Técnica para desqualificar um interlocutor com quem não se concorda

Diário Económico logo_bigO director do Diário Económico (DE) brindou-me hoje com um post-scriptum no seu editorial, onde critica um texto que publiquei neste blog, no qual analiso a entrevista do seu jornal ao candidato à liderança do PS, António Costa. O director do DE vem a reboque da discussão de um post no Facebook, de Paulo Ferreira, um dos jornalistas que fez a entrevista a António Costa, em resposta ao meu texto.

O director do DE refere no seu editorial que fui “antiga assessora de Imprensa de Mário Soares e, mais recentemente, membro do ERC (elementos do meu CV que, pelos vistos, o director do DE considera relevantes para me criticar, visto que os seleccionou para apoiar a sua crítica à minha pessoa). Completa depois o meu “perfil,” afirmando: “Serrano é, de forma pública e notória, apoiante de Costa nas primárias do PS, mostrou não ter capacidade de independência e imparcialidade nesta análise, e isso bastaria para terminar a discussão.”

De uma penada, o director do DE pretende desqualificar o que quer que eu diga ou escreva sobre as primárias do PS, em especial sobre António Costa, apontando-me o dedo, como quem diz: “apoias o homem, és suspeita!”

Acontece que o director do DE  não percebeu que o meu post não é sobre António Costa mas sim sobre jornalismo, tema que pelos vistos não lhe interessa discutir nem gosta que outros o façam.

As referências à minha pessoa no texto do director do DE merecem que eu as sublinhe porque são muito típicas de quem tenta fragilizar as posições do interlocutor usando para isso elementos marginais à discussão substantiva, pensando com isso influenciar as opiniões a seu favor.

Não costumo usar os mesmos expedientes para expor ideias ou defender posições e por isso não vou discutir, por exemplo, se o director do DE mostra ser “de forma pública e notória” um apoiante do governo ou de um determinado banqueiro ou empresário, ou um adversário de António Costa, de António José Seguro, ou de José Sócrates, o que para um jornalista seria grave.

Fica, porém, a nota de que percebo onde o director do DE quer chegar. De qualquer forma, não o deixarei sem resposta, dado que o que me levou a analisar criticamente a entrevista ao candidato António Costa justifica voltar ao assunto.

O director do DE, e outros jornalistas e comentadores, consideram que a única coisa que interessa aos portugueses é saber o que os candidatos à liderança do PS e ao cargo de primeiro-ministro pensam sobre pensões, salários, impostos e défice.  Em 2011, esses ou outros jornalistas também queriam saber se Passos Coelho iria cortar os subsídios de férias e de natal, despedir funcionários, cortar pensões, etc.. As respostas do então candidato sabemos quais foram e hoje conhecemos a realidade “concreta”.

Significa isto que os jornalistas não devam questionar os candidatos sobre essas questões? Evidentemente que devem. E, aliás, têm-no feito, por exemplo, a António José Seguro que lhes tem respondido, o que não impede que não voltem a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas, obtendo até respostas nem sempre coincidentes com respostas anteriores (o que pode compreender-se dada a volatilidade da situação que enquadra essas questões).

O que critico na entrevista a António Costa ao DE é o facto de quando o candidato  afirma que não é ainda o tempo de se pronunciar sobre o seu programa de governo e pretende discutir a sua estratégia e a sua “agenda para a década” (temas que não interessam aos jornalistas talvez por os acharem “abstractos”) isso os leve a dizer que Costa não tem nada de “concreto” a dizer. Como se qualquer decisão que um candidato anuncie e prometa (os jornalistas gostam de ouvir promessas) não necessite de ser enquadrada precisamente numa estratégia e numa “agenda” a médio e longo prazo.

Ora, ao contrário do director do DE, penso que  os cidadãos esperam que as entrevistas dos candidatos a cargos políticos  os  ajudem a perceber a capacidade, a experiência, a coerência, a visão do País e do mundo que os candidatos revelam e revelaram ao longo do tempo. Esses são elementos essenciais para conhecer quem  se apresenta a uma eleição, seja partidária ou nacional. Ora, isso não se apura apenas com perguntas sobre o sobe e desce dos impostos ou os cortes nas pensões e salários, aquilo a que ironicamente chamei no meu post como “jornalismo concreto”.

A questão não é, pois, os jornalistas perguntarem o que lhes interessa obter de um candidato a uma eleição. É não aceitarem e mesmo desprezarem ou desvalorizarem informação relevante não directamente relacionada com a actualidade imediata, só porque vão para a entrevista com o cérebro formatado para um conjunto restrito de temas.

Como bem demonstraram no Público os politólogos Rita FerreiraAndré Freire, existe já matéria de sobra para conhecer  como os dois candidatos à liderança do PS se posicionam sobre questões importantes para uma escolha entre os dois. De facto, as declarações que têm proferido e as moções que apresentaram, são suficientemente “concretas” para suscitarem entrevistas bem úteis para um melhor conhecimento das propostas de cada um deles.

Acontece, porém, que a preparação de uma entrevista que vá além das “perguntas do dia” dá trabalho a preparar e pressupõe estudo e background. E, já agora, algum distanciamento face à agenda do governo em funções, que é coisa  que sobretudo os jornalistas da área económica têm dificuldade em fazer.

(Já agora: não espero que o director do DE  publique no seu jornal esta minha resposta ao seu post-scriptum. )

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6 respostas a Técnica para desqualificar um interlocutor com quem não se concorda

  1. ECD diz:

    Se por acaso .. o Costa do Economico publicar o resposta ao Ps da ES que me diga. De momento espero sentado!

  2. EGR diz:

    Não leio o Diário Económico; mas “apanho” frequentemente com o seu director a fazer comentários-e participar em entrevistas-na Antena 1 e na RTP; é de facto, extraordinário que o dito se tenha referido a apreciação que aqui fez sobre a entrevista de António Costa(o do PS claro).
    Ao menos um pouco de pudor não lhe ficava nada mal!

  3. José Dinis diz:

    Se um candidato a qualquer cargo político faz um enunciado de intenção, como a “agenda para uma década”, deve esclarecê-la a toda a gente, clarificando os aspectos determinantes em que se estriba a candidatura, por outras palavras, para que se saiba com o que se pode contar.
    No entanto, isto de se poder contar com, em política portuguesa, é muito relativo, na medida em que vivemos empenhados, condenados a importar, desde produtos essenciais à alimentação, como outros alimentos exóticos, passando pelos produtos energéticos e fundamentais ao dia-a-dia e à actividade económica e exportadora, e desaguando nos produtos de luxo e bens pseudo-necessários que alimentam a vaidade nacional. Um país com este nível de dependências, exportador das mais-valias do capital estrangeiro cá investido, que continua a pedir emprestado para pagar a dívida, aumentando-a anualmente, a troco da venda ao desbarato das melhores empresas públicas nacionais, também condena o seu povo (dez milhões) a suportar a dívida total, que no mínimo ronda os 400 mil milhões, e já a projectaram em cerca de 700 mil milhões, verbas que andam muito bem escondidas, mas que representam de 40 a 70 mil euros per capita, incluindo os recém nascidos.
    Por isso convido-vos à reflexão sobre a necessidade de dispormos de um mecanismo judicial prático, que nos permita o controle e fiscalização sobre os actos políticos e o funcionamento das instituições, fácil de congeminar, que seja persuasor da corrupção, e incremente à participação cívica no sentido da defesa do Interesse Público.
    Finalmente, porque é de projectos políticos que falamos, há que divulgar a ideia do sacrifício verdadeiramente solidário, com vista ao estabelecimento de um plano nacional para regularização da dívida, e para estímulo do incremento económico. Continuarmos a estender a mão na expectativa de uma sobrevivência à rica, é que não pode ser a solução.
    JD

  4. Maria diz:

    “Serrano é, de forma pública e notória, apoiante de Costa nas primárias do PS”
    Pois fique o senhor director do DE a saber que será sempre uma posição infinitamente mais transparente e honesta do que a dele : que nunca assumiu o apoio a este governo mas que já toda a gente há muito o percebeu. Apoio de notória influência no que escreve , sob a capa de uma insenção jornalistica que não se vislumbra.
    Um tipico caso do rei que vai nú : já toda a gente o viu e lhe tirou as medidas, mas o “pobre” rei insiste em manter a palhaçada.

  5. J. Madeira diz:

    Nos chamados ditos populares, há um que se podia aplicar à sua
    paciência para com o costa do DE, é dar pérolas a porcos!
    Nos dias que correm poucos são os verdadeiros Jornalistas, o que
    mais existe são os chamados profissionais de comunicação, pessoas
    tidas como muito sérias e independentes mas, que trabalham à peça!

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