O circuito fechado do comentário político

Paulo Baldaia vai abandonar, a seu pedido, a direcção da TSF e será substituído pelo actual director do  jornal electrónico Observador, David Dinis, que, por sua vez, é substituído por Miguel Pinheiro, actual editor de cultura do  Observador e ex-director da revista Sábado.

Num texto publicado no Facebook, onde expõe as razões da sua demissão, Paulo Baldaia afirma que continuará “a ser jornalista no grupo Global Media e  a fazer opinião na TSF, no DN e na SIC-Notícias”. David Dinis é também comentador político regular na TSF e na TVI. Miguel Pinheiro é também comentador regular na RTP3.

pluralismo
Este exemplo singelo da rotatividade de jornalistas-comentadores entre órgãos de comunicação social não é, contudo, caso único. Pelo contrário, é regra no jornalismo português. Podíamos continuar, citando (para referir apenas os jornalistas-comentadores com funções de direcção nos seus órgãos de comunicação social) o director do DN, André Macedo e o sub-director do mesmo jornal, Nuno Saraiva, ambos comentadores regulares na RTP3; José Manuel Fernandes, publisher no Observador e comentador regular na RTP3.

Neste movimento giratório de jornalistas-comentadores que acumulam funções de direcção nos seus órgãos de comunicação social com funções de comentadores noutros órgãos de comunicação social, há os casos de acumulação dentro do mesmo grupo, como o director do Expresso, Ricardo Costa, que é também comentador regular da SIC, como aliás, Paulo Baldaia no DN e na TSF (ambos os meios do mesmo grupo). Haverá, possivelmente nestes casos, o aproveitamento das capacidades  de profissionais com funções de chefia e, ao mesmo tempo, uma “rentabilização” de meios humanos.

Acresce que o Comentário e a Opinião são géneros jornalísticos que cabem perfeitamente nas funções de um jornalista, quando, naturalmente, estes possuem conhecimentos dos assuntos  sobre que opinam. Em matéria de comentário político seria até natural que fossem eles os comentadores regulares e não ex-dirigentes políticos, os quais devem ser ouvidos em debates, entrevistas etc, e não em espaços cativos como comentadores-residentes.

Porém, tal como acontece com os políticos-comentadores, em que muito poucos dominam o comentário político televisivo, também os jornalistas-comentadores dominam em grande parte o comentário político jornalístico, ao opinarem regularmente nos seus jornais e noutros órgãos de comunicação social.

Ora, por muito versáteis que seja, um director que escreve um editorial (ou um artigo) no seu jornal sobre um determinado assunto e depois vai à televisão ou à rádio comentar o mesmo assunto, certamente manterá o seu ponto de vista. Este circuito fechado do comentário político constitui uma evidente restrição do pluralismo, na medida em que não permite o acesso a outros jornalistas, com prejuízo da diversidade de opinião e de expressão do pensamento.

Naturalmente que o comentário político não pode ficar restringido a jornalistas e a políticos. Aliás, os mais qualificados comentadores políticos pertencem ao campo académico, alguns dos quais, circulam também entre diversos meios: Pacheco Pereira, Pedro Adão e Silva, António Costa Pinto, Marina Costa Lobo, André Freire, Pedro Magalhães, contam-se entre os mais competentes.

Este fechamento do comentário político, estende-se ao comentário de economia onde a situação é ainda mais restrita e ameaçadora de uma informação plural. Ficará para outro texto.

 

 

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2 respostas a O circuito fechado do comentário político

  1. carlosalvares diz:

    O CANTINHO DO PARASITA:
    “Dominam o comentário político televisivo, jornalistas-comentadores que em grande parte escreverem também nos seus jornais e noutros órgãos de comunicação social.televisão ou à rádio comentar o mesmo assunto, certamente mantendo o seu ponto de vista.
    Este circuito fechado do comentário político constitui uma evidente restrição do pluralismo, na medida em que não permite o acesso a outros jornalistas, com prejuízo do pluralismo e da diversidade de opinião e de expressão do pensamento”.

    Concordei plenamente com o seu artigo a ponto de copiar parte dele. O mesmo jornalista ou comentador, embora escrevendo em órgãos de informação diferentes, certamente mantém em todos eles, o mesmo poder de análise ou descrição. A sua divulgação feita nestes moldes, além de restringir o trabalho de outros jornalistas e comentadores dá ideia, evidentemente errada, de falta de outro assunto. Carlos Patrício Álvares (Chaubet)

  2. manuel branco. diz:

    Há remédio santo para a maleita: não comprar jornais, não ter tv por cabo. Creia, no dia dia em que me vi livre da sic notícias, da tvi24 e da rtp notícias foi uma desintoxicação. Ainda por cima como essa gente faz jus ao que São Paulo escreveu – o homem volta ao vício como o cão volta ao vómito – é correr a net e ler à borla o que as luminárias balbuciam; directamente ou através dos amigos; isto enquanto ainda há interesse no que peroram. O Expresso põe uns videos com as análises dos pensadores da fábrica que eu nunca vejo. Portugal mudou muito mas sob a espuma dos dias ainda é Palma Cavalão e Corneta do Diabo. A minha esperança é a revolução tecnológica. tipo tipógrafos do Times de Londres e o R. Murdoch.

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