Marcelo e Costa: “subtil” aproximação

Cá está um  dos “sinais de distanciamento” do Presidente em relação ao Governo que confirma a previsão de Marques Mendes na SIC :

Público, 03/08/2017

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O “subtil distanciamento” do Presidente ou o spin doctoring a sobrepôr-se ao jornalismo

A maneira como os jornalistas valorizam a opinião de comentadores oriundos da esfera partidária, como é o caso actualmente de Marques Mendes, contribui para o enfraquecimento e empobrecimento do jornalismo. De facto, Mendes consegue a proeza de ser citado em todos os jornais e televisões como alguém que (qual pitonisa) prevê e anuncia  o que nós, os ignorantes, não vemos, não sabemos nem somos capazes de prever.

Actuando num palco privilegiado e sem qualquer espécie de contraditório – na  SIC e na SIC Notícias – e sem se enquadrar em qualquer estatuto que lhe defina regras, limites e obrigações, isto é, deveres e direitos, Marques Mendes pode dizer o que quiser sem indicar fontes, pode ser desmentido (como aconteceu recentemente com o INE) sem ter de pedir desculpa, pode enfim servir de porta-voz de interesses ou de pessoas sem que ninguém lhe peça contas nem lhe ameace o “emprego”.

A entrevista do Presidente Marcelo ao DN é bem o exemplo da capacidade de Marques Mendes para marcar a agenda jornalística. O comentador anunciou na SIC que “Marcelo mostrou em relação ao governo “subtil distanciamento”e a  afirmação foi tão peremptória e solene que parecia um facto e não uma interpretação das palavras do Presidente. De tal modo que os jornalistas correram a reler e analisar as entrelinhas da entrevista procurando os “sinais” que Marques Mendes anunciou. E então surgiram páginas de reanálise de uma entrevista onde afinal o Presidente teria deixado sinais importantes e decisivos de distanciamento face ao governo.

O próprio autor da entrevista, Paulo Baldaia, jornalista experiente, sentiu a necessidade de proceder a uma releitura do que tinha ouvido ao Presidente, tendo concluído que aquele ” foi de facto o momento de Marcelo (…) para enviar os sinais que Marques Mendes sabe serem entendidos por quem tem de os entender. Ora lendo a entrevista, Incluindo nas entrelinhas, não se encontra qualquer sinal “subtil”, ou não, de “distanciamento em relação ao governo”, ao contrário do que anunciou Marques Mendes.

Nos bastidores da política e do jornalismo diz-se que Marques Mendes é uma espécie de “alter-ego” de Marcelo e que Mendes antes da sua prestação dominical na SIC conversa com o Presidente que lhe dá ideias e conselhos sobre a actualidade política que depois o comentador apresenta como suas. Sendo ou não assim, o facto é que, neste caso, é legítima a conclusão  de que o Presidente não mostrou distanciamento face ao governo mas quis que se dissesse que  está mais distante do governo. Marques Mendes procedeu pois como o spin doctor do Presidente.

O problema não é tanto o Presidente ter um spin doctor mas sim que jornalistas, com raras excepções, alimentem o spin doctoring.

(Sobre sppinning ver aqui, pág. 97)

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Os “talibans”, “fanáticos”, “tifosi do governo” e outras coisas mais, que se atreveram a criticar o Expresso

Num  artigo publicado no Expresso diário e no Facebook um jornalista desse semanário chama “talibans”, fanáticos”,”tifosi do governo”, portadores de delírios que precisam de “intervenção urgente das competentes entidades de saúde” àqueles que, tal como eu fiz neste post  se atreveram a criticar a manchete do Expresso do sábado, 22  de Julho, que anunciava “Lista dos 64 mortos exclui vítimas de Pedrógão“,

Nesse post considerei a manchete “simplista,  enganadora e sensacionalista”. Ora, o jornalista que insulta os críticos confessa que afinal ele próprio criticou essa manchete “dentro do jornal” onde terá afirmado que “aquela manchete não se percebe” e por isso “não pode ser boa” . Leia-se o que esse jornalista escreveu:

“(…)” Por uma questão de lealdade, fiz as minhas apreciações a quem de direito dento do jornal. Serei por isso parcimonioso na crítica pública. Digo apenas que achei a formulação infeliz, pela simples razão que aquela manchete não se percebe. Eu, pelo menos, não a percebi porque não se consegue tirar dali um sentido. E isto significa que não leio ali uma manchete contra o Governo, contra a oposição ou a favor do que quer que seja. Não percebo, ponto final. E uma manchete que não se percebe não pode ser boa.” (Filipe Santos Costa, Expresso)

O artigo é elucidativo sobre um pensamento infelizmente muito frequente na prática jornalística que consiste no facto de muitos jornalistas considerarem que não devem explicações aos seus leitores adoptando, pelo contrário, uma atitude arrogante, por vezes insultuosa e ameaçadora, pensando no poder de usarem o jornal onde escrevem para inibirem os críticos.

O Expresso não deu publicamente  qualquer explicação acerca do sentido da sua manchete, tendo pelo contrário no editorial da edição deste deste sábado considerado que tudo o que escreveu estava certo, ignorando ou iludindo a questão  que motivou as críticas, isto é, a citada manchete.

Temos, pois, que os escrutinadores não aceitam ser escrutinados. Falta-lhes humildade e transparência. Mas como as  generalizações são sempre injustas Daniel Oliveira na mesma edição do  Expresso e São José Almeida, no Público deste sábado (textos disponíveis para assinantes) escrevem no mesmo sentido do meu post que mereceu os insultos do artigo jornalista do Expresso:

“(…) o Expresso desenvolveu uma investigação própria e foi rigoroso nos números e nas identidades que divulgou. Mas fez, há uma semana, uma manchete de sentido dúbio que ajudou à confusão num assunto que tem de ser tratado com pinças”. (Daniel Oliveira, Expresso)

[A manchete do Expresso]  não correspondia à notícia no interior (…)” (São José Almeida, Público)

Serão eles também “talibans”, “fanáticos”, tifosis do governo” e doentes”?

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A tragédia de Pedrógão e a tabloidização da política e do jornalismo

A manchete do Expresso deste sábado e as reacções que provocou no campo jornalístico e no campo político são bem um exemplo do estado em que se encontram estes dois importantes pilares de um Estado democrático e pluralista. Comecemos pela manchete do Expresso: A manchete é simplista,  enganadora e sensacionalista e não encontra sustento no texto a que respeita, publicado no interior do jornal. Desde logo, porque a frase “exclui vitimas de Pedrógão” pressupõe uma acusação aos responsáveis pela elaboração da “lista dos 64 mortos”, leia-se o governo. A palavra “vítimas” no plural insinua que serão várias e não apenas uma pessoa que foi atropelada, incluída pelo Expresso nas “vítimas de Pedrógão”. O Expresso claramente jogou com a ambiguidade da frase “vítimas de Pedrógão” talvez para poder dizer que não escreveu “vítimas dos incêndios”.

O  caracter sensacionalista do título torna-se ainda mais evidente quando o próprio jornal no texto das páginas interiores conclui que a sua lista de vítimas corresponde à lista oficial. Leia-se aqui.

A manchete teve enorme impacto nas redes sociais, com jornalistas e responsáveis políticos do PSD e do CDS a cavalgarem a acusação, possivelmente sem leram o seu desenvolvimento. A Protecção Civil veio esclarecer que o número de vítimas se mantém em 64 mortos e que os critérios de elaboração da lista  – “mortes por inalação e queimaduras” – foram definidos pelo Instituto de Medicina Legal. Os jornalistas não se deram por convencidos e  o primeiro-ministro veio a público considerar que o caso “está esclarecido” remetendo para os dados da Protecção Civil e dos ministérios da Saúde e da Justiça.

É chocante verificar como a tragédia de Pedrógão está a ser instrumentalizada política e mediaticamente. O PSD e o CDS nem tentaram informar-se sobre os critérios de elaboração da lista (Assunção Cristas chegou a dizer que não sabe quais são os critérios depois dos mesmos terem sido revelados pelo próprio Expresso). Se o tivessem feito teriam percebido porque é que o atropelamento de uma pessoa em fuga não entrou no número de vítimas dos incêndios.

E assim temos que a tragédia de Pedrógão para além das vítimas que causou está a provocar a tabloidização da política e do jornalismo.

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Será que de futuro os partidos vão pensar duas vezes antes de fazerem eleições internas em hotéis?

O jornal electrónico Observador publicou uma reportagem a que deu o título Carrinhas, listas e cacicagem. Todos os detalhes da guerra pelo poder no PSD/Lisboa. Como o nome indica e a imagem acima mostra, o jornal usou câmaras ocultas para filmar as eleições para a distrital de Lisboa do PSD com o objectivo de denunciar “Militantes que nunca pagaram quotas e votaram sem saber em quem. Carrinhas a descarregar eleitores à porta do hotel. As tácticas dos caciques. E as manobras das fações rivais na guerra pelo PSD/Lisboa”.

O trabalho organiza-se em vários capítulos e inclui um vídeo intitulado “Como os caciques do PSD/Lisboa angariam votos” onde o director do jornal e a equipa de reportagem explicam os procedimentos adoptados, os quais incluíram instalação de câmaras no interior do hotel onde decorreu a votação –  Hotel Sana Lisboa – e no exterior, de modo a captarem as entradas e saídas de militantes através da entrada principal do hotel  e da entrada das traseiras.

Os jornalistas explicam que para acompanharem a eleição e seguirem todos os procedimentos alugaram um quarto no Sana Lisboa e noutro hotel em frente a este – Hotel Eduardo VII, acrescentando que ambos os hotéis pertencem ao  grupo Sana. Explicam também que a reportagem só agora é publicada porque foi necessário obter o contraditório e proceder à identificação de algumas pessoas  e das carrinhas que transportaram os militantes ao hotel para votarem.

Visando um objectivo de interesse público, visto tratar-se de um acto eleitoral interno num importante partido político, coloca-se a questão de saber se todos os procedimentos jornalísticos usados na reportagem são ética e deontologicamente  admissíveis.

Importa em primeiro lugar referir que sem a colaboração dos dois hotéis seria difícil, senão impossível, instalar câmaras escondidas no interior e nas janelas dos quartos. Também parece verosímil que o jornal teve colaboração de elementos da organização da eleição para instalação das câmaras e captação de imagens de dirigentes a votarem, como Passos Coelho, Morais Sarmento e Manuela Ferreira Leite. É certo que o jornal afirma que protegeu as imagens dos militantes que não são figuras públicas mas é evidente que as pessoas captadas pelas câmaras são identifcáveis por quem as conhecer.

As imagens exibidas não mostram actos aparentemente  suspeitos de irregularidades graves, nem o texto o faz.  Fala-se em “caciquismo” e em “caciques”, mostram-se os rostos e apontam-se os nomes dos supostos caciques. São identificadas as carrinhas” que transportam miltantes para votarem e identificado o proprietário.

Do ponto de vista jornalístico, a questão que esta reportagem coloca é a de saber se um procedimento tão excepcional como o uso de câmaras ocultas se justificava neste caso, isto é, se não teria sido possível “contar a história” que a reportagem conta sem o uso de câmaras ocultas. De facto, o “caciquismo” não é  algo objectivo que se possa filmar, a não ser que tivessem sido captadas conversas ou atitudes comprometedoras entre os alegados caciques, que não existem na reportagem.

Como referi aqui, o uso de câmara oculta é sempre excepcional dado que conflitua com direitos individuais – direito à privacidade, à intimidade e ao bom nome. A decisão de recurso à câmara oculta deve resultar da ponderação entre os valores em causa e os benefícios que resultarão para a sociedade e para a cidadania da divulgação da informação obtida por esse método excepcional.

A meu ver, o Observador poderia ter tratado o assunto e chegar às conclusões a que chegou sem o recurso a câmaras escondidas. De qualquer modo, é positivo que o director e a equipa tenham tido o cuidado de informar os leitores sobre os procedimentos que adoptaram na realização da reportagem.

Imagino que de futuro os partidos dificilmente escolherão os hotéis envolvidos nesta reportagem para palco de eleições internas. Mas, quem sabe, talvez o preço cobrado aos jornalistas pela cedência das instalações e das câmaras escondidas compense a perda de reputação.

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Passos Coelho, os jornalistas e a “lei da “rolha”, ou os “suicídios” que não existiram e o helicóptero que afinal não caíu.

Se bem me lembro, o governo e em particular a ministra da Administração Interna (MAI) foram violentamente criticados pelo PSD, CDS e por jornalistas e comentadores por não terem estratégia de comunicação nem coordenarem a informação sobre a tragédia de Pedrógão, deixando que a confusão se instalasse com as intervenções descoordenadas da Protecção Civil, dos Bombeiros, do SIRESP e da GNR. Assunção Cristas mandou até a ministra Constança Urbano de Sousa calar os serviços e “pôr ordem na casa”.

Agora que a Protecção Civil (ANPC) fez relativamente aos incêndios o que devia ter feito logo de início, isto é, coordenar a informação e falar a uma só voz, eis que Passos Coelho e alguns jornalistas vêm protestar  e clamar  pela desordem anterior em que bombeiros, protecção civil, SIRESP e GNR  falavam cada um para seu lado, numa espécie de “tudo ao molho e fé em Deus!”. Passos e os jornalistas chamam à gestão da informação “lei da rolha”, mostrando com isso que não aprenderam nada com a falsa informação sobre os “suicídios”  e com o helicóptero que primeiro caíu e depois não caíu.

Mas que a direita critique não é surpresa. Agora que  jornalistas o façam não deixa de ser curioso, dado terem  obrigação de saber que a comunicação é hoje uma componente essencial das organizações, sejam públicas ou privadas. Percebe-se que prefiram os off-the-record (que lhe dão as “cachas” com que abrem telejornais e fazem manchetes) em vez de informação oficial, confirmada e fidedigna. Claro que terão sempre fontes “informais” no terreno e é natural que assim seja, mas falar em “lei da rolha” revela ignorância ou má fé.

Como se sabe  quem está no terreno não tem geralmente uma visão completa dos acontecimentos. Isto passa-se com repórteres e com operacionais das forças de combate aos incêndios e noutras situações de emergência, como conflitos armados. Daí que faça sentido que a Protecção Civil  tenha justificado  a centralização da informação (dois briefings diários) com a necessidade de divulgação de informação completa e actualizada e também para libertar “os comandantes das operações de socorro para se concentrarem no essencial que é a conduta das operações de protecção civil nos vários teatros de operações”.

É natural que muitos operacionais protestem em off perante os jornalistas, já que aparecer na televisão e nas fotografias não é coisa que se despreze…

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e a jornalista pergunta ao ministro: “O que sente quando olha para o Presidente….”

A jornalista pergunta ao ministro se “o governo não se sente humilhado quando olha para o Presidente que respondeu à senhora que escreveu uma carta às entidades oficiais a pedir ajuda para a sobrinha que perdeu a mãe no incêndio de Pedrógão”.  O ministro responde que não, o governo não se sente  humilhados, “estamos a trabalhar no terreno desde o primeiro dia” e desfiou o rol de trabalhos e medidas que estão a ser efectuadas. …. Mas a jornalista tinha pressa e queria que o ministro lhe desse datas para as casas estarem recuperadas e o dinheiro distribuído e tudo o resto resolvido. Só faltou exigir que o ministro se comprometesse com S. Pedro ou com quem lá no Alto garantisse que não haverá mais fogos…

O ministro não quis dizer à jornalista, certamente para não quebrar o embevecimento que o Presidente provoca nos jornalistas, que o governo não compete com o Presidente, que é aliás, inultrapassável em matéria de distribuição de afectos e de selfies. Estabelecer, como se faz aqui,  uma comparação entre a acção do Presidente e a do governo e extrair dessa comparação ilacções negativas para o governo é não perceber os diferentes papéis que  no ordenamento constitucional português cabem a cada um da um destes órgãos de soberania.

Na situação de emergência em que o País se encontra não se espera que o governo tenha como prioridade responder directamente a cartas de pessoas afectadas, por muito justas que sejam as reivindicações. Espera-se sim  que resolva os problemas das populações afectadas como está a fazer em tempo útil que não é certamente aquele que lhe exigem o PSD e o CDS e os  jornalistas.

O que se passou hoje em Alijó com o SIRESP é bem o exemplo da paranóia que se apoderou da direita e dos media. O presidente da câmara, por sinal membro do PSD, acusou o SIRESP de falhas no incêndio que atacou a região. Ora, por mais que os bombeiros no local e as autoridades da Protecção Civil dissessem que as quebras de comunicação foram irrelevantes e sem quaisquer consequências, o PSD deu conferência de imprensa com o deputado de serviço aos incêndios, Abreu Amorim, a chamar a ministra ao Parlamento “com a máxima urgência” e Cristas  veio dizer que são todos “incompetentes”.

Claro que Cristas e o PSD não se lembraram ainda de que há relatórios do tempo em que PSD e CDS eram governo e Cristas era ministra, em que são relatadas falhas do SIRESP  que eles nunca resolveram mas lhes servem agora de arma de arremesso.

Bem pode o Presidente pedir que não se usem os incêndios como arma eleitoral mas é sermão aos peixinhos…

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