Crónica dos dias de terror vistos do sofá, frente à televisão

Paris marcha contra o terrorismoOs atentados terroristas de Paris e tudo o que aconteceu a seguir vão ficar por muito tempo na nossa memória.  Trata-se de um acontecimento vivido à escala planetária através da televisão, um “evento mediático”, a mostrar que a televisão está longe de ser um media ultrapassado.

As primeiras imagens, as únicas em que foi possível ver os dois terroristas em acção, disparando sobre o polícia Ahmed caído no chão e fugindo depois da carnificina na redacção do Charlie Hebdo, foram captadas por uma produtora de televisão de um português instalada no mesmo edifício que subiu para o telhado e filmou os assaltantes.

Em toda a parte as pessoas ficaram presas à televisão, à espera do desfecho do assalto da polícia à empresa gráfica onde os dois irmãos terroristas se refugiaram e ao supermercado onde o terceiro elemento se mantinha entrincheirado com um número desconhecido de pessoas feitas reféns. As imagens não mostravam mais do que os edifícios cercados, polícias e viaturas. As notícias eram contraditórias e as reportagens tornaram-se redundantes.  Mesmo assim, era impossível sair da frente do televisor.

As respostas às perguntas que todos fazíam – quantos mortos, como foi possível um acto tão bárbaro, que resposta vai dar a França e o mundo – começaram a surgir depois. Os  heróis ocasionais também: o empregado do supermercado que se escondeu com outros reféns na arca frigorífica, desligando a luz e o termostato; o dono da gráfica que deu café e tratou as feridas de um dos irmãos assaltantes para os acalmar; o funcionário que se escondeu e deu informações “preciosas” à polícia.

Tivemos depois imagens mais detalhadas, estas fornecidas pela polícia:  o sangue no corredor da redacção do Charlie Hebdo; o assalto ao supermercado judaico e a libertação dos reféns; o assaltante caído no chão, morto pela polícia.

E ouvimos também algo verdadeiramente espantoso e talvez inédito: entrevistas dos assaltantes a uma rádio regional francesa a partir dos dois locais do crime, em que ambos assumiam os crimes em nome do “profeta”. Comunicar o crime tornou-se parte integrante do próprio crime.

E veio depois a política em todo o seu esplendor. Hollande soube gerir a crise com um misto de emoção, firmeza e sabedoria que não se esperaria de um presidente que as sondagens dizem ter caído em desgraça. Ele teve a ideia genial de chamar a Paris is líderes mundiais e reunir o líder do Hamas e o primeiro-ministro de Israel. Tudo na marcha deste domingo obedeceu a um guião preparado ao pormenor: os lugares na fila da frente,  os momentos de paragem da marcha, os cumprimentos de Hollande aos sobreviventes do Charlie Hebdo e à família do polícia assassinado.

Se é certo que a polícia francesa falhou na prevenção do atentado, apesar de os terroristas que os realizaram estarem sinalizados e as autoridades argelinas terem alertado  para a possibilidade de um atentado, no período que se seguiu a polícia francesa foi de grande eficácia no comando das operações que culminaram na eliminação dos assaltantes.

Durante os dias do terror, a informação não faltou mesmo quando não havia informação. As televisões estiveram onde lhes foi permitido estarem e as imagens que vimos foram aquelas que devíamos ver.

No que respeita às televisões portuguesas estiveram em geral à altura dos acontecimentos, com os canais informativos do cabo em directos permanentes. A RTP marcou a diferença, com o seu correspondente em Paris, Paulo Dentinho, desde o primeiro momento presente em Dammartin-en-Goële, a localidade perto de Paris para onde fugiram os dois irmãos assaltantes, coadjuvado pelo muito experiente correspondente em Bruxelas, Esteves Martins.

É em momentos como este, em que acontecimentos inesperados e de grande intensidade dramática irrompem nas nossas sociedades que a televisão se torna o media por excelência. Mesmo quando as forças de segurança reconhecem que a mediatização de actos de terrorismo ajuda os terroristas, elas próprias  ajudam e organizam a sua mediatização, o que  mostra bem o  papel insubstituível da televisão na cobertura de acontecimentos da dimensão dos que vivemos estes dias.

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Uma resposta a Crónica dos dias de terror vistos do sofá, frente à televisão

  1. Abraham Studebaker diz:

    Pouco relevo dado à presença de Nataniauauau em Paris : esse homem tem feito impossíveis para dinamizar as relações entre islamitas e judeus, atingindo,nos últimos meses, números nunca sonhados.

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