PS: o caso dos “mortos que se inscreveram para votar”

O caso daria para rir se não fosse tão grave. Desde os jornais que escrevem que os “mortos se inscreveram para votar” , até a artigos de opinião que fazem humor com o caso,  a questão está a minar a credibilidade das primárias do PS e do próprio partido.

Não se compreende como é que o secretário-geral, António José Seguro, não coloca um ponto final no assunto divulgando os nomes dos militantes que pagaram  quotas  ilegitimamente, abrindo um inquérito ao que se passou nos casos já relatados em Braga, Coimbra e Famalicão, a fim de que, se tiver havido  procedimentos ilícitos, os responsáveis sejam exemplarmente punidos.

Não basta afirmar que os casos detectados foram corrigidos. É necessário conhecer os responsáveis e as  circunstâncias em que foi possível que os  ilícitos relatados tenham sido praticados. O Regulamento de quotas do PS indica os modos de pagamentos possíveis, pelo que não é difícil ao secretário-geral identificar e divulgar os nomes dos falsificadores, sem ter que violar qualquer sigilo bancário.

António José Seguro tem todo o interesse em esclarecer completamente este imbróglio. Se o não fizer não se livrará de fechar os olhos e com isso implicitamente favorecer e proteger os infractores.

As declarações da candidata, sua apoiante, à distrital de Braga do PS considerando “normal” que os mortos surjam com quotas pagas, são ridículas e inaceitáveis, merecendo uma clara demarcação da parte do secretário-geral.

Trate-se ou não de “compra de votos”, António José Seguro deve esclarecer rapidamente a situação criada.

 

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Diário de Notícias: o eterno retorno a um perfil sonhado…

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A administração da Controlinveste anunciou a substituição do director do Diário de Notícias, João Marcelino, pelo jornalista André Macedo, até agora director do suplemento electrónico de economia do mesmo grupo, Dinheiro Vivo. De acordo com as notícias, a alteração na direcção envolve reposicionamento editorial do Diário de Notícias, que aponta para  “uma linha mais próxima da informação de referência” .

A escolha de André Macedo para dirigir o jornal, pelo seu perfil e experiência na área económica, parece corresponder à centralidade que os temas de economia assumem nos dias de hoje na vida dos portugueses e dos europeus. Por outro lado, o objectivo de posicionar o jornal como “jornal de referência” é uma espécie de eterno retorno a que o DN regressa sempre, depois de alguns períodos em que hesita entre um perfil  mais “popular” e um perfil mais próximo do conceito de “referência”.

Mais difícil parece ser o objectivo de recuperação de leitores para os níveis de há sete anos. De facto, os desafios que se colocam hoje aos jornais impressos não encontraram ainda respostas adequadas, tudo indicando que a compra de jornais em papel será cada vez mais uma opção minoritária que deverá ser compensada por um forte investimento no digital e na diversificação da oferta.

Numa época em que a publicidade escasseia ou é incerta e em que a oferta de informação gratuita se multiplica imparavelmente, o desafio maior é saber como levar os cidadãos a pagar por algo que eles podem obter gratuitamente e com qualidade satisfatória na internet.

A resposta residirá talvez em proporcionar-lhes informação com a qualidade, o rigor, a profundidade e a utilidade que eles não encontram gratuitamente. Ser capaz de conciliar a gratuitidade da informação disponibilizada online (num país em que a procura de informação jornalística não é um hábito enrarizado) com a disponibilização de conteúdos “premium” (pagos) é um desafio a encarar.

O Diário de Notícias está bem posicionado para a produção de conteúdos de qualidade, não apenas no que se refere ao noticiário de actualidade mas sobretudo recorrendo ao seu precioso arquivo e a uma redacção que, embora tenha perdido alguma memória, possui ainda um quadro de jornalistas experientes para a produção de conteúdos de maior exigência.

 

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Se é verdade porque é que não se diz?

Diector-Executivo do DE foi para o BdPO autor desta pequena nota, publicada na edição de hoje do jornal i, é Feliciano Barreiras Duarte, deputado  do PSD e ex- governante.

Encontrando-se o Banco de Portugal  sob os holofotes dos media é estranho que nenhum jornal tenha publicado a informação e que a “transferência”  tenha sido divulgada por um político.

O próprio Diário Económico continua a manter inalterado o nome do  Director-Executivo  e o site do Banco de Portugal é omisso quanto ao nome do seu director de comunicação, pelo que a informação carece de confirmação.

Afirma Barreiras Duarte que “se fosse na política e na justiça” já teria caído o Carmo e a Trindade”. De facto, a confirmar-se a transferência do jornalista da direcção de um dos mais importantes jornais de economia para a direcção de comunicação do Banco de Portugal sem um “período de nojo” fica em causa a sua independência face a uma instituição sobre a qual, segundo Barreiras Duarte, incluindo sobre o seu dirigente máximo, o governador, o jornalista escreveu artigos elogiosos.

Procurando no site do jornal encontra-se  este artigo, publicado em 2011 pelo director-executivo, Bruno Proença, em que este traça rasgados elogios ao então novo  governador, Carlos Costa, quando comparado com o seu antecessor, Vítor Constâncio, com frases como “o Banco de Portugal mudou” ou “a comunicação é mais clara”.

Ironia do destino: a comunicação do BdP é tudo menos “clara” e o  governador Carlos Costa  tem uma óbvia dificuldade de comunicação, para além de o BdP se ter revelado muito pouco transparente. Tendo em vista a “ameaça” de uma Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES/GES, em que a actuação dos reguladores, nomeadamente do BdP, não deixará de ser questionada e esmiuçada, compreende-se a necessidade de repensar as estratégias, os processos e os métodos de relacionamento com o público e não apenas com os banqueiros e com o poder político. Por exemplo, começar por preencher as imensas lacunas que existem ainda no conhecimento público de tudo o que se passou e levou ao descalabro do Grupo e do Banco Espírito Santo.

E se é verdade que o BdP contratou o director-executivo do Diário Económico não se percebe porque é que não houve notícia dessa contratação nem da parte do BdP nem de nenhum jornal (que eu tenha encontrado).

 

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Quem pode confiar na fiscalização do sistema financeiro?

A falta de transparência que tem marcado todo o processo BES/GES, sobretudo da parte do Banco de Portugal (BdP), apoiado nessa política de silêncio pelo primeiro ministro e pela ministra das Finanças, é a todos os títulos inaceitável.  E é-o tanto mais quanto ser certo, como se provou até aqui, que as instituições a quem cabe fiscalizar o sistema financeiro -o Banco de Portugal, a CMVM e os auditores internos e externos  – sem excluir  os media a quem cabe o escrutínio dos poderes, se têm mostrado incapazes de prevenir e desocultar a situação do Grupo e do Banco Espírito Santo que arrastou já uma das maiores e mais cotadas  empresas portuguesas – a Portugal Telecom (PT).

Como escrevi aqui, não faz qualquer sentido que o BdP anuncie auditorias forenses a instituições financeiras sem dizer quais são essas instituições e deixe que sejam os jornalistas a iniciarem a “caça” para saberem quais são elas, correndo depois riscos de informações incorrectas, como aconteceu com a auditoria ao Montepio Geral que afinal não se relaciona com a exposição ao BES ou com ilícitos criminais.  

De facto, que confiança podem os cidadãos ter nas auditorias que foram e estão a ser feitas quando, no caso do BES, em 30 de Julho passado era o próprio BdP a transmitir publicamente que, “tendo em conta a informação reportada pelo Banco Espírito Santo, S.A. (BES) e pelo seu auditor externo (KPMG & Associados – Sociedade de Revisores Oficiais de Contas, S.A), o BES detinha um montante de fundos próprios suficiente para acomodar eventuais impactos negativos decorrentes da exposição assumida perante o ramo não financeiro do Grupo Espírito Santo (GES) sem pôr em causa o cumprimento dos rácios mínimos em vigor.”? Ora, dias depois foi o que se viu… Alguém pediu responsabilidades à auditora?

Aliás, quer  Ricardo Salgado quer Zeinal Bava eram até há pouco considerados gestores modelo, com  provam os prémios e distinções, como o que a fotografia atesta em que  a PT e o BES foram premiados por “Boas Práticas de sustentabilidade em áreas de actuação distintas”

Ricardo Salgado e Zeinal Bava entre os galardoados com 0 Prémio de Cidadania das Empresas e Organizações, 2009

Ricardo Salgado e Zeinal Bava entre os galardoados com 0 Prémio de Cidadania das Empresas e Organizações, 2009, iniciativa conjunta da AESE e da auditora PwC

Curioso é o facto de o prémio a que se refere esta fotografia ser promovido com a colaboração de uma auditora financeira, a PricewaterhouseCoopers (PwC) .

Como é sabido, a realização de auditorias  pode envolver  conflitos de interesses resultantes de situações em que as consultoras são escolhidas e pagas pelos bancos cujas contas examinam, como aconteceu agora com a  PricewaterhouseCoopers  condenada em Nova Iorque a uma coima de 25 milhões de dólares por “alterar indevidamente” um relatório do banco japonês Bank of Tokyo Mitsubishi UFJ.

Em nome da transparência e do direito dos cidadãos à informação, as auditorias realizadas pelo Banco de Portugal e outras envolvendo dinheiros públicos deveriam ser públicas, como acontece, por exemplo, com as auditorias à RTP, promovidas pela ERC.

O Caso BES/GES, sobre o qual não cessam de surgir elementos novos, põe em causa a credibilidade do Banco de Portugal, da CMVM e das auditoras que ao longo do tempo atestaram a saúde do sistema financeiro nacional.

 

 

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Da imprudência do governador à lata do primeiro-ministro…

Em plena crise do BES, o Governador do Banco de Portugal anunciou que estavam a decorrer quatro auditorias forenses a várias instituições bancárias, sendo a mais grave a do BES. O governador não identificou quais eram as três outras instituições bancárias alvo das auditorias.

Passados alguns dias, e como era de esperar, os jornalistas, neste caso a RTP, descobriram que o Montepio é uma dessas instituições bancárias pelo que há dois dias que o Montepio é notícia de abertura dos telejornais com destaque nos jornais e nas rádios.

Ao anunciar auditorias forenses a bancos, sem dizer quais são esses bancos nem os motivos que o levaram a empreender essas auditorias, o Banco de Portugal está provocar alarme em todo o sistema financeiro. Possivelmente lá terá as suas razões mas parece imprudente vindo do  regulador. Não pode depois admirar-se se os portugueses começarem a retirar as suas poupanças para locais mais seguros do que os bancos portugueses.

Não bastaram já os erros cometidos com as fugas de informação no caso BES (que estão a ser escondidas debaixo do tapete sem que se conheça qualquer investigação) senão vir agora o Governador criar insegurança sobre o Montepio e sobre outros que falta identificar.

Se há burlas e fraudes que coloquem em risco o funcionamento de alguns bancos, então mais vale o Governador identificá-los e prevenir os cidadãos, em vez de fazer declarações ambíguas e generalistas como se fosse um comentador televisivo.

Passos Coelho na festa do Pontal no rescaldo da decisão do TC Vem a propósito referir a lata do primeiro-ministro, no Pontal, a falar da falta de ética nos negócios e na política como se fosse coisa de outros governos e de outros partidos. Até parece que o BPN, minado pela corrupção,  não era uma espécie de banco do PSD  e como se o seu partido não tivesse ao longo dos anos fornecido quadros ao BES e ao GES.

Um mínimo de decoro ficaria bem ao primeiro-ministro porque em política, mesmo no calor do Pontal, não vale tudo!

 

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Maria Luís Albuquerque: um “retrato” não muito edificante

A Revista do Expresso publica esta semana um “perfil” da ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque. Uma vez que Maria Luís recusou colaborar no “perfil”, a jornalista Christiana Martins, autora do texto, baseou-se em depoimentos e declarações da própria ministra e, sobretudo, em testemunhos de várias pessoas que com ela privaram de perto em diferentes fases do seu percurso pessoal e profissional.

Trata-se de um trabalho que vale a pena ler, não só pelo rigor que a jornalista coloca no “retrato” que traça de Maria Luís, mas sobretudo porque ele nos permite conhecer melhor a pessoa que dirige as finanças do País.

Não obstante a generalidade das testemunhas citadas reconhecerem as qualidades técnicas, a capacidade de organização e de trabalho, e a firmeza de Maria Luís Albuquerque, atribuem-lhe também características que a revelam como uma pessoa oportunista, desleal e capaz de não olhar a meios para atingir os fins.

A proximidade com Passos Coelho é o traço mais marcante e comum aos testemunhos recolhidos pela jornalista, paralelamente à convicção de que Passos Coelho lhe deve o acesso a informação que ela lhe fornecia enquanto técnica do IGCP, durante o governo de José Sócrates.

Ao ler os relatos que são feitos do seu comportamento enquanto técnica do IGCP, em funções que lhe davam acesso a informação privilegiada sobre a economia e as finanças do País, chegando a integrar comitivas restritas do então primeiro-ministro (por exemplo, na deslocação à Líbia)   e a participar em reuniões confidenciais de que depois havia fugas, vem infalivelmente à memória o seu comportamento na Assembleia da República no caso swaps e a facilidade com que mentiu aos deputados e manteve essas mentiras mesmo quando desmentida por documentos que provaram o seu conhecimento da situação. “Ela espalhou-se na argumentação sobre os swaps…bastava ter dito que a informação era insuficiente mas preferiu dizer que era nenhuma, foi uma opção política, uma encomenda, afirmou ao Expresso “uma pessoa envolvida no caso”

Nos depoimentos relatados ao Expresso conta-se que ela “passava informação” a Passos Coelho _ “ela passou informação decisiva sobre a real situação das contas públicas (…) havia informação sobre falta de dinheiro e falhanços nas emissões de dívida que  Passos sabia primeiro que Sócrates ou Teixeira dos Santos. Sem ela, nada disto teria sido assim“, diz uma testemunha. Segundo o Expresso,  “em alguns sectores do PSD” causava estranheza o comportamento de Maria Luís relativamente à passagem de informação, chegando a comentar ” Se ela faz isso com eles (PS) quem garante que não o fará connosco?”

Os elogios a Maria Luís, vindos de Bruxelas, e a comparação com Vítor Gaspar, são elucidativos: “a grande vantagem dela em relação ao antecessor é o facto de ser “mais precisa e técnica” e a facilidade que tem em colocar-se do lado do interlocutor, revelando inteligência social, diz ao Expresso “um dos seus interlocutores na UE”.

Não sei se a ministra das Finanças se revê neste seu “perfil”, no qual não quis colaborar. Talvez venha a desmentir alguns dos depoimentos publicados. Mas o retrato que resulta deste extenso e documentado trabalho se, por um lado, lhe reconhece qualidades importantes para as funções que desempenha – competência, trabalho, firmeza, capacidade de decisão e de comunicação – revela também traços de carácter que não abonam a seu favor.

Quem é afinal a ministra das Finanças? Seria importante que outros depoimentos pudessem confirmar ou infirmar tão problemático e pouco edificante “perfil”.

 

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O Tribunal Constitucional que se cuide: os jornalistas de economia é que sabem de leis

TCA dramatização conferida pelos jornalistas de economia ao chumbo do Tribunal Constitucional, da Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) aplicada aos pensionistas do Estado e aos cortes nos vencimentos dos funcionários públicos a partir de 2016, diz muito sobre algum do jornalismo que temos.

Logo que a decisão foi anunciada, os canais informativos encheram-se de comentadores, na maioria jornalistas de economia, que de um modo geral se empenharam numa  desabrida  tentativa de destruição da argumentação dos juízes, sem qualquer pudor e com a maior à vontade, como se conhecessem de fio a pavio o texto do acórdão e fossem catedráticos de Direito.

Contagiados pelo fundamentalismo destes mediáticos comentadores, os outros jornalistas que com eles contracenavam nas diferentes televisões, lançavam também sobre as decisões do tribunal, os anátemas do costume.

Mais eficazes  que o governo na crítica ao TC, até pelo benefício da credibilidade que alguns ainda possuem junto dos telespectadores, estes comentadores partem dos argumentos do governo e da maioria e terminam invariavelmente as suas intervenções com a pergunta do costume: “onde éque se vai buscar o dinheiro a não ser aos vencimentos dos funcionários públicos e às pensões de reforma?”. Não lhes ocorre nunca questionar os fundamentos da política económica e financeira porque, para eles, não há alternativa ao discurso oficial.

Estes jornalistas-comentadores são os maiores aliados do governo, sempre prontos a diminuir qualquer proposta de solução que não passe pela aceitação dos ditames da troika ou, de qualquer “tratado” que venha de lá.  O Tribunal Constitucional tornou-se, na visão destes jornalistas, um “inimigo” da recuperação económica do País. De tal modo que as reacções de Paulo Portas e do PSD pareciam música celestial quando comparadas com o destempero de alguns destes comentadores.

Tratando-se de especialistas em economia, e não só, calcula-se que tenham tido conhecimento de que hoje mesmo foi conhecida a declaração  do ministro das Finanças francês de que a França “chegará ao fim de 2014 com um défice superior a 4% do PIB e não respeitará a meta dos  3% em 2015″.

E então, Portugal está sujeito a algum regime especial de “trabalhos forçados” que não possa dizer também, como a França, que não podemos cumprir, assim, como a troika quer?

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