O Presidente do Supremo, o jornalismo e os jornalistas

Quando um jornal de referência tem, anos a fio, como director, quem não tem carteira de jornalista, coisa que impossibilita o exercício do cargo, e ninguém fez nada; quando esse director não-jornalista é gerente ou administrador de sociedades comerciais sei lá se incompatíveis com o exercício do jornalismo segundo o respectivo Estatuto, ficando-se a intuir (caso isso seja verdade) que se quis ser director de jornal mesmo sem ter os requisitos legais e não se quis ter tais requisitos para poder comerciar à vontade violando incompatibilidades legais e éticas, e ninguém fez nada; quando Octávio Lopes, então no “Correio da Manhã”, vê publicadas gravações ilegais de conversas telefónicas por si feitas a entrevistados que ignoravam estar a ser gravados e a seguir João Cândido da Silva, no “Público” de 14/08/2004, afirma que isso, ou seja, a gravação ilegal é coisa banal do mundo jornalístico e que “só por ingénuo desconhecimento, hipocrisia ou por uma atitude de mera defesa corporativa se poderá negar essa realidade”, e ninguém fez nada; quando se publicitam escutas a Belém cuja trama outro jornal desmonta, ou há jornalistas que se constituem assistentes em inquéritos criminais para ter acesso a documentos em segredo de justiça que a seguir vêm publicados num abuso de direito cujas consequências qualquer jurista sabe quais são; quando a directora de um semanário é condenada criminalmente ao tentar introduzir num inquérito criminal um sósia que vinha mesmo a calhar ou quando um conhecido comentarista afirma, no “Expresso” que juízes e magistrados do Mº Pº são quem mais infringe o segredo de justiça, admitindo até que o façam com fim lucrativo, e instado pelo C.S.M. a fornecer as eventuais provas que tivesse em seu poder, declara que não tem provas e que tudo não passa, afinal, de impressão sua, e ninguém faz nada; quando, em programas televisivos do canal público, se tenta branquear, obsessivamente, um ex-colega condenado por crime grave a ponto de o nosso Prémio Camões, Manuel António Pina, na sua crónica de 8/9/10, no “J.N.”, se ter indignado escrevendo que o “Prós e Contras” de dois dias atrás não era sequer jornalismo e só por isso não ficaria na História Universal da Infâmia do Jornalismo português – quando isto e muito mais acontece, fica-se com a certeza da urgência em regular qualquer actividade com peso estruturante nos estados democráticos, incluindo obviamente a C. S. (Noronha do Nascimento, no colóquio Justiça e Comunicação, Coimbra, 3 de Junho de 2011) 

O discurso do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça a que pertence este excerto foi praticamente ignorado, dele tendo apenas sido publicado pelos jornais que noticiaram o colóquio este excerto ou frases dele extraídas.

Há alguns meses, em entrevista ao DN, o Procurador-Geral já tinha, sobre o assunto, ” partido a loiça“. Agora foi a vez do Presidente do Supremo.

Quando as altas figuras do Estado visam publica e directamente  jornalistas e estes não só não reagem como omitem as acusações de que são alvo, alguma coisa vai mal nos reinos da justiça e do jornalismo.

Resta dizer que no mesmo evento as palavras do Presidente do Sindicato dos Jornalistas, que podem  ser lidas aqui, também foram ignoradas.

 

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5 respostas a O Presidente do Supremo, o jornalismo e os jornalistas

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  2. Pingback: Ricochete | VAI E VEM

  3. acarranca diz:

    O facto de a maior parte, se não a totalidade, dos meios de comunicação social, ter omitido esta passagem da intervenção do Presidente do STJ, assim como, anteriormente, a do PGR sobre o mesmo assunto é, de facto, apenas um reflexo dos media que temos. E não é de agora, mas pudemos ver agora, durante, a recente campanha eleitoral, a mais parcial e enviesada cobertura de que há memória. E nos poucos dias que já passaram a ideia com que se fica é que a tendência é para piorar.
    Claro que a solução não passa por dizer aos media o que devem dizer. Mas pelo menos (o que já não seria pouco) obrigá-los a cumprir a lei, sujeitando-os a coimas ou multas na única linguagem que parecem entender e onde mais lhes dói, no bolso.

  4. Cabe perguntar, ou responder a tanta pergunta: e porque não faz ele alguma coisa?

  5. sao diz:

    É de estarrecer!

    Penso que a vergonha e a ética desapareceram (quase) por completo neste desgraçado país, que é o nosso.

    Bom dia

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