Os erros da candidata Maria de Belém

maria-de-belem-fotoLusa1313f03dMaria de Belém deu hoje a imagem de uma candidata antecipadamente derrotada, assumindo que a divulgação de que assinara o pedido de verificação da constitucionalidade das subvenções vitalícias, sem nunca o ter afirmado antes, prejudicou a sua candidatura. De facto assim acontece, sobretudo depois de a candidata ter dado uma explicação esfarrapada quando foi questionada por  não ter integrado o grupo de deputados socialistas que reclamaram, junto do TC , a inconstitucionalidade do orçamento de Estado de 2012.

Mas Maria de Belém queixa-se também de ter tido uma campanha de ataques pessoais, o que não é verdade, na medida em as críticas que lhe foram feitas e que ela interpreta como pessoais, não o são, no sentido de devassa da sua vida íntima ou privada. Aliás, Maria de Belém não deixou, ela própria, de adoptar uma atitude de alguma agressividade contra Sampaio da Nóvoa e contra Marcelo Rebelo de Sousa, qualquer delas porém naturais num contexto eleitoral.

Os erros de Maria de Belém não têm a ver apenas com a questão das subvenções, embora esse tenha sido o “momento fatal” que fechou o circuito dos erros da sua campanha. Vejamos alguns desses erros:

Não fizeram, por exemplo, nenhum sentido as críticas e os ciúmes  de Maria de Belém e de alguns dos socialistas seus apoiantes a outros socialistas por apoiarem a candidatura de Sampaio da Nóvoa. Certamente mal aconselhada, Maria de Belém começou por aceitar  a decisão de António Costa de não apoiar nenhum dos dois candidatos mas depois rompeu a cordialidade e a serenidade e apesar do apelo do secretário-geral ao voto nela ou em Sampaio da Nóvoa veio pôr-se em bicos de pés, introduzindo na campanha uma crispação artificial e perfeitamente dispensável. Ora, Maria de Belém quando decidiu apresentar a sua candidatura sabia que Sampaio da Nóvoa recolhia já o apoio de muitos ex e actuais dirigentes socialistas que certamente não iriam mudar de posição pelo facto de ela ter decidido candidatar-se.

As infelizes declarações de Maria de Belém, de crítica ao PS, e as réplicas que provocaram noutros  socialistas, foram imediatamente aproveitadas por jornalistas e comentadores em títulos de jornais e textos que pretendiam dar uma imagem de guerra interna e de divisões insanáveis no seio do PS, susceptíveis de desmobilizarem o voto num dos dois candidatos, beneficiando Marcelo Rebelo de Sousa.

Ora, Maria de Belém não podia desconhecer que em duas eleições já distantes – 1980 e 1986 – o PS se dividiu. E que em 2006 voltou a acontecer, com Soares contra Alegre. Em 1980, o apoio do PS ao general Eanes não foi pacífico. Mário Soares não concordou e auto suspendeu-se do cargo de secretário-geral. O PS apoiou Eanes, depois dele ter assinado uma “base de entendimento” sobre o cumprimento de um  conjunto de princípios. E em 1986, Mário Soares e Salgado Zenha, os dois dirigentes mais emblemáticos do PS, apresentaram-se à eleição presidencial como adversários. Soares com o apoio do PS; Salgado Zenha apoiado pelo PRD, partido fundado pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes. As notícias da época dão conta de uma campanha marcada pela emoção provocada pela luta entre os dois candidatos oriundos do Partido Socialista. Mário Soares acabaria por vencer Zenha na 1.ª volta e depois venceu Freitas do Amaral na 2.ª volta. Em 2006, Soares e Alegre perderam para Cavaco Silva.

O que agora se passou no PS não possui, nem de perto nem de longe, o dramatismo de qualquer das eleições citadas. O PS não escolheu Sampaio da Nóvoa como seu candidato oficial mas também não escolheu Maria de Belém como a “candidata socialista”, condição que ela num momento de desespero veio reclamar. Ora, ao contrário do que aconteceu em 1980 e em 1986, o PS não tem, nesta eleição,  um candidato “seu” nem se envolveu na campanha.

Maria de Belém cometeu o erro de pôr em causa a liberdade de outros socialistas, sejam ou não dirigentes, de a título individual apoiarem Sampaio da Nóvoa. Com isso mostrou insegurança para além de uma visão errada do que é uma eleição presidencial.

Os dados das sondagens que apontam para uma queda abrupta das intenções de voto na sua pessoa, agravaram a vitimização e a crispação que nos últimos dias Maria de Belém deixa transparecer no rosto  e na voz.  Surge agora como uma candidata com mau perder e até a simpatia que de que gozava em muitos portugueses poderá, ainda que injustamente, ter sido afectada.

 

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3 respostas a Os erros da candidata Maria de Belém

  1. Carlos Serra diz:

    Em 1980 o PS, incluindo Soares, começou por apoiar Eanes. Entretanto, dois meses antes das eleições, Eanes “piscou o olho” ao PSD em declarações à Comunicação Social, o que caiu mal no PS e particularmente a Mário Soares, que propôs ao Partido o abandono do apoio ao general. A maioria dos dirigentes não concordou e, vencido, Soares pôs-se à margem.

    Também na ocasião achei oportunistas as declarações de Eanes. Mas entre ele e Soares Carneiro, fiz como os comunistas em 1986: apertei o nariz e votei Eanes.

  2. Vicente Silva diz:

    Um dos sapos que Maria de Belém terá de digerir é a sobranceria manifestada em relação a outros candidatos que, em sua opinião, não dispunham como ela da necessária experiência política e currículo para o bom desempenho das funções de PR, numa clara alusão a Sampaio da Nóvoa. Tal teoria parece não ter encontrado eco entre os eleitores e que, bem pelo contrário, comportou-se como um projétil que fez ricochete e foi atingir o atirador.
    Ficou para já demonstrado, tendo em consideração as últimas sondagens ontem publicadas, que a teoria de MB será, à partida, um erro colossal que poderá ser ou não confirmado numa hipotética segunda volta eleitoral. ” Wait and see!”

  3. josé barrote diz:

    Estou perfeitamente de acordo, com o esclarecimento, atrás referido. Eu também não gostei da forma e do momento em que Maria de Belém apresentou a sua candidatura. Num momento difícil para o Partido, ela resolveu partir ainda mais. A minha simpatia por ela, passou a esvanecer-se. Em momentos difíceis, é preciso união. Sendo uma candidatura pessoal e independente do Partido, mas tendo à sua volta, tantos socialistas de prestígio, não pode revelar mau génio, por ver outros SOCIALISTAS a apoiar, Sampaio da Nóvoa, antes mesmo da sua candidatura.

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