“estripador de Lisboa”: outras estórias

A estória do “estripador de Lisboa” contada pelo jornal Sol, sobretudo conjugada com as entrevistas da sua autora, Felícia Cabrita,  é também uma estória de pequenas “guerras” entre jornais,  pessoas e grupos de pessoas dentro da Polícia Judiciária. Não é aliás, caso raro. Tem sido assim nos chamados “grandes casos” envolvendo a Justiça e o Jornalismo, com estes ou outros protagonistas. 

Foi assim nos processos Casa Pia Freeport, foi e continua a ser no Face Oculta, é também assim agora no caso “estripador de Lisboa”, para referir apenas alguns dos mais mediáticos.

Essas  pequenas “guerras” passam quase sempre despercebidas e raramente são mencionadas, muito menos analisadas. A razão é simples e fácil de perceber: as estórias de crimes, sejam de sangue, de corrupção ou outros, contadas pelos jornalistas, são em geral bem escritas, interessantes e apelativas, com “rostos” reais ou simulados, cheias de cor e movimento. Se envolverem políticos ou outras figuras mediáticas pouco mais interessa aos média do que “provar” que eles são culpados, para o que contam com a ajuda de fontes que “dão acesso” a “provas” que, se não servirem à Justiça servem pelo menos aos média.A Internet veio permitir que também os jornais ofereçam essas estórias em imagens consentidas ou captadas através de câmara oculta, como é o caso das cenas filmadas com o “estripador”.  O leitor e o espectador ficam presos às narrativas escritas e visuais, entram no “enredo” e metem-se na pele do “polícia” tentando perceber onde está a “verdade”, quem é o “criminoso” e se será ou não preso.

A estória do “estripador” tem proporcionado, aliás,  excelentes reportagens televisivas, algumas um pouco mórbidas, com a reconstrução dos crimes e o recurso a instrumentos de morte –  facas, garrafas partidas, paus, sangue a escorrer – tendo como cenário a noite, a calçada e as sombras de vultos humanos, de grande beleza e impacto, algumas feitas na altura dos crimes e actualizadas agora com novos depoimentos.

As estórias paralelas à estória principal ficam geralmente na penumbra.

O caso do “estripador de Lisboa” revela  outras estórias, não de crimes mas de pequenas “guerras” que não entram nas reportagens a não ser quando  quem as conta  se envolve no “mundo” onde a estória nasceu e viveu. Nesta estória  avultam duas pequenas “guerras”: 

– Uma “guerra” entre jornais, patente no “esclarecimento” que Felícia Cabrita faz questão de fazer na  entrevista que deu a José Rodrigues dos Santos: “o Correio da Manhã traz uma estória que não é estória, alguém contou em segunda mão uma estória da qual pouco sabia, em que diz que os filhos entregaram os diários …o que se passou é que ele entrega-me directamente a mim, não há família ao barulho…” 

– Uma outra “guerra”, esta dentro da Polícia, é revelada na mesma entrevista, quando Felícia Cabrita não resiste a um elogio revelador do seu conhecimento dos meandros do “ambiente”  da investigação e diz a José Rodrigues dos Santos: “Não quero deixar de fazer um grande elogio à polícia de Aveiro porque enquanto isto esteve só no domínio da Polícia de Aveiro, que foram altamente profissionais, nada se soube e quando chega a Lisboa  é o circo… Lisboa, aliás, ultimamente,  a Polícia Judiciária é um circo, toda a gente a querer aparecer nas televisões… é um circo enquanto este governo não mudar as direcções está toda a gente em bicos dos pés a querer assegurar o lugar …  dá uma péssima imagem.”

São críticas à “concorrência” e à Polícia Judiciária de Lisboa e  elogio à Polícia Judiciária de Aveiro. Compreende-se a lógica: O Sol e o Correio da Manhã disputam segmentos de mercado cada vez mais idênticos. Disputam também “segredos” da Justiça vindos de outros casos…

São disputas que ajudam a perceber o que está aquém  de casos como o do “estripador”e  que vão muito além dele. 

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2 respostas a “estripador de Lisboa”: outras estórias

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