Um exemplo de “jornalismo cínico”

ALBERTO FRIAS E LUIS COELHO

ALBERTO FRIAS E LUIS COELHO

A expressão “jornalismo cínico” é usada nos estudos americanos para classificar o cinismo com que os jornalistas tratam os actores políticos tratando-os como culpados até provarem ser inocentes. Uma notícia de  hoje exemplifica bem  o conceito:

“Lembra-se de Lacerda Machado? António Costa, o amigo e afilhado, nunca o esquece. E, segundo o Público, acaba de prolongar por mais seis meses o contrato de consultadoria com o Governo, para que o advogado continue a fazer o que quer [que] seja que faz.” (Expresso curto)

Vejamos: a renovação do contrato de Lacerda Machado foi publicada em primeira mão pelo Público, que identifica Lacerda como “amigo confesso do primeiro-ministro António Costa” , o que é repetido por todos os jornais que “picam” a notícia. Na RTP teve destaque no Jornal da Tarde mas em vez de “amigo”  Lacerda é citado como  “advogado da confiança pessoal do primeiro-ministro”.

Embora sem o “requinte” do texto do Expresso, a notícia contém em todos os meios o  pormenor de o advogado ser “amigo” do primeiro-ministro, surgindo essa particularidade como o mote da notícia. Dir-se-ia que sem ela não haveria notícia porque renovação de contratos de assessores deve haver todos os dias.

Se as críticas à ausência de contrato no início da  colaboração de Lacerda Machado com o governo se justificaram, hoje a  menção de ser amigo do primeiro-ministro só pode ser lida como uma tentativa de diminuir Lacerda e criticar Costa. Um leitor que não tenha acompanhado a polémica da primeira nomeação, pensará que Lacerda Machado é um daqueles “boys” que os partidos e os governos têm a fama de contratarem, sem outras qualidades que o recomendem senão a amizade com o primeiro-ministro.

De facto, não se ouviu que Lacerda Machado seja incompetente, ou que tenha forjado habilitações ou tido qualquer falha nas tarefas de que foi incumbido nem ninguém questionou a sua competência técnica. Porque se continua então a mencioná-lo como “amigo” do primeiro-ministro? O que é que essa qualidade acrescenta à notícia?

Acresce que o facto de o primeiro-ministro e o próprio Lacerda Machado terem assumido a longa amizade que os une não justifica que os jornalistas usem essa ligação pessoal para semearam a dúvida sobre as razões da sua contratação. Não se espera que os jornalistas sejam simpáticos e carinhosos para com os actores políticos mas espera-se que, pelo menos, não sejam excessivamente cínicos.

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Congresso dos Jornalistas: e a auto-regulação ?

congresso-jornalistas-1O Congresso dos Jornalistas foi um acontecimento importante não apenas para os jornalistas e para os estudantes de jornalismo mas também para professores e investigadores que estudam o sector, e para outros profissionais ligados à comunicação. Foi, diria, sobretudo importante para a democracia.

De facto, uma das melhores maneiras de conhecer um sector é ouvir os seus profissionais. No caso dos jornalistas, como se viu pelo tempo que separou o anterior congresso do actual (18 anos) não é fácil ouvir os jornalistas falarem de si próprios, das suas empresas e, ainda mais raramente, fazerem auto-crítica em público. Ora, tudo isso passou pelo Congresso, embora com diferente destaque, não obstante a questão dos “precários” se ter constituído como tema central e sido alvo de  depoimentos em muitos casos chocantes.

Pela voz de alguns veteranos ouviram-se intervenções de crítica duríssima a situações recentes e concretas, como a de Nicolau Santos (Expresso) ao jornalismo económico pelo  seguidismo em relação à troika e conformismo em relação às políticas preconizadas por esta e praticadas pelo anterior governo; de Adelino Gomes, de José Pedro Castanheira (Expresso) e de Anabela Neves (SIC) em defesa de uma auto-regulação capaz de identificar e punir más práticas jornalísticas. Também a presidente da Comissão Organizadora do Congresso, Maria Flor Pedroso (Antena 1), se empenhou antes ainda do Congresso em inúmeras intervenções públicas em colocar a ética e a deontologia no centro dos debates. Não seria, porém, assim.

A par de intervenções de grande interesse e qualidade apresentando novas experiências, a maioria dos oradores relatou vivências, em geral negativas, relacionadas com as condições de trabalho nas empresas e fora delas. Noutras intervenções foi possível constatar algum desconhecimento de questões relativas ao enquadramento jurídico e regulatório do sector. Desde logo, o equívoco e a confusão entre hetero-regulação (ERC) co-regulação (Comissão da Carteira/CCPJ) e auto-regulação (esta inexistente em Portugal) que levou alguns congressistas a proporem  eliminar ou controlar as duas primeiras sem garantirem a terceira. Seria o presidente da CCPJ, um jurista cooptado pelos restantes membros da CCPJ, a esclarecer, no painel final, que o jornalismo é feito (ou deve ser) para os cidadãos, não podendo por isso ser exclusivamente regulado e avaliado pelos próprios jornalistas.

O Congresso rejeitou a proposta de criação de uma Ordem dos Jornalistas, sem contudo ter aprovado a criação formal de uma instância de auto-regulação, mencionada apenas numa frase singela na Resolução final “A autorregulação tem de ser reforçada e a regulação tem de ser eficaz“. Ora, uma instância de auto-regulação seria, essa sim, constituída apenas por jornalistas eleitos pela classe, e assumiria atribuições  actualmente cometidas à ERC relativas à imprensa, deixando a esta a regulação do audiovisual como acontece, por exemplo, no Reino Unido com a Independent Press Standards Organisation (IPSO) que se ocupa da imprensa, enquanto o OFCOM (equivalente à ERC) se ocupa da rádio e da televisão.

congresso-jornalistas-2O painel dos empresários e reguladores, que despoletou alguma polémica entre os congressistas mas que a comissão organizadora acertadamente organizou e manteve, revelou-se útil pela evidência da grande maioria das intervenções, algumas das quais, à excepção do caso dos precários, não tiveram réplica da presidente do Sindicato dos Jornalistas, Sofia Branco,  não obstante o vigor e a virulência da sua intervenção final.

De facto, as intervenções de Pinto Balsemão (Impresa), Rosa Cullel (Media Capital) Gonçalo Reis (TVI) (Proença de Carvalho (Global Media) foram claras na identificação dos problemas que afectam o sector (também identificados pelos congressistas durante os debates) e na necessidade de encontrar formas alternativas de receita para financiamento do “bom jornalismo”. Porém, quanto à pergunta que deu título a este painel: “E AGORA?” não teve resposta.

 

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Jornalistas em congresso

congresso-dos-jornalistasComeçou hoje o 4.º Congresso dos Jornalistas portugueses, dezoito anos depois do último. Este longo período, em que a classe não quis ou não foi capaz de se organizar para debater em conjunto os problemas da sua profissão seria, por si só, motivo de reflexão. O facto de a actual direcção do Sindicato ter conseguido ultrapassar esse longo “silêncio” e  ter chamado a Casa de Imprensa e o Clube de Jornalistas para co-organizarem este Congresso merece por isso referência.

Os jornalistas nunca foram um grupo profissional homogéneo, desde logo pela natureza do trabalho que realizam, muito baseado na concorrência como é próprio de uma sociedade em que existe liberdade de criação de empresas de comunicação social e em que os novos media  tornaram essa concorrência ainda mais acentuada. Algumas discussões antigas que chegaram até hoje sem solução, como sejam a  auto-regulação dos jornalistas ou a criação de uma Ordem, contribuíram para dividir a classe, independentemente de os jornalistas serem também acusados de corporativismo perante críticas externas.

A avaliar pelos temas dos painéis o Congresso  procura cruzar a discussão das actuais condições de trabalho dos jornalistas com questões relacionadas com a prática do jornalismo, com maior incidência nas condições de trabalho. Dada o vasto número de oradores e a abrangência dos temas, o principal desafio será extrair das intervenções ideias-chave que possam transformar-se em propostas exequíveis para melhorar quer as condições de trabalho quer as práticas do jornalismo.

Teria, a meu ver, sido útil e desafiador organizar um painel de “case studies” para apresentação e debate de casos concretos e polémicos que confrontassem pontos de vista e obrigassem a separar as águas entre o jornalismo e as suas corruptelas. De facto, o Congresso não pode ignorar casos de atropelos à ética e à deontologia, de promiscuidade entre jornalismo e poder económico e judicial, de ausência de pluralismo e diversidade na escolha de comentadores e analistas da área política e económica, de mimetismo entre as agendas dos diversos meios, de sedução do jornalismo pela informação-espectáculo.

Os dados conhecidos de inquéritos à classe preparados para o Congresso revelam uma situação inquietante que aliás não é nova mas que não pode servir de justificação para a deriva do jornalismo e para a sua perda de credibilidade. A luta por condições de trabalho justas – salário, tempo para investigação, protecção social – tem de ir a par da recuperação dos valores da independência, rigor, isenção, distanciamento face às fontes, procura da verdade, que fizeram do jornalismo um caminho da democracia, porque não há democracia sem jornalismo livre e independente nem jornalismo livre e independente sem democracia.

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Mário Soares, um testemunho muito pessoal

foto de Marcos Braga, revista Visão

foto de Marcos Braga, revista Visão

A morte de Mário Soares causa-me um sentimento de impotência que me dificulta o distanciamento necessário para falar do “homem político”, do “pai da democracia” ou do  “amante da liberdade” que todos, e eu também, reconhecem nele. Por isso, não vou repetir o que tantos disseram já sobre o que ele representa para o nosso País. Isso a História registará. Mas tendo convivido intensamente com ele nos 10 anos da sua Presidência guardo desses anos memórias impressivas e como tal difíceis de verbalizar. Talvez se eu fosse poeta e juntasse as palavras que me ocorrem saísse um poema…   Liberdade, coragem, intuição, alegria, destemor, audácia, desafio, provocação, fúria, ternura, curiosidade, força, teimosia, visão, esperança, capricho, descoberta….. Não o sendo, resta-me tentar um testemunho muito pessoal, memórias que guardo dele.

O que me fascinava em Mário Soares era o seu espírito indomável, a vontade de vencer obstáculos, a capacidade de surpreender e estar sempre alguns passos à frente do momento presente. Quando, como era seu hábito naqueles tempos, me chamava para saber “novidades” sempre me surpreendia a sua capacidade de dar sentido ao que parecia insignificante. Aprendi com Mário Soares que a política é uma arte que requer vocação, sensibilidade e carisma, características que ele aliava a uma cultura humanística ímpar que o fazia sentir-se melhor entre escritores e artistas do que entre engenheiros ou empresários.

A sua curiosidade permanente e o seu interesse pelas pessoas levavam-no a dizer que gostaria de ter sido jornalista e talvez por isso procurava o convívio com eles quer em deslocações no país e no estrangeiro, em actos oficiais ou em encontros informais, onde deliciava todos com as suas fantásticas histórias de vida. O carro oficial durante uma deslocação, a mesa do restaurante, um passeio a pé, eram lugares disponíveis para uma entrevista, uma confidência, uma conversa.

Mário Soares era um “modelo” apetecível para repórteres de imagem, nunca se furtando a solicitações para um bom “boneco”, alguns destes deram a volta ao mundo, fosse na Índia em cima de um elefante, nas Seychelles em cima de uma tartaruga, na praia do Vau cumprimentando uma banhista em topless ou dormitando numa sessão solene. E quando algum de nós o advertia para as críticas dos mais puritanos dizia, desprendido, “deixe lá, isso não tem importância nenhuma”. Nunca aliás deixou de ser ele próprio mesmo quando, no início do primeiro mandato presidencial a sua Casa Militar tentou, por exemplo, que o seu caminhar bamboleante e informal se adequasse à “revista às tropas” numa parada militar.

Mário Soares era além de um político de dimensão superior uma personalidade fascinante, a um tempo afectivo e colérico, capaz de ser muito duro com um seu colaborador para logo a seguir se espantar se este se mostrasse magoado ou ofendido. Não conheci rancores a Mário Soares. Mas se um amigo lhe faltasse com a lealdade que esperava dele, não esquecia facilmente. Estimava os seus colaboradores mantendo com eles uma relação não apenas profissional, interessando-se genuinamente por conhecer os seus familiares. Quase no final do segundo mandato convidou para Nafarros os seus assessores e respectivos cônjuges a quem depois de um simpático almoço guiou numa visita aos jardins criados pelo seu grande amigo, arquitecto Ribeiro Teles, explicando detalhadamente cada árvore e cada planta, espantando os convidados com os seus conhecimentos sobre agricultura e botânica e com o seu amor pela natureza.

Ficam célebres as suas sestas no Palácio ou durante as presidências-abertas em casas particulares de pessoas comuns que conhecendo esse seu hábito ofereciam as suas casas para o Presidente descansar. Apreciador da boa comida, preferia um arroz de tomate com pataniscas a um sofisticado pavão servido num jantar de gala. Apesar dos seus gostos simples era exigente em pequenas coisas, como os ovos estrelados que tinham de ter a gema mole e a clara firme e que não poucas vezes mandou para trás em restaurantes de estrada onde parávamos para uma refeição mais rápida durante uma deslocação no país.

Mário Soares nunca foi moldável a técnicas de comunicação e se aceitava que algum assessor aconselhasse a cor da gravata mais adequada a um cenário para uma entrevista televisiva, era impossível fazer com ele o chamado “media training”. A comunicação era para Mário Soares como o ar que respirava. Era um comunicador nato que fazia vibrar a assistência quando discursava como quando relatava uma das muitas histórias que viveu.

A História não registará muitas das facetas do seu caracter e da sua personalidade. Mas os que com ele conviveram em diferentes fases da sua vida guardarão memórias de um homem a quem ninguém podia ficar indiferente.

(depoimento prestado ao jornal electrónico Acção Socialista Digital)

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Mário Soares, gastámos as palavras….

As palavras não chegam para expressar a imensa tristeza de ver Mário Soares partir, desta vez para não voltar. Porque antes ele partia mas voltava sempe. Vê-lo assim no seu leito de morte, inerte, é para mim qualquer coisa de impensável. Não consigo olhar…. ainda não acredito que ele morreu…

Cito o poeta: “Gastámos as palavras… só não gastámos o silêncio”

Ouço nas rádios e nas televisões histórias contadas por quem com ele conviveu em diversas fases da sua vida. Algumas conheço, outras haveria para contar mas as palavras estão gastas…

Recorro ao álbum das fotografias do meu tempo com Mário Soares. A maioria delas captadas  pelos seus fotógrafos oficiais, Alfredo Cunha e Luís de Vasconcelos, cuja obra fotográfica  diz mais sobre Mário Soares do que todas as palavras que ouvimos e lemos sobre ele.

Partilho aqui algumas das imagens em que a objectiva do Alfredo ou do Luís me apanhou junto de Mário Soares. Eles que me desculpem pela distorção provocada por uma digitalização imperfeita da minha inteira responsabilidade.

1987, Moscovo, Rua Arbat, visita de Estado à URSS

1987, Moscovo, Rua Arbat, visita de Estado à URSS

1989, Palácio do Eliseu, visita de Estado a França

1989, Palácio do Eliseu, visita de Estado a França

1988, Ópera de Stutgard, visita de Estado à RFA

1988, Ópera de Stutgard, visita de Estado à RFA

Nova York, visita às Nações Unidas

Nova York, visita às Nações Unidas

Nova York, Mário Soares com jornalistas Miguel Sousa tavares, Henrique Monteiro e Luís Pinheiro de Almeida

Nova York, com Mário Soares e os jornalistas Miguel Sousa Tavares, Henrique Monteiro e Luís Pinheiro de Almeida

 

1990, Florença, visita de Estado ao Vaticano

1990, Florença, visita de Estado ao Vaticano 

1996, final de mandato. Mário Soares condecora assessores (na foto Estrela Serrano)

1996, final de mandato. Mário Soares condecora assessores (na foto Estrela Serrano)

 

 

 

 

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Até sempre, Mário Soares!

es-com-soares-1Quis o destino que eu não possa acompanhá-lo na sua última viagem, rumo à última morada. Mas foram tantas as viagens e os momentos em que o acompanhei e permanece tão viva  a memória desses 10 anos em que tive o privilégio de usufruir do seu convívio e da sua amizade que eles me bastam para lhe deixar aqui um imenso e saudoso adeus.

Recordo o dia em que me chamou a Belém e me disse o que esperava de mim: que fosse os seus olhos e os seus ouvidos. Sabia que eu vinha da rádio e da televisão e que talvez pudesse acrescentar alguma coisa à sua leitura aprofundada dos jornais. Foi assim que durante esses 10 anos eu lhe fiz diariamente resenhas escritas que lhe entregava ao fim do dia, a princípio interrogando-me sobre se o Presidente as leria. Logo, porém, fiquei a saber que sim, quando por algum motivo a entrega se atrasava e as reclamava…

Descobri no convívio diário a sua fascinante personalidade, a sua incrível  intuição para antecipar acontecimentos, a sua capacidade para perceber os sinais deixados por uma palavra, um olhar ou um gesto, o seu lado humano que o fazia interessar-se pelas pessoas que consigo trabalhavam. Percebi a solidão do Presidente nos momentos de  uma decisão mais difícil, quando depois de ouvir alguns de nós caminhava com o seu passo largo e bamboleante na varanda ou no jardim…

São suas ideias e expressões que formataram e moldam ainda hoje o cargo presidencial, tais como a ideia do Presidente como “Moderador e árbitro”, o exercício da presidência como “Magistratura de influência” e as “Presidências abertas”, marca genial dos seus mandatos na aproximação do Presidente ao povo cuja matriz viria depois a ser seguida pelos seus sucessores.

Nesse tempo não tinhamos ainda a internet nem redes sociais. Nas longas viagens presidenciais era ao fax instalado no meu quarto de hotel (que não  me deixava dormir) que chegavam as páginas  dos jornais enviadas de Lisboa e que o Presidente devia conhecer antes de sair para o programa oficial. E à noite, no final da jornada, havia sempre tempo e vontade para um encontro informal com os jornalistas que o acompanhavam para lhes contar histórias do dia e outras extraordinárias dos seus anos de politico e de homem do mundo que encantavam os presentes, tal a soma de pormenores e o seu estilo inconfundível de narrador.

Tantas memórias nesta hora da sua partida, meu querido Presidente e Amigo. Sei que foi feliz em tudo ou quase tudo o que fez. Escolheu ser o que foi e se muitos o criticaram, muitos mais o amaram. São assim os grandes homens: amam-se ou odeiam-se. Não há meio termo.

Obrigada pelo que me deu em amizade, confiança, saber, oportunidade. Obrigada pelo que deu ao nosso País. Obrigada por ter sido quem foi.

Da minha memória não partiu nem partirá. Até sempre !

 

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O Novo Banco e o estado de desinformação a que chegámos

novo-banco-1O Novo Banco (NB) é agora a novela do dia depois de no ultimo domingo Marques Mendes ter servido de porta-voz do Banco de Portugal (BdP) e anunciado na SIC que o Lone Star era o candidato melhor colocado para comprar o banco. É claro que se percebeu que o anúncio  de Mendes não era mais do que um balão de ensaio que o BdP queria lançar para antecipar reacções.

A coisa deu resultado e o ministro das Finanças percebendo o truque deixou claro que não haverá mais dinheiro dos contribuintes para o NB  e que a nacionalização não será hipótese descartada. Pasme-se: as virgens púdicas da direita calaram-se perante essa hipótese, o que leva a pensar que o  estado do NB é de tal ordem e a fiabilidade dos candidatos a compradores é tão pouca que a direita nem reage perante a ameaça de nacionalização!

Como já se tornou  costume em matéria de bancos e banqueiros, os jornalistas de economia andaram a apanhar bonés e descobriram agora que o Lone Star é um fundo “oportunista”, ou melhor, um “abutre” que não só quer comprar o NB ao preço da chuva como quer que o governo ( leia-se nós, os contribuintes) entrem com uma pipa de massa.

Cabe então perguntar o que é que aconteceu para o NB (o banco “bom” por oposição ao banco “mau” Espírito Santo) agora não valer nada? Os gestores não  eram os melhores? O que andou o BdP a fazer este tempo todo? O vendedor contratado pelo BdP, Sérgio  Monteiro, a coqueluche do governo anterior, não era um especialista em vendas?

Esta novela seria cómica se não fosse trágica. Mostra a incompetência do BdP, dos banqueiros e do vendedor. Mostra também a falta de escrutínio por parte dos jornalistas  e o estado de desinformação a que chegámos apesar de tantos especialistas e comentadores nos encherem os ouvidos com as suas convenientes narrativas sobre a excelência da solução encontrada para o “caso BES”. Ainda vamos ver que o Novo Banco vai custar-nos mais do que teria custado o reagate do BES.

Neste blog o Novo Banco foi tema aqui e aqui.

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