Manhã no mercado…com a crise em pano de fundo

É sexta-feira, segundo dia a seguir  ao “resgate”. Em Lisboa, o sol brilha e está calor. Levanto-me cedo e ouço na rádio que o ministro das Finanças está em Budapeste a negociar o nosso futuro. Oxalá o faça bem. Enquanto espero pelo resultado, lá mais para a tarde, vou ao mercado.

O mercado é em Benfica e às sextas-feiras há no  local “feira dos ciganos”. A azáfama é a do costume:  as ciganas  despejam nas bancas enormes sacos de plástico cheios de roupa colorida, sapatos, malas, colares, anéis, pulseiras, ganchos de cabelo, cremes para tudo, agulhas, alfinetes, botões …. nada falta naquela feira. Detenho-me numa das bancas e logo uma cigana, familiarizada com as técnicas de marketing, se abeira de mim  – “fashion, madame, fashion, é a nova colecção,  veja à vontade! …”. 

O negócio parece próspero e o povo feliz, a avaliar pela quantidade de potenciais compradores que alegremente remexem as bancas, ensaiam provas por cima da roupa que vestem (não há sala de prova na feira), perguntam o preço, pedem desconto, trocam impressões  com quem os acompanha (“giro”, não é?). São pessoas de todas as idades, mais mulheres que homens, extracto social de difícil identificação a olho nú, ainda assim, mais classe média baixa, (C e D, na terminologia das agências de medição de audiências- não confundir com agências de rating).

Atravessada a feira chego ao interior do mercado, hoje com menos gente que de costume talvez por ser um pouco mais cedo. Nas bancas do peixe fresco a garoupa está ao  preço da semana passada, o robalo subiu um pouco e a dourada baixou. “Nada mal”, penso para mim…”não preciso ainda de mudar de peixes”. “Freguesa, o que leva hoje?”, logo se adianta a D. Lisete, a minha peixeira habitual.

Mercado do Peixe

Meto conversa, como gosto de fazer, para apreciar o “clima” – “está menos gente hoje, será da crise?”, digo, mas ela atalha logo: “ó menina (somos sempre “meninas” para aqueles a quem compramos) “ainda é cedo, vai-se vendendo, não se pode tirar à barriga…” (lembrei-me que os ingleses dizem que nunca foram tão saudáveis como no tempo da guerra em que a comida foi racionada, mas logo afastei a ideia, “lagarto, lagarto”, murmurei para mim…)

De regresso, ouço as notícias no rádio do carro. Não dão ainda os resultados da negociação em Budapeste. Sinto que os jornalistas andam excitados e  eufóricos com tanta matéria para noticiar … e os comentadores também, coitados,  cheios de trabalho, a lerem à pressa a história de Portugal, uns dedicam-se à história recente outros à mais antiga, os economistas a reverem o que falhou na teoria económica, uns entretêm-se com os diagnósticos, outros  aventuram-se com soluções  – “produzir mais, criar riqueza, exportar, atrair investimento….” Por mim, gostava que explicassem como é que isso se pode fazer e o que é que devemos produzir, enfim, coisas um bocadinho mais concretas, para não serem só bitaitadas. Para isso é que eles são “especialistas, não é?

Um dos canais de rádio, mais virado para o lado masoquista que há em todos nós, animava-nos com a notícia de que 30% dos portugueses têm uma forma de distúrbio mental. Fiquei logo a pensar se estarei nesses 30% e qual seria a minha forma de distúrbio. Só depois quando ouvi  a mesma notícia num dos canais de televisão  percebi que se tratava de um evento mediático e que, por enquanto, ainda não há dados actualizados sobre o que é que a crise está a fazer às nossas mentes. Mas não havia só notícias más. A Páscoa vai ser um sucesso no Algarve, anuncia-se  enchente de turistas, dizem os hoteleiros. 

Lembrei-me que o Herman José disse, uma vez que  “a vida dos pobrezinhos é um mistério”… 

Foi assim que depois de uma manhã no mercado com a crise em pano de fundo arrumei as compras e voltei ao “normal”…As notícias de Budapeste dizem que vamos precisar de uns 80 mil milhões…

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