “picam” a notícia. Na RTP teve destaque no Jornal da Tarde mas em vez de “amigo”  Lacerda é citado como  “advogado da confiança pessoal do primeiro-ministro”.

Embora sem o “requinte” do texto do Expresso, a notícia contém em todos os meios o  pormenor de o advogado ser “amigo” do primeiro-ministro, surgindo essa particularidade como o mote da notícia. Dir-se-ia que sem ela não haveria notícia porque renovação de contratos de assessores deve haver todos os dias.

Se as críticas à ausência de contrato no início da  colaboração de Lacerda Machado com o governo se justificaram, hoje a  menção de ser amigo do primeiro-ministro só pode ser lida como uma tentativa de diminuir Lacerda e criticar Costa. Um leitor que não tenha acompanhado a polémica da primeira nomeação, pensará que Lacerda Machado é um daqueles “boys” que os partidos e os governos têm a fama de contratarem, sem outras qualidades que o recomendem senão a amizade com o primeiro-ministro.

De facto, não se ouviu que Lacerda Machado seja incompetente, ou que tenha forjado habilitações ou tido qualquer falha nas tarefas de que foi incumbido nem ninguém questionou a sua competência técnica. Porque se continua então a mencioná-lo como “amigo” do primeiro-ministro? O que é que essa qualidade acrescenta à notícia?

Acresce que o facto de o primeiro-ministro e o próprio Lacerda Machado terem assumido a longa amizade que os une não justifica que os jornalistas usem essa ligação pessoal para semearam a dúvida sobre as razões da sua contratação. Não se espera que os jornalistas sejam simpáticos e carinhosos para com os actores políticos mas espera-se que, pelo menos, não sejam excessivamente cínicos.

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Congresso dos Jornalistas: e a auto-regulação ?

congresso-jornalistas-1O Congresso dos Jornalistas foi um acontecimento importante não apenas para os jornalistas e para os estudantes de jornalismo mas também para professores e investigadores que estudam o sector, e para outros profissionais ligados à comunicação. Foi, diria, sobretudo importante para a democracia.

De facto, uma das melhores maneiras de conhecer um sector é ouvir os seus profissionais. No caso dos jornalistas, como se viu pelo tempo que separou o anterior congresso do actual (18 anos) não é fácil ouvir os jornalistas falarem de si próprios, das suas empresas e, ainda mais raramente, fazerem auto-crítica em público. Ora, tudo isso passou pelo Congresso, embora com diferente destaque, não obstante a questão dos “precários” se ter constituído como tema central e sido alvo de  depoimentos em muitos casos chocantes.

Pela voz de alguns veteranos ouviram-se intervenções de crítica duríssima a situações recentes e concretas, como a de Nicolau Santos (Expresso) ao jornalismo económico pelo  seguidismo em relação à troika e conformismo em relação às políticas preconizadas por esta e praticadas pelo anterior governo; de Adelino Gomes, de José Pedro Castanheira (Expresso) e de Anabela Neves (SIC) em defesa de uma auto-regulação capaz de identificar e punir más práticas jornalísticas. Também a presidente da Comissão Organizadora do Congresso, Maria Flor Pedroso (Antena 1), se empenhou antes ainda do Congresso em inúmeras intervenções públicas em colocar a ética e a deontologia no centro dos debates. Não seria, porém, assim.

A par de intervenções de grande interesse e qualidade apresentando novas experiências, a maioria dos oradores relatou vivências, em geral negativas, relacionadas com as condições de trabalho nas empresas e fora delas. Noutras intervenções foi possível constatar algum desconhecimento de questões relativas ao enquadramento jurídico e regulatório do sector. Desde logo, o equívoco e a confusão entre hetero-regulação (ERC) co-regulação (Comissão da Carteira/CCPJ) e auto-regulação (esta inexistente em Portugal) que levou alguns congressistas a proporem  eliminar ou controlar as duas primeiras sem garantirem a terceira. Seria o presidente da CCPJ, um jurista cooptado pelos restantes membros da CCPJ, a esclarecer, no painel final, que o jornalismo é feito (ou deve ser) para os cidadãos, não podendo por isso ser exclusivamente regulado e avaliado pelos próprios jornalistas.

O Congresso rejeitou a proposta de criação de uma Ordem dos Jornalistas, sem contudo ter aprovado a criação formal de uma instância de auto-regulação, mencionada apenas numa frase singela na Resolução final “A autorregulação tem de ser reforçada e a regulação tem de ser eficaz“. Ora, uma instância de auto-regulação seria, essa sim, constituída apenas por jornalistas eleitos pela classe, e assumiria atribuições  actualmente cometidas à ERC relativas à imprensa, deixando a esta a regulação do audiovisual como acontece, por exemplo, no Reino Unido com a Independent Press Standards Organisation (IPSO) que se ocupa da imprensa, enquanto o OFCOM (equivalente à ERC) se ocupa da rádio e da televisão.

congresso-jornalistas-2O painel dos empresários e reguladores, que despoletou alguma polémica entre os congressistas mas que a comissão organizadora acertadamente organizou e manteve, revelou-se útil pela evidência da grande maioria das intervenções, algumas das quais, à excepção do caso dos precários, não tiveram réplica da presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco,  não obstante o vigor e a virulência da sua intervenção final.

De facto, as intervenções de Pinto Balsemão (Impresa), Rosa Cullel (Media Capital) Gonçalo Reis (TVI) (Proença de Carvalho (Global Media) foram claras na identificação dos problemas que afectam o sector (também identificados pelos congressistas durante os debates) e na necessidade de encontrar formas alternativas de receita para financiamento do “bom jornalismo”. Porém, quanto à pergunta que deu título a este painel: “E AGORA?” não teve resposta.

 

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Jornalistas em congresso

congresso-dos-jornalistasComeçou hoje o 4.º Congresso dos Jornalistas portugueses, dezoito anos depois do último. Este longo período, em que a classe não quis ou não foi capaz de se organizar para debater em conjunto os problemas da sua profissão seria, por si só, motivo de reflexão. O facto de a actual direcção do Sindicato ter conseguido ultrapassar esse longo “silêncio” e  ter chamado a Casa de Imprensa e o Clube de Jornalistas para co-organizarem este Congresso merece por isso referência.

Os jornalistas nunca foram um grupo profissional homogéneo, desde logo pela natureza do trabalho que realizam, muito baseado na concorrência como é próprio de uma sociedade em que existe liberdade de criação de empresas de comunicação social e em que os novos media  tornaram essa concorrência ainda mais acentuada. Algumas discussões antigas que chegaram até hoje sem solução, como sejam a  auto-regulação dos jornalistas ou a criação de uma Ordem, contribuíram para dividir a classe, independentemente de os jornalistas serem também acusados de corporativismo perante críticas externas.

A avaliar pelos temas dos painéis o Congresso  procura cruzar a discussão das actuais condições de trabalho dos jornalistas com questões relacionadas com a prática do jornalismo, com maior incidência nas condições de trabalho. Dada o vasto número de oradores e a abrangência dos temas, o principal desafio será extrair das intervenções ideias-chave que possam transformar-se em propostas exequíveis para melhorar quer as condições de trabalho quer as práticas do jornalismo.

Teria, a meu ver, sido útil e desafiador organizar um painel de “case studies” para apresentação e debate de casos concretos e polémicos que confrontassem pontos de vista e obrigassem a separar as águas entre o jornalismo e as suas corruptelas. De facto, o Congresso não pode ignorar casos de atropelos à ética e à deontologia, de promiscuidade entre jornalismo e poder económico e judicial, de ausência de pluralismo e diversidade na escolha de comentadores e analistas da área política e económica, de mimetismo entre as agendas dos diversos meios, de sedução do jornalismo pela informação-espectáculo.

Os dados conhecidos de inquéritos à classe preparados para o Congresso revelam uma situação inquietante que aliás não é nova mas que não pode servir de justificação para a deriva do jornalismo e para a sua perda de credibilidade. A luta por condições de trabalho justas – salário, tempo para investigação, protecção social – tem de ir a par da recuperação dos valores da independência, rigor, isenção, distanciamento face às fontes, procura da verdade, que fizeram do jornalismo um caminho da democracia, porque não há democracia sem jornalismo livre e independente nem jornalismo livre e independente sem democracia.

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