A incontinência verbal do ministro

 Será que o ministro dos Negócios Estrangeiros não sabe o que diz? Já se tinha percebido que  sofre de incontinência verbal. Mas desta vez, as suas “revelações” sobre as “raparigas portuguesas no Estado Islâmico que querem regressar”  revestem-se de contornos gravíssimos e absolutamente inadmissíveis, para mais, vindas de um ministro cuja principal característica devia ser, precisamente, a contenção e a diplomacia do gesto e da palavra.

Rui Machete é o contrário disso e sempre que dá entrevistas cria problemas. Foi assim no passado, com as declarações sobre um possível segundo resgate do País e com a entrevista a uma  rádio de Angola em que se referiu a um processo em segredo de justiça. Devia então ter sido substituído por manifesto erro de casting mas  o primeiro-ministro manteve-o, como faz a todos os governantes façam eles o que fizerem. Só saem por vontade própria.

O que disse Rui Machete à Rádio Renancença, que agora diz que não disse? Disse que “No caso português já há dois ou três, sobretudo raparigas, [que militam no grupo terrorista Estado Islâmico] que se deixaram encantar pelo entusiasmo dos noivos ou por um espírito de aventura, que agora estão a querer voltar. Há 12 ou 15 [portugueses no Estado Islâmico], não sabemos exactamente bem, mas é um número muito reduzido.

Depois da “borrada” que fez com estas declarações, o ministro veio dizer que “não deu  qualquer tipo de informação que permita a identificação de cidadãos portugueses que participem neste movimento terrorista”

Será que o ministro não percebe que qualquer terrorista do chamado Estado Islâmico ao saber que há portuguesas alistadas na “seita” que se arrependeram e querem voltar, pode bem acabar com elas? E o ministro não pensou que as identificou pela nacionalidade? Acha que os terroristas a que elas se ligaram  precisam que lhes digam os nomes?

Como se não bastasse, em vez de demitir o ministro, o primeiro-ministro  desvaloriza as suas declarações. Estão bem um para o outro, mas ambos estão muito mal para o País.

 

 

 

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O País em modo dominó

As 108 personalidades que vão ser chamadas a depôr na Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso BES compõem um grande fresco sobre a decadência do regime. Depois do crash do Grupo e do Banco Espírito Santo temos agora o crach da PT, cujos estilhaços  ameaçam chegar a outros grupos e bancos.

Freitas do Amaral disse ontem na RTP Informação que os portugueses vão pagar muito mais pelo BES do que pagaram e vão continuar a pagar pelo BPN e mostrou-se escandalizado com a displicência do governo e a inépcia do Banco de Portugal ao não terem evitado a falência do BES e a queda da PT.

Também as peripécias do Orçamento de Estado e as emendas de que tem sido alvo mal viu a luz do dia tornam-no uma espécie de “obra aberta” na qual cada um vai escrevendo uma parte, sem que se vislumbre como ficará no fim.

E como se as coisas não fossem já suficientemente más com a austeridade que afinal não acabou com a troika, o primeiro-ministro, ou alguém por ele, manda dizer aos jornais que enganou o seu parceiro e só apresentou a proposta sobre o “crédito fiscal” do IRS depois da meia-noite! Bem disse Freitas do Amaral quando afirmou que o primeiro-ministro humilhou Paulo Portas e ainda se gabou disso!

Na educação, o ministro Crato é hoje uma figura burlesca. O primeiro-ministro arrasta-o para eventos públicos, expondo-o despudoradamente, não se sabe se para o castigar apesar dos elogios que lhe dirige, carregados de “veneno” para quem os quer entender.  E Crato, qual bobo da corte atrás do primeiro-ministro, nem cora de vergonha pelo ridículo de o ouvir dizer que escolhê-lo foi uma coisa certa porque ele não “lava as mãos” dos problemas!

É caso para dizer que o País está em modo dominó!

 

 

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Os gulosos, segundo Passos Coelho

Passos eleiçõesPassos Coelho não concorda com a antecipação das eleições legislativas e já deixou um aviso: “As eleições só podem ser antecipadas em razão de alguma crise política que eu não desejo”. E na Casa das Artes, em Arcos de Valdevez, voltou ao tema referindo-se “aos que olham agora gulosamente para as eleições”.

É evidente que Passos não está interessado em apressar as eleições, tendo em vista as sondagens que têm surgido que dão o PS à beira da maioria absoluta. Joga, por isso, com algum desgaste de António Costa que permita ao PSD recuperar pontos no tempo que ainda falta,caso as legislativas venham a realizar-se em Outubro de 2015.

Ao escudar-se  impropriamente na Constituição, o primeiro-ministro não faz mais do que aquilo de que tem acusado a oposição, isto é, pensar mais no seu interesse e no do seu partido do que no interesse do País, contrariando as opiniões unânimes em defesa da antecipação das eleições para  permitir que o orçamento de 2016 seja preparado com tempo pelo governo que sair dessas eleições.

Pelo que se conhece da sua actuação, sem o acordo da actual maioria dificilmente o Presidente terá o “golpe de asa” de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas.

Mas a oposição, e sobretudo o PS, deverão ter presente que a verificar-se, por absurdo, o citado “golpe de asa” e o Presidente vir a antecipar as eleições legislativas, Passos e o PSD não deixariam de se apresentar como vítimas de uma “aliança” entre o Presidente e o PS, acusando-os de não lhes permitirem cumprir o seu mandato.

A discussão pública seria então em torno da dissolução do Parlamento e não em torno da actuação do governo PSD-CDS e do estado em que deixam o País. As propostas do PS e da restante oposição seriam relegadas para um plano secundário. A actual maioria poderia, afinal, beneficiar da antecipação do calendário eleitoral.

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O sexo e os juízes

sexo aos 50 2A Associação de Mulheres Juristas criticou o  Supremo Tribunal Administrativo que reduziu indemnização por erro médico a mulher por a sexualidades aos 50 anos “não ter a importância” que tem noutras idades.

Segundo a notícia do Público “um dos argumentos dos juízes, eles próprios com idades entre os 56 e os 64 anos, foi precisamente o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, ou seja, uma “idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Este caso trouxe-me à memória um outro acórdão proferido em 2007 que tece também considerações, no mínimo pouco jurídicas, sobre sexo e sexualidade. O caso envolvia abuso de um menor de 13 anos e ocorreu em 2007,  tendo sido divulgado pelo jornal 24 Horas

24 horas Artur Costa

Na altura, o caso provocou polémica no meio judicial porque o juiz  veio  a público defender a decisão, já que os juízes estão impedidos, pelo “dever de reserva”, de comentar processos, só podendo fazê-lo em situações restritas mas sempre com autorização prévia do Conselho Superior de Magistratura.

Estes acórdãos  levantam algumas questões relacionadas com  as componentes extra-jurídicas da formação dos agentes da justiça. Independentemente do  modo sensacionalista como muitas vezes são tratados jornalísticamente casos  envolvendo conteúdos de natureza sexual, o que está principalmente em causa em ambos os acórdãos citados é a sua substância, como se o bom-senso, a cultura, o conhecimento da realidade e a experiência de vida de um juiz não contassem no momento de ele decidir sobre aspectos tão íntimos e sensíveis, logo, dificilmente objectiváveis, como sejam a sexualidade de uma criança ou de uma mulher de 50 anos.

As considerações do  Supremo Tribunal Administrativo sobre a  sexualidade das mulheres de 50 anos presta-se a comentários como este. Por outro lado, o Supremo Tribunal Administrativo podia ter ouvido  especialistas que lhe teriam dito que  “uma larga percentagem de mulheres tem uma vida erótica mais satisfatória entre os 50 e os 60 anos do que antes, porque se sente mais liberta de tabus”, e que  “Pode ser infinitamente mais gratificante uma relação erótica bissemanal aos 50 e poucos do que uma frequência diária aos 30”,

O lado positivo deste acórdão é o facto de ter revelado aos  juízes que o assinam que a sexualidade feminina não acaba aos 50.

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Um banqueiro de quem os jornalistas gostavam

BES por Cristina Ferreira

«(…) [Ano de 2004]

15 de Janeiro. As multinacionais e as grandes empresas têm uma prática de oferecer viagens aos media, o que gera um ambiente informal favorável a passar mensagens que interessam. Entre Salgado e a comunicação social sempre houve uma empatia recíproca. Salgado gostava de falar através dos jornalistas, os jornalistas viam nele o poder. Se necessitava de enviar recados, o banqueiro promovia encontros em locais inesperados. Um deles decorre em Megève, nos Alpes franceses, onde fala da tentativa de concentração com o BPI: “Não se concretizou devido ao grande peso que o La Caixa (16%) tinha. Não somos ingénuos e percebemos o risco.” Observações reproduzidas na imprensa do dia seguinte.

(…)» (excerto do artigo de Cristina Ferreira “BES: Crónica do fim do império: Ascensão e queda dos Espírito Santo, Público, Revista 2 19/10/2014

É um extenso trabalho o que a Revista 2 do Público iniciou este domingo, que não se limita a reproduzir documentos, antes os relaciona e enquadra, como aliás a mesma jornalista  fez noutro excelente trabalho sobre  “O dia em que Sócrates pediu a Cavaco para o salvar da troika”, publicado no Público em Abril de 2012, cerca de um ano após o resgate.

O pequeno excerto que reproduzo acima remete para o que outro jornalista, Nicolau Santos, escreveu no Expresso sobre a maneira como Ricardo Salgado  se relacionava com os jornalistas.

Seria útil conhecer também esse  lado da história do BES – as relações entre Ricardo Salgado e a imprensa – para uma melhor compreensão de como foi possível  um grupo com 150 anos de história dirigido por um banqueiro considerado emblemático desmoronar-se de um momento para o outro perante a (aparente) surpresa e impotência do País.

Não será talvez um trabalho para ser feito por jornalistas, eles próprios protagonistas dessa parte da história. Mas o seu contributo, através de relatos como os de Cristina Ferreira e Nicolau Santos, é importantes e indispensável para quem queira lançar-se nessa tarefa.

 

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Caso BES: os “papéis” da vingança

Nas últimas semanas não cessam de surgir na imprensa documentos variados, cartas, actas de reuniões, etc., relativos ao BES, uns publicados pelo Expresso, outros pelo i e hoje também pelo Sol.

sol-2014-10-17-4fc82b salgadoi Salgado 17 Ou 2014

Como escreveu o sociólogo Daniel Boorstin, o importante não é só o que acontece mas também o que a comunicação social diz que acontece.

Se Boorstin pudesse ter estudado o caso BES certamente acrescentaria que importante é também  saber como acontece, quando acontece e porque acontece.
expresso diário Salgadoc-89ffA publicação dos documentos surgidos na imprensa é indissociável do contexto em que surge, desde logo: o comportamento do primeiro-ministro e da ministra das Finanças dissociando-se da solução Novo Banco / Banco Mau; a questão da fuga de informação que levou à venda das acções nos últimos dias antes da Resolução, que poderá ter afundado definitivamente  o BES; a atitude do governador do BdP deixando apodrecer a situação;  o processo judicial que decorre na Procuradoria-Geral da República; a comissão de inquérito parlamentar.

Ora, apesar de os documentos vindos a público revelarem comportamentos inaceitáveis da parte do BES e do seu presidente Ricardo Salgado, esses comportamentos não são surpreendentes depois do que o governador do BdP disse sobre o funcionamento do BES.

Daí que o que de mais surpreendente se retira dos  documentos publicados é a evidência de que o governo de Passos Coelho, agora com os nomes nos” papéis” publicados hoje pelo Sol – primeiro-ministro, ministra das Finanças, Carlos Moedas  e o Presidente da República – foram informados pelo próprio Salgado, em Junho passado, sobre a situação do grupo e do banco.

Nenhum deles desmentiu até agora a versão dos “papéis”. Carlos Moedas confirmou mesmo que recebeu o telefonema de Ricardo Salgado pedindo os seus bons ofícios junto da Caixa Geral de Depósitos e do ministro da justiça do Luxemburgo, embora afiance que não  deu sequência ao pedido. Ora, a não ser que os “papéis” sejam falsos, alguém tem de explicar a narrativa posta a circular de que ninguém sabia o que se estava a passar no BES/GES.

E assim os papéis que aparentemente afundam ainda mais Ricardo Salgado são tão ou mais comprometedores para o governo,  para o governador do BdP e para o Presidente da República porque mostram que Salgado os informou e até lhes pediu ajuda.

E, afinal, Ricardo Salgado já bateu tão fundo que dificilmente haverá “papéis” que o afundem mais.

Há ainda um pormenor:  a Comissão Parlamentar de Inquérito não vai ter de perder tempo a pedir documentos. Estão todos nos jornais. Se não fosse isso nem se saberia que existiam.

A vingança serve-se fria e, neste caso, através de “papéis”.

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Antidepressivos para ler o Orçamento de Estado

O Expresso diário e o Diário Económico têm hoje edições gratuitas dedicadas ao Orçamento do Estado. Seria um bom contributo para a literacia económica dos portugueses não fosse dar-se o caso de, segundo opiniões insuspeitas, este ser um orçamento “deprimente”, uma espécie de “labirinto”, cuja saída não se encontra.

Estas opiniões são de responsáveis do jornal electrónico Observador que não pode ser conotado com a oposição. Pelo contrário. Eis alguns excertos dessas opiniões:

“(…) Olhar para o Orçamento de 2015 é deprimente. (…) Quatro anos depois, a despesa corrente vale exactamente o mesmo: 44,6% do PIB. É como se, depois de tantas batalhas, tivéssemos voltado à estaca zero. (…) Tecnicamente, este é um Orçamento desconcertante. Há muitas contas que não se conseguem entender, há a suspeita (e o receio) de que só com alguma suborçamentação das despesas se chegou a números finais aceitáveis(José Manual Fernandes)

Sim, este Governo chegou ao fim do caminho adiando os problemas, empurrando-os com a barriga, como muitos outros já fizeram. Perdeu na luta contra o TC, perdeu-se nas diferenças internas. Merecia uma réplica na conferência de ontem: “Se forem reeleitos, que orçamento é que conseguem fazer para 2016?”. (David Dinis)

Eis como uma boa iniciativa do Expresso e do Diário Económico para o esclarecimento dos portugueses, oferecendo-lhes gratuitamente edições especiais sobre o Orçamento de Estado, pode ter levado a um aumento do consumo de antidepressivos.

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