E assim a ministra das Finanças levou um raspanete a partir de Moçambique

Passos em MoçambiqueEsta manhã, o País acordou com as rádios a darem a notícia de que a contribuição extraordinária de solidariedade aplicada aos pensionistas do Estado ia ser transformada num corte permanente mas variável dependente da natalidade e do funcionamento da economia e que a medida abrangeria também os pensionistas do sector privado.

Não havia informação muito concreta mas era fácil concluir que os pensionistas passariam a viver numa espécie de lotaria permanente em que uns anos tinham “sorte” e teriam ao fim do mês mais uns pozinhos nas reformas e noutros havia  cortes. Acabavam-se assim quaisquer veleidades para os pensionistas de poderem fazer planos para as suas vidas e para as dos seus familiares. Talvez alguns começassem já a  armazenar medicamentos e comida para os anos em que não nascessem crianças e a economia afundasse e só houvesse cortes. Tudo isto soava como uma paranóia que tivesse atacado o governo no seu conjunto.

A notícia não vinha de uma fuga para um qualquer órgão de informação. Vinha de “fonte oficial”, citada em discurso directo nos jornais, embora sem “rosto”. Alguns associavam-na a um  briefing no Ministério das Finanças. Mau de mais para ser verdade. Mas ainda não tínhamos visto tudo.

A partir de Moçambique, onde se encontra em viagem oficial, o primeiro-ministro disse que não sabe que notícias são essas, não tem acompanhado os media mas a notícia “é especulação” e até se mostrou surpreendido com o tal briefing. Confrontado então com o facto de a notícia surgir de fonte oficial do gabinete da ministra das Finanças, Passos Coelho apelou a «todos os membros do Governo para que contribuam para um debate sereno» à volta deste assunto.” E assim a ministra das Finanças levou um raspanete a partir de Moçambique.

Para além da gravidade do conteúdo da notícia dever merecer as maiores cautelas da parte do governo na sua divulgação, com  informações concretas e detalhadas para que as pessoas pudessem saber ao certo do que se trata, este episódio revela que o primeiro-ministro não controla o que se passa no Ministério das Finanças e este, por sua vez, não informa o primeiro-ministro sobre as informações que liberta.

O ministro Marques Guedes, meio atrapalhado, veio depois pôr água na fervura, afirmando que o grupo de trabalho que está a estudar o assunto ainda não apresentou  resultados ao governo, o que significa que a descoordenação atinge até os grupos de trabalho que, pelos vistos, ultrapassam os ministros e funcionam em roda solta. No mínimo, impunha-se demitir o responsável  do grupo de trabalho, a não ser que…..a pessoa que falou à imprensa tenha sido autorizada a fazê-lo, o que evidentemente parece ser a hipótese mais plausível.

Não é a primeira vez que grupos de trabalho criados pelo governo vêm para a praça pública divulgar medidas que depois o governo desautoriza dizendo que não estão aprovadas, ou não as conhece. Foi o caso de grupos de trabalho sobre transportes, reforma hospitalar e serviço público de televisão. É uma estratégia de comunicação baseada em  balões de ensaio que além de canhestra funciona como gato escondido com o rabo de fora.

A ser verdade que o primeiro-ministro foi colhido de surpresa pela notícia, a situação é ainda mais surpreendente: é  que um primeiro-ministro, esteja onde estiver, deve estar informado sobre o que se passa no País.  Moçambique é longe mas o primeiro-ministro deve ter levado consigo assessores e o seu gabinete não deve ter metido férias. Além disso, em Moçambique também há internet e os telefones funcionam.

Enfim, haja alguém que ponha ordem no governo, já que o primeiro-ministro não se revela capaz de o fazer.

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3 respostas a E assim a ministra das Finanças levou um raspanete a partir de Moçambique

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  3. Vicente Silva diz:

    Creio que a este emaranhado de contínuos episódios no seio da (des)governação não poderá ser considerado como uma estratégia definida “à priori,” mas tão só uma fuga para a frente sem qualquer nexo e com o único objectivo de aliviar a qualquer preço”a carga e albarda” sob a qual se meteram.
    Salve-se quem e como puder será o lema reinante entre as hostes mas algo existe ainda que nos deve deixar alguma tranquilidade! Diz o sapiente mestre, nas suas alocuções,de que como tudo isto está rolando é normal.”É A DEMOCRACIA A FUNCIONAR.”

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