“Assalto ao Castelo”: o jornalista e a sua “fonte-mistério”

A reportagem em três episódios, da SIC,  “Assalto ao Castelo“, da autoria do jornalista Pedro Coelho, é um trabalho inovador e de grande seriedade que merece ser estudado e analisado nas escolas de jornalismo e nas redacções. Não apenas a construção das peças, a narrativa que percorre os três episódios, a encenação dos diálogos do jornalista com a “fonte-mistério”, os cenários interiores e exteriores, as paisagens reais ou criadas, os excertos escolhidos das intervenções públicas dos protagonistas, os depoimentos de lesados, a conversa do jornalista com o treinador Carlos Queirós, em suma, toda a concepção dos episódios revela domínio de uma estética própria da televisão, inspirada no melhor que podemos ver em séries internacionais.

Independentemente da importância das revelações substantivas proporcionadas neste trabalho de Pedro Coelho, que outros mais conhecedores já analisaram, assinalo outras vertentes que contribuem para tornar este conjunto de reportagens um marco na história da televisão portuguesa.

O fio condutor das reportagens são documentos internos do Banco de Portugal que uma “fonte-mistério” deu ao jornalista. Os dois primeiros episódios começam com um diálogo entre o jornalista e essa “fonte-mistério”, representada por uma voz e uma figura feminina, ambos filmados de costas caminhando ou captados de frente a grande distância de modo a não ser possível identificar o rosto da figura que representa a “fonte-mistério”.

A “fonte-mistério” acompanha o jornalista nos três episódios e constitui juntamente com o próprio jornalista quer como narrador quer em off ou em intervenções directas e em curtas entrevistas a alguns participantes, uma das grandes inovações desta reportagem.

Desde o início do primeiro episódio o jornalista faz questão de salientar o papel da “fonte-mistério” que lhe “fez chegar às mãos” os documentos que constituem a substância da reportagem. Ao contrário do que é frequente, o jornalista não esconde a fonte nem usou a velha frase “A SIC sabe…” ou  “A SIC teve acesso…”.  Pelo contrário, na terceira reportagem revela que a “fonte-mistério” tem “mais de três décadas no Banco de Portugal”.

Pedro Coelho participou ao longo da semana em que os episódios fioram exibidos em debates sobre o seu trabalho. Mas foi no programa Expresso da Meia-Noite, da SIC Notícias, que o jornalista  foi mais longe no desejo de tornar transparente o seu trabalho. Questionado por Nicolau Santos sobre ter sido ele, Pedro Coelho, um jornalista que não é da área de economia, a receber tão importante e vasta documentação de uma instituição tão fechada como o BdP,  Pedro Coelho afirmou sem qualquer hesitação que não conhece o BdP e que foi “por interposta pessoa”, alguém que quis dar aqueles documentos a uma televisão, que  esta história lhe “caíu no colo” sendo ele o escolhido devido, presume,  a trabalhos anteriores que fez sobre, o BPN e o BANIF .

O trabalho de Pedro Coelho e o debate subsequente que suscitou mostram também que a sua “fonte-mistério” percebeu que teria de ser um jornalista sem relações próximas e confidenciais nem cumplicidades com a administração do Banco a receber e a tratar tão importante e explosiva documentação. Percebeu também que a televisão seria o meio mais capaz de levar ao grande público, de maneira atraente, concisa e persuasora, matérias que num jornal se perderiam em páginas e páginas que só os iniciados leriam na íntegra. A escolha do jornalista Pedro Coelho foi também para a “fonte-mistério” uma escolha sem riscos, dadas as garantias de seriedade e profissionalismo do citado jornalista.

A reacção do governador do BdP ao pedir para ir ao Parlamento esclarecer todos os pontos da reportagem revela o incómodo causado pelo trabalho do SIC e pelas revelações da “fonte-mistério”.

Imagino que o BdP não resistirá a uma caça às bruxas para encontrar a “fonte-mistério”.

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