O discurso anti-redes sociais

Anda por aí um discurso anti-redes sociais que tem como autores nada mais nada menos do que comentadores e jornalistas, isto é, os “donos” do espaço público tradicional. Muitos desses críticos  linkam precisamente nas redes sociais  os artigos que escrevem na imprensa, isto é,  para eles o que os outros escrevem nas redes é “lixo” mas o que eles linkam é bom.

Na crítica que fazem às redes sociais arrastam os políticos por eles também as frequentarem à procura de “likes”, como se as redes sociais estivessem reservadas apenas aos mesmos que escrevem nos jornais e falam nas rádios e nas televisões.  Aliás, os políticos não fazem mais do que os próprios jornalistas que usam as redes sociais para ganharem audiência para os seus artigos e opiniões.

Cada vez mais as redes sociais são extensões e ferramentas do jornalismo, como é o caso dos programas de televisão e dos comentários dos jornais onde é solicitada a opinião dos cidadãos.

Uma das críticas feitas às redes sociais é a de que “destilam ódio”, “nada é verificado”. Tudo é partilhado sem critério. Comenta-se tudo. Tem-se opinião sobre tudo. Só não se tem o cuidado de saber do que se está a falar.”

Ora, sendo certo que existe “lixo” nas redes sociais, não é menos certo que existe também e com maior grau de gravidade nos media tradicionais em certas colunas de opinião especializadas em achincalhar pessoas  e em espaços televisivos ditos “desportivos” onde” vale tudo menos tirar olhos,  apesar de nesses meios os jornalistas e os colaboradores estarem sujeitos quer a regras éticas e deontológicas  quer à supervisão de um director.

O criticismo das redes sociais vindo de jornalistas e de comentadores parece esconder o receio de perderem o privilégio e o poder de decidirem quem tem voz no espaço público e quem não a tem. É que nas redes sociais escreve e fala quem quer e não quem eles querem que fale e escreva.

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Por falar em “palhaços” e “palhaçadas”

Mourinho Félix EurogrupoUm assessor do PSD chama “palhaço e medroso” a um membro do governo, o secretário de Estado das Finanças, Mourinho Félix.  O jornal  electrónico Observador cita esse assessor, certamente por considerar que a sua opinião vincula o partido que ele assessora. O mesmo jornal  diz também que o vice-presidente da bancada do PSD, Abreu Amorim, segue  a ” mesma linha” do assessor e fala em “palhaçada”, referindo-se, tal como o assessor, à interpelação directa que o secretário de Estado fez ao presidente do Eurogrupo a propósito da  declaração deste de que os povos do Sul da Europa gastam o dinheiro em “copos e gajas”.

É digno de nota verificar que no PSD as coisas funcionam ao contrário: em vez de serem os assessores a citar os dirigentes, são os dirigentes a citarem os assessores. Igualmente se estranha que um partido como o PSD que governou o País durante 4 anos sem nunca levantar cabelo perante o Eurogrupo aceitando todas as imposições e humilhações impostas ao País em nome de um pretenso “ajustamento”, venha agora chamar “palhaço” a Mourinho Félix e  “palhaçada” à firmeza com que ele  criticou as palavras de Dijsselbloem.

Pelos vistos, o PSD e alguma imprensa queriam que o secretário de Estado fizesse uma chicana no Eurogrupo como se as palavras do primeiro-ministro repetidas em fóruns internacionais e as posições unânimes dos órgãos de soberania portugueses não fossem suficientes e claríssimas de condenação absoluta do presidente do Eurogrupo e da necessidade da sua demissão do cargo que ocupa.

Causa também perplexidade ouvir o jornalista  Bernardo Ferrão dizer na SIC Notícias que a notícia do Expresso, de que a sondagem a Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo, “é uma história mal contada”. Será  que Bernardo Ferrão está a dizer que o Expresso mentiu ou foi enganado? E não há um esclarecimento do grupo Impresa a que  a SIC e o Expresso pertencem?

Sobre “palhaços” e “palhaçadas” estamos conversados…

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Dias Loureiro, Armando Vara e as teias da Lei

Provocou grande indignação na opinião publicada e nas redes sociais, o teor do despacho do Ministério Público de arquivamento do processo contra Dias Loureiro por burla qualificada, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, não pelo arquivamento em si mas pelo facto de a procuradora que assina o despacho, Cláudia Oliveira Porto, manter as suspeitas que não conseguiu provar.

O caso coincidiu com a decisão do Tribunal da Relação do Porto que manteve cinco anos de prisão para Armando Vara no processo Face Oculta por “tráfico de influências”.

Destaco o artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso deste sábado (disponível para assinantes) que traça, a propósito destes dois casos e de outros de grande mediatismo, um quadro impiedoso e preocupante da justiça portuguesa.

Os dois casos permitem uma análise comparativa apesar de Dias Loureiro não ter chegado a ser acusado pelo Ministério Público, enquanto Armando Vara viu confirmadas as acusações do Ministério Público com pena de cinco anos de prisão. A disparidade de critérios usados pela procuradora do Ministério Público que arquivou o processo Dias Loureiro e os critérios e argumentos dos juízes do Tribunal de Aveiro que  condenaram Vara ( e outros arguidos do Face Oculta) é incompreensível para o cidadão comum que espera encontrar nas decisões judiciais argumentos lógicos, coerentes e acessíveis.

A procuradora Cláudia Porto cometeu o erro ou a imprudência ou (dirão outros) a franqueza de incluir no despacho de arquivamento a convicção de que Dias Loureiro é culpado dos crimes de que era suspeito. Diz a procuradora Cláudia Porto  que

a investigação não permitiu atingir um plano de certeza que nos permita a imputação desses factos, face à coerência de depoimentos entre os intervenientes no negócio”.

Isto é, a procuradora não quis levar o suspeito a tribunal porque não tinha provas suficientes. As provas indirectas, as responsabilidades políticas do arguido e as suas convicções sobre a culpabilidade de Dias Loureiro não foram suficientes para uma acusação. Nessas condições, o  Ministério Público fez bem em arquivar o processo.

Ao contrário, no caso de Armando Vara o Ministério Público não hesitou em levar Vara a tribunal por indícios e convicções baseados em escutas, “cunhas” e prendas de Natal, considerados  tráfico de influências. No despacho de condenação de Vara e dos restantes réus do Face Oculta lê-se que não são necessárias “provas directas”, sendo “igualmente importantes as provas indirectas, indiciárias e por presunções, readquirindo estas especial relevo nas sociedades actuais”. Leiam-se estes excertos:

(…) no campo da criminalidade de “colarinho branco”, na qual a corrupção e o tráfico de influências pontificam, não é possível, a maior parte das vezes, a prova directa, mormente por testemunhas (…). Por isso, são igualmente importantes as provas indirectas, indiciárias e por presunções, readquirindo estas especial relevo nas sociedades actuais, sob pena de se agravar insuportavelmente o sentimento comunitário de impunidade e de descrença na administração da justiça(…)” (nota 113, pág.588)

O tribunal decidiu ainda salientar quanto a Armando Vara:

As responsabilidades perante a sociedade de alguém que exerceu e exerce tão relevantes cargos como Armando Vara são inegavelmente superiores ao comum dos cidadãos. (…) Assim, perante o acima e agora exposto, decide-se fixar a pena única em 5 (cinco) anos de prisão.” (pág. 2647-2648 do acórdão)

Trata-se de dois casos cuja disparidade de critérios e de argumentos se revelam opacos para o cidadão comum em nome de quem a justiça se exerce, dado que os argumentos que no caso de Dias Loureiro serviram para arquivar, no caso de Armando Vara serviram para culpar e prender. Merecem, pois, ser analisados, comparados  e discutidos.

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Comentarismo televisivo-futebolístico

Causou escândalo nos meios do comentarismo televisivo-futebolístico a divulgação pelo diretor de comunicação do FC Porto, de documentos que seriam passados a “comentadores do Benfica”, com temas e argumentos para debates nas televisões.

A questão é interessante e tem várias pontas por onde se lhe pegue. Desde logo, saber o que significa ser “comentador do Benfica” (ou do Porto ou do Sporting). Serão adeptos indicados pelos clubes? Ou são as televisões que os escolhem por sua iniciativa e de acordo com as simpatias clubísticas que lhes conhece? E as posições desses comentadores vinculam os respectivos clubes?

Ora, se os comentadores são escolhidos em função dos clubes a que pertencem, quer os representem ou não oficialmente, não se vê porque será um escândalo que os clubes lhes forneçam argumentários para os debates. Independentemente da qualidade desses argumentários eles provam um certo grau de profissionalismo dos gabinetes de comunicação dos clubes.

A questão, a meu ver, não é essa, mas sim o facto de as televisões ao escolherem “militantes” (oficiais ou oficiosos) dos clubes para comentadores favorecerem  as polémicas e as intrigas clubísticas que preenchem grande parte dos espaços de debate em detrimento de uma discussão mais profunda e elevada sobre o o desporto enquanto fenómeno cultural, social e económico de grande importância na educação e no lazer dos portugueses.

Mutatis mutandis, os clubes de futebol usam processos idênticos de preparação dos seus comentadores televisivos aos usados pelos  partidos políticos em campanhas eleitorais fornecendo argumentários aos seus militantes para defesa dos respectivos pontos de vista. Não há nisso qualquer escândalo.

Há porém um lado escondido e perverso nesta matéria. É que, se é normal que os clubes e os partidos forneçam argumentários aos seus representantes nos debates televisivos,  já não o é quando comentadores supostamente independentes recebem “dicas”, “instruções”  ou “recados” de representantes de poderes ou de interesses, sem o assumirem.

Seria muito mais transparente e próprio de uma democracia avançada que os comentadores televisivos oriundos do desporto, da política ou de qualquer área do conhecimento fossem escolhidos pelas suas competências profissionais ou académicas e não por representarem aquele clube ou aquele partido político.  O contrário é fazer de cada debate, desportivo ou político, um campo de disputa para um campeonato ou uma eleição.

No futebol, onde as paixões são mais agudas e à flor da pele, o calor televisivo dos debates contamina o comportamento das claques.

 

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Uma justiça que não acusa nem inocenta

Dias LoureiroO arquivamento do processo contra Dias Loureiro e Oliveira e Costa (no caso BPN/SLN) vem chamar a atenção para a perversidade do sistema de justiça em Portugal quando permite, ou mesmo favorece, os julgamentos na praça pública ainda mesmo antes de os inquéritos levados a cabo pelo Ministério Público estarem concluídos.

Em Portugal não é necessário os processos chegarem a tribunal para que os arguidos sejam alvo de julgamentos sumários através da comunicação social. Naturalmente que os julgamentos mediáticos não acontecem com todos os arguidos mas apenas com figuras mediáticas, em particular da política e das finanças. Mas os julgamentos mediáticos não são apenas da responsabilidade dos órgãos de comunicação social, já que sem a conivência senão mesmo a iniciativa do Ministério Público e da polícia de investigação criminal, os jornalistas não teriam acesso a processos em segredo de justiça.

Dias Loureiro e Oliveira e Costa não foram sequer acusados pelo Ministério Público porque, segundo o despacho de arquivamento citado nos jornais, Não obstante as diligências realizadas, não foi possível reunir prova suficiente, suscetível de ser confirmada em julgamento, da prática dos crimes imputados a estes arguidos e ao suspeito Abdul al-Assir [cidadão libanês]“.  Ainda assim, segundo a imprensa, a procuradora Cláudia Oliveira Porto sublinhou que o Ministério Público mantém as suspeitas que fizeram abrir o inquérito, há oito anos.: Pese embora o facto de não ter sido recolhida prova suficiente do recebimento dessa vantagem pessoal, à custa do grupo BPN/SLN, subsistem as suspeitas, à luz das regras da experiência comum.”

Ora, é inadmissível que o Ministério Público mantenha pessoas sob suspeita permanente depois de anos de investigação e venha depois dizer que não as acusa porque não tem provas. É uma justiça que não acusa nem inocenta.

A invocação no despacho de arquivamento das regras “da experiência comum” para insinuar que mantém as suspeitas sobre os arguidos, faz lembrar o argumento das cabras e cabritos citado no acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa sobre o caso “Marquês”.

É caso para dizer “se investigou e não acusou, cale-se para sempre”!

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Ainda a reportagem da RTP sobre distúrbios numa escola

CRTP conselho de redacçãoAgradeço ao Conselho de Redacção da RTP a atenção que deu ao meu post sobre a reportagem da RTP numa escola de Lisboa porque qualquer discussão sobre o jornalismo enriquece e valoriza o jornalismo. Por vocação e por profissão pratico há muitos anos análise crítica dos media e do jornalismo pelo que não me chocam nem me inibem as críticas e posições de caracter corporativo que compreendo e aceito como naturais. A liberdade de expressão é isso mesmo, criticar e ser criticado por mais poderosas que sejam as pessoas e as corporações objecto de crítica.

Mas vamos aos factos:

A RTP foi chamada pela  Mãe de um aluno, segundo o relato da jornalista Rita Marrafa de Carvalho. Diz a jornalista:

Há uma queixa de uma mãe. O filho de 9 anos terá sido agredido sexualmente por um colega de 12 no interior da escola. É notícia”. 

Sem dúvida que a agressão sexual de uma criança de 12 anos a outra de 9 é notícia. Essa não é a questão. A questão é como cobrir a notícia de uma agressão sexual entre crianças ocorrida dias antes numa escola que ambas frequentam.

A RTP acorreu à chamada de “uma Mãe”. Presume-se que essa Mãe lhe terá dito que havia distúrbios entre familiares das crianças envolvidas. Surge então a primeira questão: a RTP foi filmar os distrúrbios? Foi falar com os directores da Escola? Foi falar com os familiares das crianças?

Não temos na peça resposta a estas questões. O que a peça nos mostra são as imagens dos distúrbios com crianças e familiares pelo meio. Em off uma jornalista noticia a agressão sexual enquanto vemos a confusão captada pela câmara da RTP no momento dos distúrbios.

Temos, pois, que a notícia é a agressão ao repórter de imagem da RTP, apanhado nos distúrbios que filmava. Todos os repórteres de imagem e não apenas esses sabem que cobrir um conflito seja ele um rixa de rua ou um conflito armado (para referir os extremos) significa correr sérios riscos de ser apanhado, ferido, até morto. Todos os repórteres correm riscos e por isso, a expectativa de poderem sofrer danos físicos não está fora do seu quotidiano.

Não compreendo, por isso, o clamor de tantos jornalistas quando afirmo que filmar (supostamente para publicar) uma desavença envolvendo  familiares de uma criança agredida sexualmente (não sabemos se ela própria se encontrava no meio da confusão) e de outra tida como agressora (desconhecemos também se esta se encontrava no local) constitui  um risco para o próprio  repórter que ele  sabe que corre.

Como diz o povo “quem anda à chuva, molha-se”, isto é, existe a expectativa de que fique molhado. É esse o sentido da expressão que usei no post inicial. Nada de novo, portanto.

Deslocar a discussão para a agressão à equipa da RTP em vez de a centrar na substância do ocorrido na escola e nos procedimentos que devem ser adoptados na cobertura televisiva de crimes sexuais envolvendo crianças é fazer da RTP o centro da notícia coisa que, ela sim, é contrária às melhores práticas jornalísticas.

O repúdio da agressão a um jornalista no exercício de funções não pode camuflar eventuais erros cometidos numa situação em que o jornalista se tornou ele próprio numa vítima.

Publicado em imagens, rtp, Sociologia dos Média, Televisão

O que foi o repórter lá fazer?

Uma denúncia de agressões sexuais a uma criança numa escola básica em Lisboa culminou esta quinta-feira em confrontos entre famílias de duas crianças – a do alegado agressor, de 12 anos, e da vítima, de nove.”

Segundo a notícia, um repórter da RTP foi hoje violentamente agredido por familiares dos  alunos tendo necessitado de tratamento hospitalar.

RTP agrassão em Escola

A RTP não adiantou quais os motivos da agressão nem explicou qual era o objectivo da reportagem. Tratando-se de duas crianças uma das quais alegadamente vítima de “agressão sexual” certamente a RTP não estaria à espera de filmar as crianças envolvidas ou os seus familiares. Pelo que não se ficou a saber que tipo de reportagem a RTP esperava fazer.

A pancadaria que a sua presença, pelos vistos, desencadeou da parte dos familiares das crianças tornou-se afinal o assunto da reportagem. Antes isso do que assistirmos à exibição das próprias crianças vitimas ou agressores.

É evidente que qualquer violência sobre jornalistas é deplorável ainda mais quando se encontram no exercício de funções. Certamente o repórter agredido não fez mais do que recolher imagens de quem por ali se encontrava.

Mas tratando-se de assunto tão grave e delicado, como a agressão sexual envolvendo  crianças, a recolha de imagens era absolutamente interdita. A lei de protecção de menores proíbe a exibição de imagens de vítimas de agressões sexuais e  a RTP não desconhece as restrições impostas em situações envolvendo menores.

Daí que não se tenha percebido o que levou a RTP a deslocar-se com uma câmara à escola onde uma criança de 12 anos agrediu alegadamente outra de nove e filmar agredidos e agressores. Como seria de esperar, acabou agredida.

A reportagem acabou por ser a agressão à própria RTP.

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