O regresso dos “casos” e “casinhos”

O povo político-mediático voltou à animação habitual. Primeiro foi o SMS de António Costa para o jornalista e director-adjunto do Expresso que  o euro-deputado Paulo Rangel cavalgou com estrondo na Antena 1 e no Público e a que Ferreira Fernandes, no DN, dá “resposta” adequada.  SMS

Mal sabia Rangel que pouco depois, o SMS voltava a ser protagonista, desta vez atingindo o seu “lado” político. Uma “biografia autorizada” de Passos Coelho, da autoria de uma assessora do seu grupo parlamentar, contava a história de outro SMS enviado por Paulo Portas, tendo-o a ele, Passos Coelho, como destinatário. Nesse SMS, diz Passos, Portas anunciou-lhe a sua demissão, em protesto contra a escolha de Maria Luís Albuquerque para ministra das Finanças. biografia de Passos

A coisa não ficou por aqui e, vai daí, Portas, ofendido, nega a versão de Passos de que se demitiu por SMS (sem negar que o enviou) e esclarece que “formalizou” a demissão por carta (como se percebe, uma coisa não contradiz a outra).

Cavaco Silva visita a Noruega

O Presidente Cavaco, ausente em terras do bacalhau, reagiu também dizendo que fica para as suas memórias a resposta ao remoque que Passos lhe dirige na biografia quando diz  que Cavaco o deixou  pendurado à espera do acordo com o PS.

Antes dos SMS houve o caso do elogio  de Passos Coelho a Dias Loureiro, apontando-o como exemplo de empresário, que escandalizou meio país. As notícias salientavam que o elogio foi feito numa “queijaria”, em Aguiar da Beira (não sei se a insistência no pormenor da “queijaria” era para rebaixar o queijo ou o Dias Loureiro ou o Passos por ter discursado na “queijaria”).

Esta tarde, no Parlamento, os líderes parlamentares não prescindiram destes “casos” e “casinhos” e o  primeiro-ministro, que parece gostar de uma boa provocaçãozinha, ainda se referiu a Portas como “o líder da oposição”. É evidente que se tratou de um lapso, mas o que interessa isso? A verdade é que foi notícia em todas as televisões e até pedidos para que Passos esclarecesse.

Como escreveu e cantou José Afonso “o que faz falta é animar a malta”.

 

 

 

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Exercício teórico em torno de uma capa

jornal i professor racistaUm bom exercício para uma aula  de jornalismo seria perguntar qual é o valor notícia desta manchete.

Alguns responderão que é o facto de o protagonista ser  professor de uma universidade pública e  assumir-se publicamente como racista.

Outros, comentarão que essa situação não tem valor notícia dado o professor ser um desconhecido sem poderes decisórios e, nessa medida, as suas ideias não terem interesse público (racistas há muitos, dirão).

Outros, depois de lerem a peça que sustenta o título ,responderão que o valor-notícia resulta de o professor racista ter sido “descoberto” e citado nos media por duas figuras mediáticas: o deputado do PSD Duarte Marques e  Francisco Louçã. Nessa medida, as  ideias racistas do professor tornaram-se mediáticas porque foram citados por duas figuras políticas

Outros, dirão que o valor notícia reside no caracter sensacionalista das citações assinaladas a amarelo, por provocarem no leitor uma reacção de choque, repulsa e curiosidade, o que  levará a comprar o jornal.

Outros, mais “legalistas” e “éticos”, criticarão a opção do jornal, de dar destaque de capa a afirmações  racistas e xenófobas tratando o caso nas páginas interiores como se se tratasse de um simples “fait-divers”, sem questionar o que verdadeiramente mereceria ser aprofundado, isto é, o facto de um professor se permitir, ainda que num blog pessoal, fazer a apologia de ideias que afrontam os valores de uma sociedade plural e anti-racista.

Outros, ainda, teriam escolhido para capa do jornal, em vez das afirmações racistas do professor, um comentário de colegas ou responsáveis da universidade onde tão sinistra criatura tem lugar como professor.

Como se vê, muitos factores podem entrar na escolha de uma capa…

 

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As confidências do Presidente

Cavaco no avião Noruega Maio 2015O  Presidente Cavaco estava conversador no avião que o transportou e à sua comitiva  numa visita de Estado à Noruega. O avião foi fretado,  de modo que os jornalistas tiveram boleia. Nas imagens televisivas captadas no interior do avião o Presidente parecia satisfeito na cavaqueira com os jornalistas, sorridente, de pé, sem casaco e, a crer nas reportagens a puxar conversa. Nem parecia o Cavaco crispado e rígido que costumamos ver quando, à entrada ou à saída de um evento qualquer, os jornalistas lhe fazem peruntas.

Foi neste ambiente de quase “intimidade” que o Presidente resolveu (de motu próprio, sem ninguém lhe perguntar, diz a TSF) fazer spin sobre a data das eleições legislativas, antecipando-se e preparando os partidos antes de os ouvir para que saibam  que o Presidente quer eleições em Outubro. Mas, a avaliar pelas reacções, os partidos não acharam muita graça às confidências do Presidente.

A verdade é que o Presidente estava mesmo animado e, vai daí, resolveu dar uma de simpatia para com os jornalistas que o acompanhavam e disse-lhes que a lei eleitoral é “anacrónica” e que se ele pudesse a mudava como fez quando era primeiro-ministro com a lei da reforma agrária. Disse também que a culpa é da CNE porque mudou a interpretação dessa lei quanto à cobertura jornalística das campanhas e não o avisou de que a lei é anacrónica.

Azar dos Távoras! o Presidente  não se saíu bem. É que  porta-voz da CNE veio logo rejeitar a classificação de “anacrónica”e negar que a CNE tenha mudado a interpretação dessa lei, explicando ao  Presidente, com ar de quem desculpa um ignorante, que há “muita confusão” e “tensão” e que depois dessa  lei foi aprovada a lei eleitoral da ALAçores que manteve os mesmos princípios  sobre a cobertura jornalística.

Esperemos agora que no voo de regresso  o Presidente diga mais coisas sobre os mesmos ou outros assuntos. Um Presidente que fala, mesmo que diga asneiras, é preferível a um Presidente que se cala.

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No dia da Mãe

lagrima

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
— mistério profundo —
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘Lição de Coisas’


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António Costa e as virgens ofendidas

O director-adjunto do Expresso, João Vieira Pereira escreveu na sua coluna de opinião, da edição de 25 de Abril, um texto sobre o estudo dos economistas-PS , no qual se pode ler o seguinte:Expresso joão vieira pereita 25042015Na edição deste sábado, o mesmo jornalista publica na sua coluna um SMS que recebeu de António Costa, em resposta a esse texto. O jornalista mostra-se muito ofendido considerando que foi atacado e se sentiu condicionado na sua liberdade de pensar e por isso decidiu partilhar o SMS de Costa. Os comentários do jornalista a este email só estão disponíveis na edição impressa do suplemento Economia..

Expresso SMS de Costa a João vieira pereira“Moral” desta história: o jornalista acha que dizer que um partido (leia-se o seu líder) tem falta de coragem, “ausência de pensamento político”, faz “política de tubo de ensaio”, “encomenda umas contas que não comprometem niguém” e outros mimos, não é um “julgamento de caracter”, antes pelo contrário é um exercício de “liberdade de pensar” mas se  o alvo dessas apreciações reage, ai Jesus, que “estou a sentir-me condicionado e atacado na minha liberdade”.

É bom lembrar que a liberdade de imprensa existe para garantir a liberdade de expressão não apenas dos jornalistas mas também dos cidadãos, sejam políticos ou simples cidadãos. Fazer de virgem ofendida quando se dispõe de toda a liberdade para escrever e dizer o que se quer não se coaduna com vir  depois  protestar se alguém responde na mesma moeda. Lá diz o ditado “Quem vai à guerra dá e leva”.

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Um momento de viragem na política

O estudo encomendado por António Costa a 12 economistas para servir de base a um programa de governo socialista representa uma viragem na política portuguesa. Não porque seja algo de extraordinário ou impensável, pelo contrário, devia ser uma coisa natural e até obrigatória. Mas não. Em Portugal, não é hábito o debate político basear-se em estudos e documentos de especialistas, valendo antes a improvisação e as promessas sem substância.

Desde logo, o estudo provocou uma quase-revolução na cobertura jornalística da proto-campanha eleitoral, que é a fase que estamos a viver.  Há um “antes” e um “pós”  estudo dos economistas, visível na maneira como os media se referem às propostas eleitorais do governo e do PS, agora com um nível de exigência que antes não se vislumbrava. O debate público tornou-se substantivo e não será mais  possível fazer uma campanha de soundbites como era até aqui.

Depois, o estudo provocou um sobressalto nos partidos da maioria governamental. A reacção inicial do PSD, com Matos Correia a comentar o documento antes de terminada a sua apresentação e assumindo que não o tinha lido, foi um momento patético. Mas o que se passou a seguir atingiu o burlesco: a precipitação do anúncio da  coligação antes de esta ser aprovada pelos directórios do PSD e do CDS e, mais evidente, as 29 perguntas dirigidas pelo PSD ao PS, sobre dados do estudo. coligação PSD CDS

Como se não bastasse, a ideia de submeter o estudo dos economistas-PS à arbitragem de um órgão parlamentar, excede tudo o que se poderia imaginar. O governo entrou em pânico, talvez porque percebeu que o estudo  era demasiado sério para ter como resposta os argumentos do costume.

Dá-se então a situação extraordinária de ser agora o governo que anda à procura de uma alternativa às propostas contidas no estudo, e de ser  o governo, como se fosse oposição, a fazer perguntas ao PS, como se este fosse governo.

Decididamente, António Costa e o PS estão a conseguir marcar a agenda política e a agenda mediática. Deixou de haver uma única via para a saída da crise e os jornalistas passaram a dispôr de matéria substantiva para elaborarem as suas análises.  Não é já o governo que comanda a agenda política, antes vai atrás da agenda do PS.

Há outros sinais de viragens, não apenas na politica… Ficam para outro texto.

 

 

 

 

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É muita asneira junta

Continuo sem perceber o que foi fazer a Belém a Plataforma De Meios Privados. É que a cobertura jornalística da campanha eleitoral para as legislativas não é matéria da competência dos patrões dos media  mas sim dos  directores que são os responsáveis pelos conteúdos jornalísticos.

O facto de serem as empresas a pagarem as coimas resultantes da eventual violação de leis que enquadram a actividade jornalística, e não os directores ou jornalistas que praticarem essas violações, não lhes dá o direito de infringirem  a lei de imprensa e o estatuto dos jornalistas, ultrapassando a competência dos directores no que respeita à cobertura de campanhas eleitorais ou de quaisquer outros assuntos.

Cabe ao proprietário de um meio de comunicação social a escolha do director e a definição do perfil do media, com base no qual é elaborado o estatuto editorial. Porém, uma vez aprovado o estatuto editorial e definidos os meios humanos, técnicos e financeiros para a sua concretização, o director é o único responsável pelos conteúdos jornalísticos publicados.

Estranha-se, por isso, que os proprietários dos meios de comunicação representados na Plataforma de Meios Privados,  tenham assumido em nome dos jornalistas e perante a complacência destes,  a apresentação ao Presidente da República de  matérias  que cabe aos jornalistas  apresentar e defender.

Acresce que o porta-voz da Plataforma cometeu o lapso de divulgar aos jornalistas, à saída da audiência com o Presidente,  o “apoio” que este lhe terá concedido, esquecendo-se ou ignorando que é de regra os visitantes não divulgarem o que lhes é dito pelo Presidente mas apenas o que eles dizem ao Presidente, cabendo ao Presidente, se o entender, dar a conhecer as suas próprias posições.

É muita asneira junta em torno de uma matéria sobre a qual parece que ninguém sabe o que fazer e dizer.

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