Variações em torno de um título

Governo tenta convencer patrões com benefício fiscal para “neutralizar” agravamento do ISP            (Público)

Centeno: Benefício fiscal vai neutralizar aumento do ISP para as empresas (DN)

No primeiro título, do Público, a expressão – tenta convencer … – não é evidentemente, neutra. Tem implícita a ideia de um esforço (do governo) para remediar algo que está “mal” ou “errado”, dando qualquer coisa em troca (convencer com...) para “convencer” os “patrões” visados pela “maldade”.

No segundo, do DN, a afirmação  – Centeno: Benefício fiscal vai neutralizar….  – embora surja sem aspas, a pontuação sugere que a frase é dita por Centeno. Porém, é preciso ler o texto para confirmar que o ministro usou aqueles precisos termos.

Os títulos são importantes?  São, porque se destinam a chamar a atenção do leitor para um determinado texto, orientando a sua leitura. No primeiro título, há uma sugestão negativa, de oposição entre “governo” e “patrões” – um tenta convencer os outros. No segundo, essa oposição não existe. O “governo” é substituído pelo “benefício fiscal” e os “patrões” são as “empresas”. Trata-se aqui de um título neutral.

Centeno foto

Ambos os títulos se reportam às palavras do ministro. O primeiro, coloca aspas na palavra neutralizar, sublinhando assim a sua importância na frase. Porém, a expressão tenta convencer, dada a sua subjectividade, torna o título menos rigoroso e confere-lhe um sentido negativo. O segundo, não obstante a ausência de aspas é um título factual e neutro.

 

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Será que o nosso sistema mediático é de direita?

passos_costaNão é vulgar um jornalista declarar publicamente a sua orientação ideológica. Muito menos assumir a sua pertença ou apoio a um partido político. Contudo, as pessoas mais expostas aos media, isto é, aqueles que acompanham, com regularidade as notícias, os debates e comentários nas rádios e nas televisões e, mais recentemente, a participação de jornalistas nas redes sociais, percebem as suas orientações político-ideológicas.

Evidentemente que a expectativa dos cidadãos é a de que os jornalistas sejam capazes de separar a sua ideologia e as suas preferências partidárias do seu trabalho profissional, já que o jornalismo é uma actividade que exige rigor, independência, imparcialidade e equidistância face a correntes ideológicas, partidos políticos e outros poderes, nisso se distinguindo de outros campos profissionais.

Ninguém exige a um jornalista que declare qual é a sua ideologia ou o partido com o qual se identifica, mas também ninguém o proíbe de o fazer. É raro um jornalista declarar publicamente a sua ideologia mas ainda há quem o faça. O  director-adjunto do semanário Expresso, J0ão Vieira Pereira, reconhece que os seus textos falam por si:

“No é surpresa para ninguém. Defendo ideias facilmente identificadas com a direita. A verdade é que me considero um democrata-liberal. Contudo, e como nos últimos anos tivemos em Portugal um dos partidos mais liberais de que há memória, houve imensos aspetos que, mesmo sem me mexer, me atiraram mais para o centro. Só que o centro está outra vez a deslocar-se e a empurrar-me de volta para a direita. Até porque é claro para que lado António Costa está agora a pender. (…) (João Vieira Pereira, Expresso, 6-02-2016)

Um dos exemplos mais transparentes é este texto de Pedro Tadeu, ex-director-adjunto do Diário de Notícias:

“(…) Aqui há uns cinco anos informei os leitores desta coluna: sou militante do PCP. Não foi a primeira vez que o fiz. Todas as administrações, chefias e camaradas de redação dos jornais e rádios onde trabalhei, desde 1983, foram informados desse facto (…)”. (Pedro Tadeu, DN, 29-12-2015)

Este sábado, o director do semanário Sol, Luís Osório, afirma (link indisponível) que em Portugal não existe actualmente nenhum jornal com uma política editorial de esquerda, constatando que esse facto torna os jornais todos iguais, o que, em sua opinião, é prejudicial à democracia. É curioso que sendo o Sol um dos mais jornais mais próximos da direita portuguesa, o seu director assinale esse facto sem, pelos vistos, ter poder para equilibrar essa orientação.

As opções políticas e ideológicas dos jornalistas são, teoricamente, matéria da sua esfera pessoal. Porém, elas passam a ser uma questão de interesse público quando essas opções influenciam as suas escolhas profissionais, uma vez que ao seleccionarem e destacarem determinados acontecimentos em detrimento de outros, criam realidades usando critérios a que chamam “critérios jornalísticos”.

Por outro lado, os jornalistas não se limitam a reportar acontecimentos. Cada vez mais, dispõem de espaços em diferentes media, nos quais expõem abertamente os seus pontos de vista sendo estes, naturalmente, influenciados pela sua orientação ideológica. Os próprios meios de comunicação social reconhecem implicitamente que há jornalistas “de esquerda” e jornalistas “de direita” quando, nos painéis de “residentes”, procuram equilibrar os dois lados.

Ora, a orientação política e ideológica de um jornal, independentemente do facto de todos se afirmarem como pluralistas, é também determinada pela orientação dos colaboradores não jornalistas que são escolhidos pelas direcções. Dado o peso da opinião no sistema mediático português e o facto de os jornalistas com responsabilidades na hierarquia dos diversos media circularem de uns para outros, somos levados a concluir que Luís Osório tem razão: em Portugal os meios de comunicação social pouco se distinguem uns dos outros e situam-se maioritariamente à direita.

Será que o nosso sistema mediático é de direita?

(texto publicado originalmente no jornal TORNADO)

 

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….a caravana passa

Costa e Merkel“Não vim incomodar a senhora Merkel com o OE português; já tem de se preocupar com o seu”

(António Costa, Berlim, hoje)

Pode ser que a frase lhe tenha saído mas a avaliar pelo que vamos conhecendo sobre a capacidade de António Costa de desdramatizar situações complicadas, tornando-as simples e naturais, talvez ele tenha mesmo querido dizer o que disse.

Com esta resposta a quem lhe fez uma pergunta sobre o orçamento português, António Costa disse várias coisas:

  • Que o orçamento de Portugal não diz respeito à “sr.ª Merkel” (portanto, ele não foi lá pedir-lhe apoio nem beijar-lhe a mão);
  • Que entre o primeiro-ministro de Portugal e a chanceler da Alemanha não existe hierarquia, sendo ambos chefes dos governos dos seus países (como quem diz “estamos entre iguais);
  • Que a sr.ª Merkel” tem problemas de sobra no seu país e quem tem a casa a arder não vai apagar os fogos alheios (a referência de Costa aoorçamento da sr.ª Merkel”  funcionou naquele contexto como equivalente ao problema dos refugiados e à contestação de que Merkel está a ser alvo no seu país).
  • Isto é, se Portugal tem o problema do orçamento, Merkel tem o problema dos refugiados.

Já se percebeu que Costa não alinha da diplomacia do croquete. A sua diplomacia parece ser mais a da paciência de chinês… ou, mais prosaicamente, “os cães ladram e a caravana passa”.

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É urgente combater a desinformação

JUnker ralha c eurodeputadosEra previsível que a direita parlamentar e outros membros do PSD e do CDS, incluindo  comentadores seus apoiantes e  jornalistas, não elogiassem nem apoiassem o projecto de orçamento do governo do PS. Porém, a radicalização que assumiram e que teve o seu momento mais grotesco na repreensão do presidente da Comissão aos euro-deputados portugueses no Parlamento Europeu, é qualquer coisa de inédito.

Essa radicalização tem as suas raízes no facto de a direita continuar a ter dificuldade em aceitar a legitimidade do governo e ter começado a perceber que António Costa tem sido capaz de cumprir promessas eleitorais e ao mesmo tempo manter o apoio do BE e do PCP. Mas o que mais lhe custa a suportar é o facto de o governo socialista mostrar que, afinal, há alternativa à austeridade cega do governo PSD-CDS.

Deve dizer-se que os jornalistas tiveram um importante papel na radicalização em torno do orçamento. Basta ler as notícias e os artigos de opinião publicados nos dias que se seguiram à entrega em Bruxelas do draft do orçamento, totalmente acríticos relativamente à Comissão e repetidos à exaustão nas televisões, rádios e jornais, para perceber que o ambiente de crispação e radicalização em torno do orçamento foi construído pela Comissão com o apoio dos media portugueses.

Não há memória de um processo de negociação de um draft de orçamento ter sido perturbado e boicotado por tão gigantesca manipulação da informação, onde as fugas orientadas intercalavam com opiniões de porta-vozes e afirmações contraditórias dos próprios comissários.

Começa agora a notar-se um recuo de políticos e de jornalistas, percebendo talvez que foram demasiado longe nos danos causados à imagem do País. Dizem agora que desejam que Bruxelas aprove o orçamento, depois de tudo terem feito para que assim não fosse.

O governo foi capaz de resistir ao combate desigual da direita e dos media portugueses. O primeiro-ministro manteve a serenidade mesmo quando tudo parecia desabar sobre ele. Seguro das suas convicções sobre a justeza do seu orçamento mostrou firmeza perante a Comissão e mesmo cedendo em alguns pontos, já que é essa a essência de uma negociação, foi capaz de defender o essencial das políticas que pretende implementar.

O processo que rodeou a discussão do draft do orçamento deve servir para o governo ter cada vez mais em conta a necessidade de ter uma política de comunicação muito clara e atenta às estratégias manipulatórias de entidades oficiais nacionais e internacionais, prevenindo e evitando os efeitos nocivos dessas estratégias. A desinformação combate-se com mais informação, sobretudo, com transparência e diálogo.

Num país com informação televisiva “ao minuto”, preenchida em grande parte por opiniões, comentários e debates frequentados por participantes mais interessados na manipulação do que no esclarecimento, a vertente comunicacional do governo não pode ser descurada, devendo mesmo ser profissionalizada.

 

 

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As falas da Comissão Europeia são um “case study”

comissao_europeiaAs declarações da Comissão Europeia sobre o projecto de orçamento para 2016 do governo português são um case study sobre o uso da linguagem como acção política. Como referem os linguistas, as crenças mais sólidas são aquelas que não apenas são admitidas sem prova mas que, frequentemente, nem sequer são explicitadas. Os porta-vozes da Comissão não explicitam, não descrevem, não relatam, nem constatam absolutamente nada e, portanto, as suas falas não se submetem ao critério da verificação. Vão deixando “cair” sensações, estados de espírito, esperanças ou desilusões. O que eles têm dito nestes dias não é falso nem é verdadeiro. As suas falas destinam-se a criar percepções e crenças e, nessa medida, são actos puramente políticos.

Vejamos: o Presidente da Comissão Europeia, interpelado por um repórter à saída ou à entrada de um lugar qualquer, disse estar “muito preocupado” com as contas públicas portuguesas”. Com esta declaração falsamente informal, Juncker estava a enviar uma mensagem com destinatários bem precisos, pretendendo que a sua “preocupação” funcione como mais uma forma de pressão sobre o governo português.

Esta declaração do Presidente da Comissão surgiu na sequência de declarações de comissários e de porta-vozes que, em briefings diários com os jornalistas, falaram de “divergências” e “dificuldades”, com palavras escolhidas para acentuarem a crença de que a Comissão não aceitaria o projecto de orçamento, ao mesmo tempo que ia inculcando a ideia de que o governo português se preparava para ceder às suas exigências.

Esta mensagens foram amplificadas pelos media portugueses e pelas agências internacionais e, através deles, a Comissão mostra o seu poder e a sua força a países como Espanha, perante a “ameaça” de esta vir a ter um governo de esquerda. O discurso da Comissão é, pois, um discurso com um enquadramento e um objectivo bem específicos, independentemente das “tecnicalidades” que eventualmente separam os seus técnicos e o ministério das Finanças português.

Acresce que, como os jornalistas bem sabem, não é habitual um porta-voz da Comissão vir dizer num ‘briefing’ com jornalistas, em on, como fez a porta-voz da Comissão para a Economia, Annika Breidthardt, que existem “grandes divergências” entre Portugal e a Comissão. Este tipo de afirmações são geralmente feitas em off e esse é um sinal de que a Comissão não está a fazer jogo sério.

Evidentemente, que a Comissão pretende exibir o seu poder perante um governo que não segue acriticamente a sua cartilha. Mas o braço-de-ferro que tem alimentado com Portugal  é, ao mesmo tempo, um sinal de fraqueza e de insegurança, representando um fechamento a qualquer racionalidade. É também, para além de tudo o mais, um acto de desrespeito por um estado-membro, isto é, um acto anti-democrático.

Os discursos da Comissão são um case study não apenas como actos políticos mas também como actos de desinformação e de manipulação.

(artigo publicado hoje no Acção Socialista Digital)

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O Presidente Marcelo e a imprensa “cor de rosa”

A eleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República levou a imprensa “cor de rosa”, ou seja, as revistas ditas de sociedade, a escreverem sobre a vida amorosa do Presidente eleito,  salientando o facto, por ele assumido durante a campanha eleitoral, de que não haveria “primeira-dama”.

É claro que Marcelo não pode evitar que a sua vida privada seja alvo de curiosidade, tanto mais que tratando-se de uma pessoa com grande exposição mediática e dispondo do que se costuma chamar  “boa imprensa”,  não terá motivos para se proteger dos media. Os artigos publicados sobre a sua vida privada não são originais, certamente por se basearem na sua biografia escrita pelo jornalista Vítor Matos.

As “mulheres”, a “namorada” e a família  são os temas mais focados nas revistas que cobriram a sua eleição. Em alguns casos, pessoas “próximas” acrescentam pormenores da sua relação com Rita Amaral Cabral, que surge com Marcelo em algumas fotografias de arquivo, nas capas e no interior dessas revistas. Marcelo FlashMarcelo SàbadoMarcelo LUX

Durante a campanha eleitoral, Marcelo não alimentou o tema “primeira-dama”, tentando sempre afastá-lo de debates e entrevistas, no que teve o apoio dos outros candidatos que também não apoiavam a ideia de um lugar para o cônjuge.

Trata-se, naturalmente, de um fait-divers, uma vez que o Presidente da República é um órgão uninominal. Além de que o estado civil de um presidente ou uma presidente – seja solteiro, divorciado, viúvo, ou em coabitação com alguém – não é condição para o exercício do cargo. O novo Presidente tem pois o direito de ter uma “namorada” e de a manter longe da residência oficial e das cerimónias  relativas à função ou de fazer-se acompanhar por ela nessas ocasiões.

A curiosidade dos media pela “namorada” do Presidente Marcelo é, pois, mais do domínio da coscuvilhice do que da informação. Contudo, se é certo que os pormenores da sua relação com Rita Amaral Cabral descritos na sua biografia passaram até agora despercebidos das revistas “cor de rosa”, a eleição presidencial veio dar-lhes visibilidade.

O Presidente Marcelo vai ter de gerir esse lado da sua esfera íntima. Conhecendo como conhece o voyeurismo tendencial dos media e a tabloidização da política, saberá como evitar justificações susceptíveis de comentários como este.

 

 

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Haja respeito pelas crianças!

vip-2016-01-31-9537f3nova-gente-2016-01-29-9bdb2aNão se vislumbram boas razões que justifiquem a publicação, agravada pelo destaque que lhe foi dado por duas revistas de “sociedade”, de um depoimento de uma criança de 12 anos, prestado no Tribunal de Família, no âmbito da disputa do poder paternal, ao qual, segundo o relato de uma dessas revistas, estiveram presentes para além da juíza, uma “perita do Instituto de Medicina Legal  e um representante do Ministério Público”.

O depoimento da criança é publicado nas duas revistas em discurso directo, o que significa que a fonte que o forneceu ou assistiu à audição da criança e tomou notas que depois lhes forneceu ou o depoimento foi gravado pelo tribunal e posteriormente cedido às revistas ou a terceiros que o fizerem chegar a estas.

A audição de uma criança com idade superior a 12 anos nos assuntos que lhe dizem respeito está consignada internacionalmente na  Convenção sobre os Direitos da Criança.  No caso em concreto, a criança é filha de duas figuras públicas – a apresentadora de televisão, Bárbara Guimarães, e o professor e ex-político, Manuel Maria Carrilho –  cuja separação deu origem a cenas rocambolescas e acusações reciprocas de violência física, amplamente divulgadas e comentadas em meios de comunicação social tablóides.

Porém, independentemente do interesse pessoal e da eventual colaboração dos progenitores na mediatização do drama que os envolve e sobretudo aos seus filhos menores, e ainda que a lei permita a divulgação de depoimentos das crianças envolvidas, um mínimo de respeito pela privacidade da criança autora do depoimento, deveria levar os media a uma auto-contenção, sobretudo quando a publicação do conteúdo do depoimento não possui qualquer interesse público, alimentando apenas o voyeurismo e o sensacionalismo.

Chamar à primeira página declarações de uma criança sobre a sua mãe, prestadas em sede de Tribunal e apenas perante autoridades por ele autorizadas, é um acto chocante e indigno de alguém que ostente uma carteira profissional de jornalista. Qualquer que seja o sentido e a gravidade dessas declarações, a sua publicação  constitui uma dupla agressão: à mãe que é nelas visada e à própria criança que as prestou em ambiente “protegido”, certamente desconhecendo que elas iriam ser capa de revistas.

O menino de 12 anos que no uso de um direito que a lei lhe faculta se pronunciou sobre o seu destino, dificilmente se libertará do efeito que a publicitação do seu depoimento certamente produzirá no seu ambiente familiar e no meio social em que se move.

 

 

 

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