Um saneamento insólito

Tenho escrito repetidamente  sobre  a originalidade portuguesa de os directores de informação das televisões portuguesas contratarem políticos e ex-políticos cedendo-lhes espaços para que eles comentem  assuntos  combinados previamente com o jornalista que os “recebe”, para que não fiquem a falar sozinhos.

Visto do lado dos jornalismo, o modelo é absurdo e  sem sentido porque o jornalista “anfitrião” não faz qualquer contraditório, vai fazendo umas perguntas, embora  o espaço não seja de entrevista mas sim para o político-comentador exprimir opiniões … políticas.

augusto+santos+silvaMas o saneamento de Santos Silva do seu espaço na TVI – a crer nas notícias – é uma punição por delito de opinião. Independentemente de se concordar ou não com o formato,  é para mim inesperado que o caso tenha acontecido numa estação de televisão em que pontificam dois jornalistas como  José Alberto de Carvalho e Judite de Sousa. Não creio que o novo director de Informação – Sérgio Figueiredo (que não conheço) – pudesse tomar tal decisão sem o apoio do anterior director, que agora tem funções mais elevadas na hierarquia da estação.

Santos Silva é um intelectual da política, dotado de uma inteligência fulgurante e de um verbo fácil, irónico e, não raras vezes, provocador. As suas opiniões, muitas vezes sofisticadas, irritam os adversários políticos, precisamente pela pertinência e acuidade do seu discurso. Profundo conhecedor dos meandros da política e da governação, foi várias vezes ministro, desconstrói com facilidade e conhecimento o discurso oficial e os argumentos da direita.

As suas críticas à instabilidade horária do programa são pertinentes e representam respeito pelo telespectador, que tem o direito de ver respeitados os horários dos programas, desde logo pela TVI. Aliás, o contrato com os colaboradores deveria prever penalizações para alterações aos horários estabelecidos.

A ser verdade que Santos Silva foi “despedido” por criticar o desrespeito dos horários do programa está criada uma situação grave para uma estação de televisão que está obrigada a respeitar a liberdade de expressão, incluindo a dos colaboradores que contrata.

Aguardam-se pois, explicações da própria TVI sobre as causas do saneamento de Augusto Santos Silva.

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Lutar contra o medo

Um dos maiores desafios que se coloca ao PS é lutar contra o medo que o governo e os seus porta-vozes com acesso aos órgãos de comunicação social estão a explorar, com base na situação da Grécia.

O discurso oficial em Bruxelas e em Lisboa, adoptado por jornalistas e comentadores, aponta para a inevitabilidade da austeridade nos moldes impostos pelo Eurogrupo e pelos líderes europeus, escondendo o fracasso das receitas baseadas precisamente na austeridade, como é o caso de Portugal.

A incapacidade dos jornalistas e comentadores para procederam à desconstrução do discurso oficial do governo português e dos líderes europeus, quando se referem a um alegado sucesso do resgate português e elogiam cinicamente o sacrifício dos portugueses, precisa de ser denunciada e desmontada de maneira séria e rigorosa.

É escandaloso para os portugueses que vivem na pobreza, para pensionistas, desempregados e jovens à procura de um futuro que não vislumbram, assistirem aos elogios indecorosos e oportunistas dos burocratas de Bruxelas aos “êxitos” do governo português na aplicação do programa de assistência, sem que a resposta adequada surja de quem a pode efectivamente dar, isto é, o PS.

É urgente que António Costa desmistifique este discurso do “sucesso português” e do medo que é atirado para cima dos portugueses, caso venham a escolher nas próximas eleições o caminho alternativo proposto pelo PS.

Esse trabalho de desconstrução do discurso do medo, que se está instalando nos meios de comunicação social, tem de mobilizar o PS através das vozes dos dirigentes mais preparados e com melhor domínio da comunicação para, juntamente com o secretário-geral, levarem a cabo essa urgente tarefa.

(artigo meu publicado hoje no Acção Socialista digital)

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Sócrates: porque lhe pedem para falar se não querem ouvi-lo?

São curiosas as reacções dos jornalistas  às intervenções públicas de José Sócrates, feitas a partir da prisão. Por um lado, enviam-lhe pedidos de entrevistas e  perguntas e esperam dias, semanas e meses até conseguirem que ele aceite. Depois, quando as conseguem, dão-lhe o maior destaque, o que é natural, dado que Sócrates continua a impor-se à agenda pública.

Porém, os meios de comunicação social que  conseguem falar com Sócrates sentem depois necessidade de se demarcarem, como que desculpando-se por lhe terem dado a palavra, esclarecendo que não puderam fazer o contraditório, assim menorizando a informação que eles próprios se esforçaram por conseguir.

Mais ainda, as palavras de Sócrates são depressa convertidas através de interpretações sofisticadas num ataque implícito ao PS, mesmo que ele diga o contrário. António Costa surge então como vítima de Sócrates e Sócrates é acusado de prejudicar o PS cada vez que fala.

Fica assim criada uma inibição velada, de modo que  ninguém com responsabilidades no PS se atreve  a falar em Sócrates para não ser acusado de estar a prejudicar Costa e o PS e a misturar a política com a justiça.

E, como se não bastasse, se o assunto é discutido pelo público que telefona para os programas de rádio e alguém tem o desplante de apoiar as palavras de Sócrates e criticar o Ministério Público ou o Juiz de instrução com palavras mais duras ou inconvenientes, logo o moderador pede respeitinho pela Justiça, como se a Justiça estivesse acima da crítica e mesmo de alguma incontinência verbal, tão habitual nesses programas.

Dir-se-ia que Sócrates é para os jornalistas uma espécie de isca para atrair mas logo a seguir é repelido por quem tentou atraí-lo. O que ele diz é depois “servido” contra ele.

Ora, se os jornalistas o criticam por falar porque lhe pedem entrevistas?

Sócrates entrevista DN e TSFJá se percebeu que me refiro à entrevista de Sócrates à TSF e ao DN  publicada hoje por ambos os meios. E embora eu não tenha referido nomes, devo ressalvar que os autores da entrevista  – Nuno Saraiva e Paulo Tavares – tiveram a atitude correcta. Deram-lhe o destaque merecido e não se desculparam com análises auto-castigadoras. E as perguntas que fizeram dão matéria para reflexão.

É pena que muitos socialistas se sintam intimidados e  não tenham questões a colocar sobre o funcionamento da justiça.

 

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Os gregos e os algozes

Em Novembro de 2011, o jornalista Paulo Moura traçava sobre a Grécia um quadro que lido hoje nos ajuda a compreender melhor porque razão o governo do Syriza não podia aceitar a imposição de mais austeridade como queriam os parceiros europeus. Vale a pena relê-la  na íntegra. Eis um excerto que, na altura, reproduzi aqui no blog:

(…) Nas últimas semanas, por pressão indirecta da troika, a electricidade começou a ser cortada em muitas das casas pobres construídas na encosta em frente ao mar, em Perama. Foi a catástrofe. Em breve, todas as famílias da cidade ficariam às escuras, sem poder cozinhar ou aquecer-se. Mas o sindicato reuniu-se e tomou uma decisão. Criaram piquetes que vão de prédio em prédio fazer ligações directas a quem foi cortada a luz. “Já que não conseguimos garantir emprego aos trabalhadores, pelo menos garantimos que não lhes tiram tudo”, explica Akiz Antoniou, dirigente sindical.

(…) Este tipo de medidas (…) está a multiplicar-se por todo o país. No estádio avançado a que a crise chegou, é visto como a única forma possível de resposta. Pressupõe uma atitude de hostilidade e desconfiança em relação ao Estado, visto como uma entidade exterior e inimiga do povo. Ao nível individual, esta atitude traduz-se numa série de comportamentos, do qual o mais relevante para a economia é a fuga aos impostos. Para muitos gregos, não os pagar é uma necessidade, mas também um orgulho. E o contrário seria uma vergonha. Sempre foi assim (…). O caso mais evidente é o do Império Otomano (…). Por isso, para um grego, era um sinal de personalidade e de honra não pagar esses impostos. Era a única resposta possível à humilhação. (…) Hoje em dia, as pessoas têm em relação ao Estado grego a mesma atitude.”

A desobediência assume muitas formas. Algumas são visíveis por todo o lado. (…) no início do Verão, quando se percebeu que a crise não era uma brincadeira. Grupos de cidadãos de um bairro, uma aldeia, uma empresa ou uma ilha começaram a reunir-se para tomar decisões. (…) Em muitos casos, decidiu-se não consumir produtos que não tivessem origem na própria comunidade. Noutros comprometeram-se a não usar serviços bancários. Noutros ainda, mais radicais, optou-se mesmo por não usar mais o dinheiro (…) cada um consumiria apenas o que produzia, ou o que os vizinhos produziam, num sistema de trocas directas, sem utilização de moeda.

(…) Convenceram as pessoas de que não é possível viver fora deste sistema capitalista”, diz Joanna, jornalista desempregada (…). “Mas é mentira. Se sairmos do sistema, a vida continua. É essa a grande descoberta de muitos gregos, neste momento. E essa foi a grande lição desta crise. Depois disto, nada será como antes.”

O Estado é o caos”.  Fotis Sioutas (…)  acredita no nascimento de uma sociedade grega fora do Estado. (…) “A Europa desconfia dos gregos por causa do Estado. E nós comportamo-nos como desobedientes e desrespeitadores, por causa do Estado. Nas nossas relações pessoais, não somos assim.”

Para quem tem esta atitude, desobedecer, ignorar as regras, sair do sistema, pode ser a solução para a crise. Principalmente quando, nas vésperas do anúncio de mais um pacote de austeridade, não se vislumbra mais nenhuma.”

Um povo que passou por isto é capaz de resistir à chantagem  dos “parceiros” (eufemismo para designar os algozes).

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O “sucesso” do resgate português é uma história de crianças

EurogrupoNo momento em  que todos reconhecem que a Europa vive um momento histórico, correndo o risco de desmembramento com a possível saída da Grécia do euro, e quando está à vista o fracasso dos programas de resgate aplicados àquele País e também a Portugal, impor-se-ia uma reflexão profunda sobre o que falhou e porque insistem a Europa e o FMI numa receita que, como eles bem  sabem, conduz os países onde é aplicada a mais pobreza, mais desemprego e mais dívida.

A verdade é que sabemos pouco sobre o resgate português. Sabemos, isso sim, o que sofremos, os cortes nos rendimentos – vencimentos ou pensões –  as coisas de que abdicámos, os sonhos que deixámos para trás, a esperança perdida em dias melhores.

Agora que o “sucesso” de Portugal passou a ser instrumentalizado como arma de arremesso contra a Grécia – porque nós nos portámos bem, e eles se portaram mal – seria útil fazer a história destes anos de chumbo vividos sob a troika, de que ainda não nos livrámos apesar de o governo dizer o contrário (vidé os relatórios ameaçadores do FMI).

Seria bom analisar os documentos,  cartas, emails,  telefonemas, video-conferências (terão sido gravados?) trocados entre os governantes portugueses e os funcionários da troika, que em Lisboa, Bruxelas ou Nova York ditavam as regras a Passos Coelho, Vítor Gaspar, Maria Luís Albuquerque e aqueles que os acolitavam.

Essa história vai ter que ser feita um dia e quanto mais depressa melhor, antes que as secretárias se esvaziem e os arquivos sejam apagados, como tem acontecido em momentos importantes da nossa hstória.

Os portugueses sabem melhor que ninguém que a história do “sucesso” português é uma história de crianças (para usar as palavras de Passos Coelho sobre a Grécia).

 

 

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A receita europeia para a Grécia: humilhar para vencer

(Photo JOHN THYS. AFP)

(Photo JOHN THYS. AFP)

Os jornais disseram e as televisões mostraram a prova da tentativa indecorosa da humilhação da Grécia:

“(…) Já com Tsipras na capital belga, onde ao longo de sete horas tentou ultrapassar as divergências, a contraproposta dos credores foi passada à imprensa: cinco páginas todas riscadas a vermelho, cheias de emendas ao texto grego e com novas exigências. Fonte comunitária disse ao Económico que o documento completo é maior, mas só aquelas páginas mais rasuradas foram parar à imprensa.”

É impossível deixar de pensar que existe má-fé da parte dos responsáveis europeus que não hesitam em usar todos os meios para desacreditarem o governo grego. Será que não têm consciência dos danos que estão a infligir ao próprio projecto europeu?

Os cidadãos europeus, independentemente de serem de direita, de esquerda ou do centro, têm dado sinal de que recusam a arrogância e o espírito anti-democrático, falsamente rigoroso, das  instituições que lideram as negociações com a Grécia.

Os problemas da Grécia, que amanhã poderão ser os de qualquer outro país, não se resolvem com atitudes de superioridade moral, sobretudo quando os chamados “incumpridores” foram obrigados a seguir uma receita imposta por quem agora os quer punir precisamente por a receita não ter dado resultados.

Os mandantes da Europa apoderaram-se do projecto europeu e têm vindo a desfigurá-lo, impondo políticas cegas como se os países fossem todos iguais e tivessem todos partido de uma mesma situação económica, social e cultura quando aderiram ao projecto europeu e, sobretudo, quando adoptaram o euro.

A humilhação da Grécia, como a de Portugal em determinados momentos da presença da troika entre nós, que convém não esquecer, é uma afronta ao princípio da solidariedade europeia e constitui um contributo altamente negativo para o descrédito da democracia ocidental.

Os europeus têm razões para se interrogarem de que serve terem formalmente uma democracia com direito a escolherem os seus governantes e o sistema político económico e social em que querem viver, se os técnicos do FMI, da União Europeia e do Banco Central Europeu impedem depois os seus eleitos de conduzirem os destinos do país nos moldes para que foram eleitos?

O discurso sobre “credores”, eufemismo para referir a Alemanha e o FMI, esconde que credores e devedores somos todos e que, bem feitas as contas, talvez os credores ganhem mais com os devedores do que os devedores ganham com os empréstimos dos credores.

O discurso oficial vindo de Bruxelas, e propagandeado pelos media nacionais e internacionais, esconde o evidente preconceito ideológico que está subjacente à intransigência manifestada pelos líderes europeus que exigem à Grécia uma capitulação total.

O comportamento do Eurogrupo e dos líderes europeus mostra à evidência que a democracia europeia não é mais que uma mal disfarçada ditadura dos países mais fortes sobre os mais fracos, de que a Grécia é o expoente mais visível mas onde cabem também Portugal, a Espanha e a Itália.

Não nos enganemos! Hoje é a Grécia a ser humilhada, amanhã podemos ser nós.

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Sobre os media e os poderes: fragmentos de um debate

jornalismoOs media são um poder? Existe um poder mediático?
Os media não são poder nem contrapoder. São metapoder. Um poder que interfere e perturba o funcionamento de outros poderes.

Contudo, não sendo um poder, os media têm poder. Como se manifesta então o poder dos media? Qual a sua fonte de legitimação?

Os media têm o poder de decidir quem tem voz no espaço público. Ao darem visibilidade a determinadas figuras conferem-lhes o poder da palavra pública, isto é, o poder de influenciarem a agenda pública – os assuntos sobre que falar e como falar deles. É certo que as redes sociais permitem aos cidadãos que têm acesso à Internet (e não são ainda, em Portugal, a maioria) expressarem livremente as suas opiniões. Porém, em muitos casos as redes sociais limitam-se a amplificar as vozes dominantes nos media tradicionais.

Perguntam alguns: de onde vem a legitimidade dos jornalistas? Quem os elege? A legitimidade dos jornalistas advem-lhes da obediência a um código deontológico e a um estatuto profissional que lhes confere responsabilidades, direitos e deveres, como sejam o segredo profissional (prerrogativa de muito poucas profissões). Advém-lhes ainda do contrato social com os cidadãos que esperam deles o respeito por um conjunto de regras, como o rigor da informação, o exercício do contraditório, a identificação das fontes, a separação entre os factos e as opiniões.

Quais são os poderes que interagem e interferem  com o poder mediático?
Desde logo, o poder económico, o mais determinante na independência e autonomia dos jornalistas. É um poder invisível, vindo dos proprietários, dos investidores e anunciantes, muito pouco escrutinado (veja-se o caso BES, “escondido” até ao momento em que não foi possível escondê-lo mais).

O poder político, o mais escrutinado  e o único sujeito a uma crítica sistemática eivada de cinismo,  Ao contrário do que a vox-populis faz crer, o poder político é o que menos poder efectivo tem para interferir na independência e na autonomia dos jornalistas.

E há um poder emergente, que cresceu com o enfraquecimento e descrédito do poder político, que se assume como o  “justo” e o “verdadeiro”, quase transcendental – o poder judicial – olhado pelos media com respeito e seguidismo, não sujeito ao seu escrutínio, antes defendido e protegido como aliado preferencial.

(a continuar)

(fragmentos do debate sobre PODERES organizado pelo Sindicato dos jornalistas,  a emitir pela TSF esta quinta-feira às 21h00)

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